Skip to main content
Internet Archive's 25th Anniversary Logo

Full text of "A comedia de Lisboa; com um prologo por Pinheiro Chagas"

See other formats


-•^i 



'f: 



*v 




Digitized by the Internet Archive 

in 2010 with funding from 

University of Toronto 



http://www.archive.org/details/comediadelisboacOOIoba 



GERVÁSIO LOBATO 



jí Comeõia 



de £isboa 



COM UM PROLOGO 

POR 



PINHEIRO OHAGAS 



(SEGUNDA EDIÇÃO) 




• PORCO 
Civraria Gbardron, de Cello Sf írmio, 
editores — Kua das Carmelitas, i44 

1911 



1 






A COMEDIA DE LISBOA 



Livraria Chardron, de Leilo &. Irmão, editores 

Rua das Carmelitas, 144 — PORTO 



JLLIO CÉSAR MACHADO 
e PINHEIRO CHAGAS 

Fora da Terra. Caldas da Rai- 
nha — Festas da Nazareth, 
etc. I vol SOO 

F. XAVIER DE NOVAES 

Poesias Posthunxas . . i$ooo 



JOÃO DE LEMOS 

Serões d'aldêa, i vol. . . 
Impressões e recordações. 

ALBERTO PIMENTEL 



600 
600 



Guia do viajante nos caminhos 
de ferro. De Lisboa ao Por- 
to — Do Porto a Braga, etc.„ 
I vol. cartonado com o map- 
pa de Portugal. . . . 700 

O capote do snr. Braz. .:50o 

SOARES ROMEO JÚNIOR 

Recordações litterarias . . 500 

OCTÁVIO FEUILLET 

Os amores de Philippe, tradn- 
cção de Pinheiro Chagas 500 

CAMILLO CASTELLO BRANCO 

A freira no subterrâneo, ro- 
mance histórico, 4." edição, 
I vol 500 

Bibliotheca d'algibeira. Noites 
de insomnia. 12 vol. . 2$40o 

ANTHERO DE QUENTAL 

Odes modernas, 3.* edição, con- 
tendo varias composições in- 
éditas, I vol 400 



Considerações sobre a philoso- 
phia da historia litteraria 
portuguesa . . . , . 200 

VISCONDE DE BENALCANFÔR 

Phantasias e escriptores con- 
temporâneos, I vol. . . 500 

SCENAS DE VIAGEM : 

Na Itália, i vol Soo 

De Lisboa ao Cairo, i vol. 600 

AUGUSTO LUSO DA SILVA 

Impressões da natureza . 500 
JOSÉ DE SOUSA BANDEIRA 

Bscriptos humoristicos, em pro- 
sa e verso, 2 vol. . i$200 

CUNHA VIANNA 

Relâmpagos, com um prologo 
por João Penha, i vol. 400 

ERNESTO LEGOUVÉ 

Historia moral das mulheres, 
1 vol 800 

BALZAC 

Physiologia do matrimonio ou 
meditações sobre a felicidade 
ou infelicidade conjugal, 2 
vol i$ooo 

La Vendetta, i vol. . . 400 

CASTILHO 

Theutro de Shakespeare, i." 
tentativa. Sonho d'uma noi- 
te de S. João, drama em s 
actos e em verso, i vol. 600 



GERVÁSIO LOBATO 



A MEDIA DE LISBOA 



COM UM PROLOGO 



PINHKIRO CHAGAtS 



(SE6UNDA EDIÇÃO) 




PORTO 

de Leilo k Irmão, editores 
Rua das Carmelitas. 144 

1911 



Propriedade absoluta dos editores 



O "accordo., assignado no Rio de Janeiro em 9 de Setembro 9e 
1889, entre o Brasil e Portugal, assegurou o direito de propriedade 
lifteraria e artística em ambos os paires. 



n presente edição está deoidamente registada nas Bibllothecas 
Ilacionaes, de Lisboa e Rio de 3aneiro. 



FEB 7 1968 



~^ 



UeCSH 
Ilf( 



PORTO — IMPRENSA MODERNA 



PROLOGO 



Quando eu fundei o Diário da Manhã, jornal 
que teve no primeiro semestre da sua existência 
o nome de Discussão, procurei entre o grupo de 
rapazes, que faziam as suas primeiras armas em 
litteratura, um que me podesse coadjuvar na ár- 
dua tarefa que ia emprehender. Pretendia eu fun- 
dar um jornal com a indole perfeitamente moder- 
na, um jornal que não merecesse a accusação que 
fez John Latouche á nossa imprensa, dizendo que 
se parece hoje com a imprensa ingleza do princi- 
pio do século XVI 1 1. Lera uns folhetins soltos que 
Gervásio Lobato publicara no Jornal da Noite, 
no Pak, em outros periódicos de Lisboa. Revê- 



Prologo 

lavam qualidades de estylista notáveis, mostra- 
vam sobretudo uma indole litteraria extremamen- 
te progressiva. Entre dous folhetins, publicados 
com dous mezes de intervallo, sentia-se uma dif- 
ferença espantosa. Pessoalmente conhecia-o pou- 
co ; entrevira-o uma ou outra vez na meia luz dos 
ensaios, trocávamos um aperto de mão distrahido 
nos entre-actos das primeiras representações. 
Comtudo sympathisava com elle. Gervásio Lo- 
bato tem o olhar extremamente bom. A luz das 
suas pupillas é leal e franca. Lembrei-me de o 
escolher. Uma noite encontrei-o no ensaio d'uma 
peça minha, que ia representar-se no theatro de 
D. Maria ii. Ao sahir da porta do palco, e ao 
tirar da algibeira o meu charuto da volta, pedi-lhe 
lume e offereci-lhe para ser meu collaborador. 
Deu-me lume e aceitou a offerta. No dia 30 de 
junho de 1875 estávamos sentados ao lado um 
do outro a uma banca de redacção, empenhados 
na Ímproba tarefa de fazer sahir um primeiro 
numero de jornal. 

Não me enganara nas minhas previsões. A 
collaboração de Gervásio Lobato foi-me utilíssi- 
ma. Sabia dar á noticia a forma que eu desejava 
imprimir-lhe. a fórnifi da noHvdlç à la niain ou 



PROLOOO 

(lo faif (íirrrs. O jornalismo lá fora é uma arte, 
entre nós é um officio. Aqui a noticia não tem 
còr, é banal ou pretenciosa, chata como um periodo 
da parte da policia, ou rhetorica e declamatória 
como um paragrapho de artigo de fundo. Em 
Paris a noticia é uma no\-ella ou um drama, feito 
simplesmente com os elementos da verdade, sem 
flores nem invenções. Em cada crime que se com- 
mette ha um romance sinistro. Para lhe arran- 
car das entranhas esse romance, que lá existe, 
basta saber vêl-o. 

Nos jornaes jxírtuguezes quem dá a noticia 
habitualmente é um repórter boçal que não soube 
vêr cousa alguma, que traz na algibeira a cer- 
tidão de baptismo do réo, e o nome do policia que 
o prendeu. O joríialista intelligente pÕe de parte 
a noticia do repórter, e vai colher pessoalmente 
as informações. A noticia, que faz deix3Ís, é pro- 
fundamente verdadeira, e notavelmente dramática. 
A i^edido meu, Gervásio Lobato muitas vezes se 
substituiu ao informador. As noticias, que em 
seguida escrevia, eram interessantes como um ca- 
pitulo de Gaboriau. Foi assim que no caso de 
Joanna Pereira soube impressionar o publico úni- 
ca e simplesmente com a relação dos factos, mas. 



Prologo 

vistos por elle com a perspicácia d'iim analysta, 
contados com a intuição dramática d'um artista. 

N'este exercício quotidiano do Diário da Ma- 
nhã o seu talento foi-se robustecendo, foi-se ades- 
trando a sua penna. Um dia propuz-lhe que es- 
crevesse uma serie de folhetins com o titulo de 
Vida cm Lisboa. Seduziu-o a idéa. Com o pseu- 
donymo de Gilberto escreveu a primeira revista 
narrando um facto da vida real. A apparição 
d'este folhetim foi em Lisboa um acontecimento 
litlerario. O publico, que não podéra seguir passo 
a passo, na miscellanea anonyma d'um jornal, o 
progresso do talento de Lobato, ficou surprehen- 
dido çoin esta revelação. Gervásio Lobato trans- 
formára-se. A sua individualidade litteraria, ou- 
tr'ora hesitante e como que tropeçando a cada 
instante nas roupagens d'um estylo demasiada- 
mente palavroso, affirmava-se de súbito radiosa e 
original. Lisboa tinha mais um grande folhe- 
tinista. 

As chronicas quinzenaes do Diário da Manhã 
obtiveram um successo de primeira ordem. D'es- 
sas chronicas se formou o livro que prefacio. 

Cada uma das gerações, filha, neta e bisneta 
do movimento romântico em Portugal teve o seii 



Prologo 

folhetinista que a representou. Lopes de Mendon- 
ça foi o folhetinista da primeira, Júlio César Ma- 
chado o da segunda, Gervásio Lobato é o folheti- 
nista da immediata. Cada um tem sido, pelo fei- 
tio do seu talento, o representante completo da 
camada litteraria a que pertenceu ; Lopes de Men- 
donça foi a phantasia. Júlio César Machado o es- 
pirito, Gervásio Lobato é a observ-ação. Gervásio 
segue o movimento realista, que se apoderou da 
geração contemporânea. Na serie de folhetins, 
em que elle estuda a vida d'uma familia burgueza 
de Lisboa, adopta incontestavelmente o processo 
Zola, e procura os seus melhores ef feitos na re- 
producção fiel das scenas verdadeiras. 

E não se julgue por isso que adoro o reali.3- 
mo. Offerece-se-me ensejo de dizer, a este res- 
peito, o que penso ; vou dizel-o. 

A geração moderna, principalmente em Por- 
tugal, cuidou sinceramente que fazia uma revolu- 
ção na arte, fumando o seu charuto á porta da casa 
Havaneza. como os nossos republicanos de sala 
imaginam que fazem uma revolução na politica, 
se conseguirem substituir a forma da monarchia 
constitucional pela forma republicana. Uns e outros 
parecem-se com um estudante de introducção que 



Prologo 

imaginasse ter acrescentado, com um aterro de 
caminho de ferro, um novo estrato ás camadas 
sobrepostas que marcam as di ff crentes épocas da 
vida geológica do globo. 

As revoluções não se succedem nem na arte, 
nem na politica, nem na sciencia, com tão curto 
intervallo de tem^x). Não brotam sem motivo nem 
razão da phantasia d'um litterato c[ue aspira ás 
honras de chefe de escola, nem da declamaçãv) 
d'um estadista en herbe que sonha os prestigios e 
as glorias d'um primeiro papel-genero Danton, 
n'alguma tragedia revolucionaria. 

As revoluções da arte e da politica, ligadas 
fatalmente entre si, porque são apenas as mani- 
festações diversas das revoluções do espirito hu- 
mano, brotam de séculos a séculos, e as gerações 
intermédias ás gerações revolucionarias não fa- 
zem senão continuar a obra da revolução que veio, 
e preparar os germens da revolução que ha-de vir. 

O numdo moderno, que nasceu do christianis- 
mo, trouxe nas entranhas a gestação predestinada 
de três grandes revoluções: a revolução religiosa, 
a revolução politica, a revolução social. A pri- 
meira chamou-se Luthero, a segimda chamou-se 
Mirabeau e a terceira chamar-se-h^... quem sabej* 



Prologo 

A revolução religiosa secularisou a sociedade, 
a revolução politica democratisou-a, a revolução 
social ha-de nivelal-a. 

A revolução de 1789, de que fòrani echos em 
toda a Europa as revoluções liberaes, fez a gran- 
de obra: aniquilou o despotismo, destruiu as clas- 
ses, extinguiu os privilégios, estabeleceu a igual- 
dade perante a lei, emancipou o pensamento de- 
baixo de todas as suas fornias, tornou vontade 
do povo a origem suprema do poder. Os republi- 
canos, que por ahi se agitam, julgando-se predes- 
tinados para um grande papel cuja aspiração se 
limita a substituir este presidente de republica he- 
reditário, que se chama rei constitucional, por um 
presidente de republica electivo, e que tratam com 
desdém os seus gloriosos predecessores, que des- 
truíram a monarchia oppressora, não tocando no 
nome consagrado pelos séculos, são simplesmente 
ridiculos, e pagam caro esse ridículo. Chamam o 
povo ás armas contra a monarchia? E depois, o 
que lhe dão com a republica? A soberania na- 
cional? Já a tinha desde que da sua eleição nas- 
cia o parlamento. A liberdade de imprensa, de 
reunião, de pensamento, de consciência? Tudo 
isso já o possuía. 



Prologo 

O povo, que tem o instincto da verdade, ou- 
vindo os Gambettas e os Castelares apostolarem 
uma nova redempção, uma revolução mil vezes 
mais completa do que a revolução de 1789, julga 
que é a revolução social que surge. Desenganam- 
n'o logo. e do desengano brotam a Coinmuna e a 
Cantonalidade e de uns e de outros surge a 
reacção. E os republicanos desapparecem no meio 
da tormenta que desencadearam sem a compre- 
hender. 

Procurar evitar a revolução social, substituin- 
do-a pela evolução, modificar, pelo estudo serio e 
reflectido de todos os problemas económicos e 
administrativos, o modo de ser da sociedade actual, 
procurar destruir a influencia absorvente e centra- 
lisadora do Estado pelo desenvolvimento cada vez 
mais amplo das liberdades municipaes, extinguir 
pela pacificação os terríveis desequilíbrios econó- 
micos introduzidos em todas as sociedades, pela 
existência da guerra e pela manutenção dos exér- 
citos, destruir todas as pêas que se oppõem á livre 
expansão do trabalho humano, e sobretudo dissi- 
par pela instrucção moralisadora os erros cruéis 
que invadem o espirito das classes laboriosas e que 
as entregam desarmadas a todas as utopias lou- 



Prologo xiii 

cas, a todas as explorações devassas, a todos os 
sonhos idiotas de reformadores ineptos, eis qual 
devia ser o trabalho da nova geração, que, em 
vez de comprehender a sua missão nobilíssima, 
imagina que recebeu do Omnipotente o encargo 
supremo de desmonarchisar a sociedade, como se 
a substituição d'um rei por uma republica resol- 
vesse o mais pequeno sequer de todos os proble- 
mas que preoccupam a mente dos pensadores, 
como se nos Estados-Unidos estivessem esses pro- 
blemas uma pollegada mais adiantados do que 
na Inglaterra, e na França mais próximos da sua 
solução do que na Allemanha. 

Estas aspirações revolucionarias, que alimen- 
tam a bilis de todos os declamadores que por esse 
mundo fervilham, obrigam-n'os a phantasiar des- 
potismos para terem o gosto de os destruir, e a 
fabricar tyrannos para poderem brandir contra 
elles a espada clássica de Hermodio e de Aristo- 
giton. E' por isso que Victor Hugo, o chefe da 
tribu dos simili-Dantons, brada contra os reis que 
levam os povos á guerra, contra as monarchias 
que negam ao escriptor o seu direito de proprie- 
dade, como se a rainha Victoria tivesse alguma 
cousa com a guerra do Oriente, ou como se Leo- 



Prologo 

poldo II da Bélgica pensasse em contestar a Vi- 
ctor Hugo o direito de vender a quem quizer os 
manuscriptos das suas obras immortaes. 

Mas esta declamação é indispensável para as 
necessidades da sua causa. Para renovar as de- 
clamações dos Dantons contra monarchias que já 
não existem, é indispensável pôr nos hombros en- 
casacados de um modesto rei constitucional a pur- 
pura de Luiz XIV, fazer do seu guarda-chuva de 
barba de balêa o férreo sceptro dos Philippes, e 
confundir a sua assignatura, que não tem valor 
n'um decreto sem a referenda d'um ministro par- 
lamentar, filho da eleição, e delegado da sobera- 
nia nacional, com o posso, quero e mando das ve- 
lhas monarchias absolutas. 

O que acontece na politica succede igualmente 
na litteratura, e foi só para isso que veio n'um 
livnj exclusivamente litterario esta divagação po- 
litica. E' que as diversas manifestações do espi- 
rito humano ligam-se de tal forma que umas sem 
as outras não se comprehendem, e que umas pe- 
las outras facilmente se explicam. A joven litte- 
ratura não se quer resignar a ser apenas a conti- 
nuação do movimento romântico, aspira também 
a ter a sua revoluçãosinha, quer fazer de Zola um 



Prologo 

Goethe, de Champfleury uni Walter Scott, dos 
Parnasianos um Cenáculo da Place-Royale, de 
Gustavo Flaubert um Alexandre Dumas. Levanta 
a bandeira da verdade na arte. sem se lembrar que 
essa bandeira foi exactamente a que se hasteou 
nos prólogos celebres do CrouiweU de Hugo, e da 
traducção do OtJicIlo de Vigny, que a invasão 
do realismo na arte foi inaugurada pela resurrei- 
ção de Shakespeare, o grande analysta do cora- 
ção humano. Querem derrubar a rhetorica, sub- 
stituir a palavra verdadeira e crua á periphrase 
académica, e parece que ignoram que foi esse 
exactamente um dos característicos principaes da 
revolução dos românticos contra o classicismo. E, 
para imitarem em tudo a cohorte siniili-rcvolucio- 
iiaria da politica, estes síniili-revohicionarios da 
arte chegam a lançar em rosto aos românticos aí3 
preguices pastoris das Arcádias do século xviii, 
que elles derrubaram, da mesma forma que os re- 
publicanos de hoje lançam em rosto aos monar- 
chistas liberaes, as forcas do absolutismo em que 
muitos d'elles morreram ! 

O realismo é pois simplesmente a continua- 
ção, mas a continuação degenerada íIo romantis- 
mo. O realismo toma os meios pelos íins, o acces- 



xv>i Prologo 

• 

sorio pelo principal. SuppÕe que o drama con- 
siste no scenario, o personagem no feitio, a ver- 
dade na photographia. Não vê que a arte na es- 
crupulosa imitação do verdadeiro, não pôde que- 
rer outra cousa senão dar um potente colorido de 
realidade ás figuras creadas por ella, mas que, se 
essas figuras não vem á scena do romance fazer 
alguma cousa que nos interesse, que nos com- 
mova, que nos agite, que nos enthusiasme, o livro 
tem simplesmente o caracter banal e fastidioso 
de um álbum de photographias de familia n'uma 
casa burgueza. Não comprehende que o fim da 
arte nunca pôde ser outro senão o de dar aos es- 
piritos e ás imaginações um ideal sublime e puro, 
que é assim que ella moralisa e eleva, que fazer 
da arte como que uma succursal da physiologia 
é collocar o artista na plana d'aquelles ingénuos 
vulgarisadores de sciencia amena, que fazem para 
uso dos espíritos frívolos um tratado de sciencia 
recreativa, que nem entretém, nem instrue, que 
o campo da arte e o campo da sciencia são absolu- 
tamente diversos, que a sciencia pôde e deve auxi- 
liar o romancista, como a chimica auxilia o pin- 
tor, dando-lhe o segredo das tintas, mas que não 
pôde de modo algum fazer-lhe esquecer a mis- 



Proi<ogo 

são especial que ao artista compete, que no cam- 
po da sciencia, [xor mais que o artista faça, nunca 
poderá competir com o sábio, e que os seus es- 
tudos physiologicos fazem bocejar os frÍA'olos, c 
sorrir os physiologistas. que, se a arte emfim tem 
de ser a repetição da sciencia, que. se um romanc'j 
é uma variante de um tratado de medicina, e um 
poema uma \'ariante de um tratado de sciencias 
politicas e sociaes, o poema e o romance deixam 
de ter razão de ser, e que é um trabalho ])erfei- 
tamente pueril estar a fazer livros de physiologia 
dialogada, e dissertações economico-politicas com 
rimas e cadencia. 

Além d'isso o realismo não comprehende que 
a verdade artística não é a cópia, e ignora com- 
pletamente as leis da ^perspectiva e os phenomenos 
da óptica. Desenhar um objecto como na reali- 
dade elle é, sem attender á situação do espectador 
que tem de o vêr, seria um contrasenso que ne- 
nhum pintor praticaria. Se um paizagista contar 
as arvores de um campo, medir a sua altura, e 
transportar tudo isso geometricamente para a tela 
sem distincção de planos, sem attenção pelas leis 
da perspectiva, fazendo do mesmo tamanho todas 
as arvores, embora umas fiquem no fundo do 

2 



Prologo 

quadro e as outras na frente, ninguém dirá que 
reproduziu com verdade a paizagem que copiou, 
ninguém poderá reconhecer na copia a scena ori- 
ginal. Este disparate praticam-no comtudo os rea- 
listas, que collocam no mesmo plano ós heroes e 
os comparsas, que desenham minuciosamente as 
feições de um personagem, os moveis do seu quar- 
to, as pedras da sua rua, de forma que nas suas 
descripções confusas o leitor não consegue de 
modo algum reconstruir na imaginação a figura 
ou a cousa que elles representam, e que lhe fica- 
ria para sempre impressa na memoria, se lh'a ca- 
racterisassem com dous traços capitães. 

O realismo tem por conseguinte, em quanto a 
mim, dous defeitos : a aspiração e o processo. Re- 
jeita a paixão que é a essência da arte, e procede 
pela analyse em vez de proceder pela synthese. 
Como porém todos os defeitos teem uma quali- 
dade que os compensa, os estudos a que o realista 
procede antes de lançar na tela o quadro são ex- 
cellentes, porque junta um capital enorme de ob- 
servações feitas com escrupuloso cuidado e viva 
preoccupação da verdade. Os livros de Zola cons- 
tituem uma collecção de estudos admiráveis, ha 
figuras de uma verdade maravilhosa nos cartões 



Prologo 

de I^^laiibert ; mas Zoia e Flaiibert publicam os 
seus apontamentos. Nas mãos de um Shakespeare 
os Rougon de Zola davam um livro immortal que 
atravessaria os séculos, em (juanto essa immensa 
historia natural de uma familia no tempo do Im- 
])erio ha-de estar amanhã completamente es- 
((uecida. 

Supponho que exprimi claramente o meu pen- 
samento. Admiro e respeito nos realistas o cui- 
dado e o primor com que juntam um esplendido 
capital de apontamentos para as suas obras de 
arte, mas lamento que elles tomem a sua carteira 
por uma tela, os seus estudos d' a prés nature por 
um quadro. Zola jiodia fazer uma obra immor- 
tal. se da massa confusa dos seus livros tirasse. 
a])roveitando todos os elementos que colheu, uma 
oI)ra com verdadeiro cunho artistico. Assim pu- 
blicou ai)enas uma serie de monographias dialo- 
gadas, que se hão-de sumir no abysmo do esque- 
cimento. 

Gervásio Lobato teve o bom senso de conser- 
var aos seus capitulos á Zola a forma que elles 
devem ter, a forma de estudo, de paginas soltas, 
de carteira de um observador. São d'essa forma 
uns folhetins admiráveis, cheios de verdade, de 



Prologo 

fina observação, com typos engraçadíssimos, qua- 
dros cómicos de um chiste inexcedivel. A Come- 
dia de Lisboa, como Gervásio Lobato agora cha- 
ma ao seu livro, é effectivamente a comedia da 
vida real. 

Aquellas figuras são todas nossas conhecidas, 
temol-as encontrado cem vez^s na rua. A Theodo- 
linda. o Álvaro, as meninas Pimentas, o snr. Ba- 
rata, o primo noticiarista, a M.me Prudhomme 
inquilina são typos da existência contemporânea 
apanhados com uma verdade suprema e com um 
primor graciosíssimo. Os ditos do noivado, o 
jantar em Queluz, as scenas da casa de jogo, os 
episódios do conselho de familia por occasião do 
divorcio, as procissões dos Passos e do Corpo de 
Deus, tudo está desenhado por mão de mestre, 
com lápis que sabe em dous traços fixar para sem- 
pre no papel da carteira uma figura cómica ou 
uma scena burlesca. 

Mas este livro de folhetins divide-se em duas 
partes : uma compõe-se dos estudos do observador, 
outra das divagações do folhetinista sobre os acon- 
tecimentos quotidianos da existência lisbonense. 
Se a primeira parte nos rev^ela principalmente o 
desenhador fiel, na segunda manifesta-se o colo- 



Prologo 

rista ardente. O estylo de Gervásio Lobato tem 
os esplendores estranhos do estylo moderno, que 
reflecte mais, devemos dizel-o, os clarões do gaz 
reverberando-se nos crystaes facetados do que a 
luz do sol de Deus accendendo diamantes a gra- 
nel nas aguas límpidas dos arroios. Levar-nos-hia 
muito longe um estudo sobre o estylo das duas 
escolas — romântica e realista — • ou antes das duas 
phases da escola romântica. Já demasiadamente 
tenho demorado o leitor á porta d'este formoso 
livro. E' necessário dizer porém que a nova ge- 
ração litteraria, que trata com tanto desdém as 
pieguices banaes dos seus antecessores, sem repa- 
rar que torna responsáveis os grandes homens 
pelas copias sem verdade nem elevação do servuni 
pccus dos plagiários, depois de procurar umas 
formulas novas para substituir as formulas gas- 
tas dos seus antecessores, depois de chamar ca- 
hellos côr de amora áquelles que os românticos 
chamavam cahcllos de ébano, depois de renovar 
emfim o material das metaphoras poéticas, imme- 
diatamente cahiu na banalidade do cliché. Os pro- 
cessos do estylo realista tornaram-se muito. mais 
rapidamente mecânicos do que os processos do 
estylo romântico. Qualquer aprendiz conhece já 



Prologo 

hoje as ficelles, e os epithetos originaes vendem- 
se no mercado litterario pelo preço das fiadas de 
pinhões. 

No meio d'este clichage de formas novas, que 
nos inunda e que faz com que seja tão difficil 
distinguir os estylos panachés dos realistas como 
é difficil distinguir dous tambores-móres ou dous 
porta-machados, o estylo de Gervásio Lobato con- 
serva a sua originalidade e a sua feição indivi- 
dual, sem deixar de ceder, como era inevitável, 
ás preoccupaçÕes do seu tempo. Parece-me que 
por ora ainda abusa da antithese, e ainda recorre 
com demasiada frequência á associação de duas 
idéas disparatadas para tirar do embate o effeito 
humorístico, recurso cómico sabido e inevitável 
de um grande numero de escriptores contempo- 
râneos; os adjectivos caro e barato encontram-se 
também a cada instante debaixo da sua penna, 
mas no meio de tudo isso que frescura juvenil de 
estylo ! que esplendor de phrase ! que sincera com- 
moção! que doces tintas melancólicas ás vezes! 
que esfusiar de alegres girandolas n'outros re- 
lances cómicos! Mas o que constitue sobre tudo 
a brilhante individualidade de Gervásio Lobato, 
o que o distingue entre os seus contemporâneos, 



Proi.oc.o 

é a franqueza, a espontaneidade do seu estylo e 
do seu espirito, tão diversos do estylo preparado, 
laboriosamente arranjado, e do espirito real, mas 
de gestação difficil, dos seus contemporâneos. 

Este outro característico da escola moderna 
sente-se até na conversação, aliás brilhantíssima, 
dos homens de espirito da geração nova, compa- 
rada com a dos seus antecessores. Em quanto os 
bons ditos de Júlio Machado, de Ricardo Guima- 
rães, de Thomaz de Carvalho, de Bulhão Pato se 
expandiam em caudalosa torrente, coulaicnt de 
source, saltavam dos lábios como a espuma do 
champagne do gargalo da garrafa, os -bons ditos 
dos homens de espirito da geração nova sahem- 
Ihes mastigados e remastigados da bocca, vêm 
lentamente, puxados com saca-rolhas, e... oh! Deus 
do céo! até n'isso ha cliclic, porque, se é difficil 
distinguir os estylos de dous realistas, não o é 
menos distinguir-lhes a conversação e os ges- 
tos. 

Isto não é censura, é simplesmente observação. 
Pro\'a que os processos no\'os de estylo com gran- 
de rapidez se transformam em processos banaes. 
que atraz dos grandes iniciadores vem sempre os 
saguins da imitação, e que é tão injusto tornar 



3tkív Prologo 

Responsáveis Lamartine e Musset pelos piegas do 
Ramalhete daÈ Damas e pelos scepticos da Revista 
Popiãar, como o seria pôr a cargo de Zola e de 
Snlly-Prudhomme as extravagâncias ineptas dos 
realistasinhos de três ao vintém, e as sandices ri- 
madas dos poetas dos bordeis. 

Entre a monotonia dos estylos forçados, que 
por ahi abundam, entre a uniformidade assanha- 
da dos tons crus e violentos, que formam o colo- 
rido da linguagem contemporânea destaca pela sua 
frescura, e pela sua naturalidade corrente, que 
não exclue a scintillação, como o correr da agua a 
não impede de reflectir a luz, o estylo de Gervásio 
Lobato. Essas qualidades, que se revelam nos 
folhetins que constituem este volume, manifesta- 
ram-se ao publico de um modo evidente n'uma 
gentil comedia de sala, que foi representada, com 
um successo de enthusiasmo, no theatro da rua 
dos Condes, a Condessa Heloísa. 

Gervásio Lobato tem hoje vinte e oito annos. 
O seu estylo principia a assentar definitivamente, 
as qualidades mais sérias de seu talento manifes- 
tam-se cada dia de um modo mais notável. Pa- 
rece-me que me não illude a viva amizade que 
lhe consagro, prophetisando ao moço folhetinista 



Prologo 



o mais brilhante futuro litterario, e affirmando 
que virá a ser um dos grandes escriptores da ge- 
ração a que pertence. 



Pinheiro Chagas. 



PmnEIRfl PARTE 



o ROMANCE DE M.^^^^ CAPRICE 



As pombas ainda não nos trouxeram o ramo 
de oliveira. 

O sol mostra-se de vez em quando, amarello 
como uma li}3ra falsa, e parece dizer-nos n'um sor- 
riso pallido : 

— Pefit bonhomme vit encore. Descancem, 
meus amigos, d'aqui a seis mezes me desforrarei. 

Mas o inverno tapa-lhe logo a bocca com uma 
grossa nuvem côr de chumbo, como quem diz: 
«Cale-se, agora fallo eu !» E recomeça a despejar 
sobre nós pipas e pipas d'agua que nos provam, 
com uma eloquência cheia de constipações, que os 
depósitos do céo estão incomparavelmente muito 
mais bem fornecidos que os aqueductos da Com- 
panhia das Aguas. 



A Comedia de Lisboa 

Lá por fora vai uma orgia douda. Os rios re- 
volvem-se nos seus leitos arenosos com espreguiça- 
mentos lúbricos de leoas ; Neptuno passeia trium- 
phante pelas ruas os seus brancos cavallos mari- 
nhos, descançando aqui e alli no cocuruto d'uma 
arvore, ou no cimo d^ima chaminé; as montanhas 
transformam-se em cataratas, as praças em lagoas 
l)rofundas; o relâmpago substitue o sol; é a cheia 
que cresce, o tufão que passa, o trovão que estron- 
dêa e as povoações que se afundam, formam com 
os seus gritos afflictivos, os seus silvos medonhos, 
os seus rugidos ferozes, um hymno tremendo a 
esse deus terrível que poucas vezes nos visita — o 
Tem^x^ral. 

Em Lisboa, o espectáculo tem sido mçnos gran- 
dioso, mas mais agradável. As nossas inundações 
são apenas de lama — os passeios estão converti- 
dos em charcos, e Eolo atravessa as nossas alame- 
das de braço dado com o snr. vereador Fonseca 
arrancando as velhas arvores frondosas e enchen- 
do tudo de lagos. 

A população vive só de noite. O theatro é o 
único sitio onde todos se encontram, onde se con- 
versa, onde se ri, onde se vê alguém sem chai^éo 
de chuva aberto. 

Vamos pois ao theatro. 

O espectáculo vale pouco. — A invenção dos 
dramaturgos está ha um tempo para cá tão pobre, 
e a vida real tão rica de acontecimentos, que esta 



A Comedia de Lisboa 

ultrapassou aquella. O romance, o drama, a co- 
media estão cá fora. sentam-se nos camarotes, pas- 
seiam nos corredores, agitam-se por detraz do 
pano. complicam-se nos tribunaes. amadurecem 
nas cadêas. 

E' mais interessante conversar do que vêr 
peças : nos entre-actos é que está a comedia e o 
drama. 

Aproveitemos o entre-acto. — Vou-te contar 
uma historia verdadeira, leitor, uma historia triste. 

Fumemos um charuto e encostemo-nos a um 
bastidor. O ensaiador dirige a disposição da sce- 
na ; as actrizes vem aproximando-se, afivelando a 
pulseira, abotoando o ultimo botão da luva, agei- 
tando melhor uma Úòr nos cabellos. seguidas das 
caudatárias que lhe erguem o luxuoso vestido 
roçagante, e sorrindo a uma amabilidade, esten- 
dendo a mão a um amigo, dando um olhar furtivo 
a um enamorado timido e silencioso. 

Mas vamos á historia ; chama-se o romance de 
mademoiselle Caprice. 

Drelin! drelin ! drelin! E' a campainha eléctri- 
ca, é o acto que principia. Lá se vai a nossa his- 
toria! 

O contra-regra bate três vezes as palmas. A 
orchestra ataca as primeiras notas da symphonia: 
— uma valsa velha e bem cadenciada que tem em- 
balado com a sua musica suave os sonhos doura- 
dos de mais de cem cotillons. 



A Comedia de Lisboa 

Toda a gente que enchia a scena sahe precipi- 
tadamente, como de uma praça de guerra que vai 
ser presa do inimigo. Ficam apenas n'ella um ho- 
mem e uma rapariga a quem a sorte confiou aquel- 
le posto de honra. Elle é um soldado aguerrido, 
que conta as victorias pelos comhates, ella, faz 
n'esse dia as suas primeiras armas. 

Em pé, encostada a um tremo, na pose que lhe 
marcara o ensaiador, tenta ainda conservar nos 
lábios, que não precisam de carmim, o sorriso con- 
trafeito com que até então respondera a todas as 
palavras de animação que não ouvia, e que era um 
sorriso feito de toda a energia, de toda a força de 
vontade, de toda a altivez que havia n'aquella ro- 
busta alma de mulher. 

Mas o sorriso desappareceu com o ruido, com 
a animação, com o murmúrio de vozes que um mo- 
mento antes enchiam a scena. 

Agora era tudo silencioso. Ella olhou em torno 
de si, não viu ninguém, e o seu collega sentado á 
mesa puxava os punhos e pensava no seu papel. 

Procurou um olhar amigo que a animasse, uma 
alma que sentisse com a sua, um espirito que se 
preoccupasse com as suas preoccupaçÕes, uns lá- 
bios que lhe dissessem — coragem! e um coração 
que batesse tão apressado como o seu batia. 

E ninguém. 

O author atraz do bastidor pensava na sua 
peça, o empresário fumava pensando na sua recei- 



A Comedia de Lisboa 

ta, as actrizes nas snas toilctfes, o contra-regra 
nas deixas, cada um se embrulhava religiosamente 
no seu eg'oismo. Estava só. perfeitamente só, no 
meio rraciuella multidão de indifferentes, de ri- 
\aes. de despeitados, de desconhecidos. 

Olhou para o pano. para aquella immensa lona 
(jue d'alli a instantes se ia erguer diante d'ella, e 
entregal-a indefeza á curiosidade, aos caprichos, 
ao juizo. ao acaso do publico. 

Pela primeira vez na sua \ida, teve essa vi- 
são negra, que é o pesadelo dos artistas — a pa- 
teada ! 

Ella que tranquillamente assistira tantas vezes 
descuidosa ao le\antar do pano, que lhe ia dis- 
trahir umas horas da sua vida descançada ; nunca 
imaginara que se podesse soffrer tanto, em quanto 
toca a orchestra. 

Então passou-se no seu cérebro uma cousa me- 
donha. A memoria apagou-se como uma luz açou- 
tada pelo vento. Todas as palavras do seu papel, 
que uma a uma tinha cuidadosamente fixado du- 
rante três semanas de assiduo trabalho, fugiram 
n'um turbilhão vertiginoso como aves a quem 
abrissem a gaiola. Pensou que enlouquecia. Xo 
seu espirito fez-se o vácuo. Sentiu todo o sangue 
affluir-lhe á cabeça, e como que esvair-se-lhe a luz 
dos olhos. Ao mesmo tempo parecia-lhe que mi! 
binóculos estavam assestados sobre ella, que a 
envolviam n'um olhar magnético cheio de repre- 

3 



À CoMEbiA DE Lisboa 

hensÕes, e que ouvia um rugido vago que seme- 
lhava ao estrondo próximo do trovão. 

Firmou-se melhor no trcmó e olhou para o es- 
pelho. 

Não viu nada. Recuou cheia de horror. 

Ella que costumava sempre vêr, quando olha- 
\a para um espelho, um rosto alegre e fresco, il- 
luminado por uns olhos grandes, muito negros, 
inundados de luz, brilhantes como as jóias caras, 
uma bocca irregular mas que parecia feita pelas 
graças e que sorria sempre, fazendo umas covinhas 
graciosas na face e descobrindo uns dentes peque- 
ninos e formosos, um rosto que parecia pintado 
por Durer, que tinha as cores rosadas das boas 
carnações, e os cabellos crespos e negros das bel- 
lezas hespanholas. um corpo pequeno, sem a ele- 
gância plástica das esculpturas correctas, mas com 
umas incorrecções encantadoras, com uma flexibi- 
lidade de linhas, uma suavidade de contornos, que 
])ediam um berço de arminhos, ella que costumava 
\cr tudo isso. olhou, e não viu nada, nada. 

O espelho, era um espelho falso, um espelho 
(h theatro. um symbolo triste d'aciuella \'ida ex- 
cepcional. 

Era falso, como as rainhas que arrastam os 
seus mantos á luz da rampa, como as paixões que 
se debatem, como as dedicações sublimes que se 
sacrificam, como o champag'ne (|ue espuma, como 
as flores que se abrem, como os .ideaes que fulgu- 



A Comedia de Lisboa 

ram n'esse mundo fictício c brilhante de que a Arte 
foi o deus creador. 

Então diante d'essa táboa azulada, em que se 
fita\am os seus olhares desvairados, viu passar, 
como que no espelho d'uma feiticeira, toda a sua 
vida. 

Viu-se pequena ainda rodeada de carinhos e de 
amor paternal, brincando no seu jardim florido ; 
depois lembrou-se da sua doença, da febre que a 
])rendera no leito durante longas noites, nessas 
noites em que, quando abria os olhos, encontrava 
sempre um olhar cheio de ternura que a envolvia 
como uma benção do céo. e que impedia a morte 
de se aproximar d'aquelle berço que era escudado 
pelo amor de mãi. 

E seguia-se-lhe uma odyssêa de ventura, a sua 
mocidade, o dia em que foi ao primeiro baile, a 
jjrimeira valsa que dançou — senhora, a primeira 
vez que lhe disseram : amo-a ! o primeiro aperto de 
mão cheio de caricias, o primeiro olhar cheio de 
amor, e os sonhos do futuro, os ridentes ideaes de 
amanhã, a vida faustosa da corte, ser condessa ou 
marciueza, ter um titulo sonoro e um palácio ele- 
gante, o amor de seu marido, e o respeito de toda 
a gente, ou então a felicidade obscura da vida 
ignorada, os seroes de inverno á luz tranquilla do 
candieiro burguez, a existência repartida entre os 
beijos castos e suaves do esposo, as caricias infan- 
tis d'um baby rosado e alegre, e os doces deveres 



A Comedia de Lisboa 

da família, todos esses devaneios dourados dos es- 
pirites juvenis e honestos, das imaginações sãs e 
boas, devaneios que foram o sol da sua primavera, 
sol que uma estranha fatalidade apagou para sem- 
pre em plena estação de rosas. 

E esse tempo estava ainda tão perto e parecia 
já tão longe! 

E' que a desgraça conta os dias por eterni- 
dades. 

E então o seu rosto anuviou-se. 

N'aquella tela onde se desenhava toda a sua 
vida começaram a apparecer personagens novos : a 
fatalidade, como uma nuvem de temporal, princi- 
piou a estender as suas negras azas sobre aquelle 
horisonte límpido, e no meio da escuridão que fa- 
zia não deixava vêr bem o seu sinistro vulto, pa- 
recia um ser hybrido, complexo, um monstro, sem 
sexo definido, ora com a virilidade masculina do 
Mal, ora com os requebros feminis da Tenta- 
ção. 

E a valsa que a orchestra preludiava e que 
tantas vezes a arrastava no redemoinho da dança, 
nos salões illuminados, transformou-se pouco a 
pouco no canto monótono do órgão, o claustro 
escuro antepoz-se ao baile cheio de luzes, as ves- 
tes de gaze tornaram-se no habito negro das mon- 
jas, as flores fragrantes dos cabellos murcharam 
pouco a pouco e envolveram aquelle rosto for- 
moso, como o branco véo das esposas do Senhor. 



A Comédia de Lisboa 

De súbito, como n'nma peça phantastica, fez- 
se uma mutação enorme. 

Passou-se d"um mundo para outro mundo. A 
estrella desprendeu-se do azul e resvalou pelo es- 
paço. — Atravessou regiões para ella desconheci- 
das — as regiões insalubres que confinam com os 
tristes paizes da miséria, da vergonha, da infâmia. 

Atravessou-as sem se macular — luz, sentia o 
tédio das trevas — estrella, sentia a nostalgia do 
Azul. 

E procurou outro céo, o céo luminoso da Arte. 

O espelho então calou-se, e ella sentia no silen- 
cio do seu isolamento o arfar ancioso de centenares 
de espectadores, que a esperavam por detraz do 
])ano, e dos seus binóculos, uns indulgentes e ami- 
gos, outros sedentos de escândalo e de peripécias, 
outros cruéis e vingativos, outros indifferentes e 
curiosos perguntando a si mesmos : Onde irá 
aquella estrella que foge? 

E o espelho reproduziu ainda, a custo, e como 
(|ue envergonhado da culpa que não tinha, um ho- 
mem coberto de cãs precoces e fazendo calar a 
gargalhada, que o seu desvairamento, por vezes 
grotesco, desafiava, pela commoção profunda que 
inspirava a sua dôr immensa : e ella no fundo da 
sua consciência honesta e boa, sentiu o remorso 
que outros deviam ter, passou-lhe pelo espirito 
uma vertigem, a vertigem do bem, lembrou-se de 
sahir d'alli, de correr, de fugir d'aquella atmos- 



A Comedia de Lisboa 

phera asphyxiante e de se ir lançar nos braços 
amorosos cruma pobre velha de quarenta annos, 
que, como os antigos martyres do catholicismo, 
apagou todos os vestígios da belleza terrestre não 
nos cilicios, não nos jejuns, mas n'uma cousa mui- 
to peor que tudo isso — nas lagrimas do desespe- 
ro, nas saudades de mãi. 

Mas quando ia para sahir, pregou-a no seu lu- 
gar o gesto imperioso d'uma força invisivel e im- 
placável. 

Não era a inspiração da Gloria... era a alluci- 
nação do capricho. 

N'esse momento o regente da orchestra deu o 
signal. 

O pano ergueu-se lentamente, e a estatua de 
Gil Vicente, que no alto do theatro não tem cora- 
do muitas vezes porque é de pedra, pedia com um 
olhar suplicante aos que passavam um guarda- 
chuva pelo amor de Deus ou a sobrecasaca de pel- 
les do snr Fontes. 

19 — Dezembro — 1876. 



A SEMANA SANTA 



O padre com as snas mãos ahas e compridas 
depunha, nas línguas vermelhas e inquietas das 
suas penitentes, a pequena hóstia branca onde ia 
o corpo de Christo. O sacristão seguia-o com um 
enorme cálice dourado, em que tocavam todos os 
lal)ios semi-cerrados no recolhimento mystico que 
succede á communhão. 

A viscondessa não bebeu agua. Tinha a scien- 
cia de engulir a hóstia sem tocar com ella na gar- 
ganta, e tinha ao mesmo tempo a repulsão das 
bordas d'aquelle cálice, onde pousavam, ha annos. 
todas as boccas religiosas da freguezia. 

Curvou a cabeça profundamente, esteve um 
momento com a face escondida nas mãos. levan- 
íou-se serena e pallida, fez uma mesura graciosa 



M A Comedia dk Lisboa 

como n"nm minuete da corte, e entrou contente 
comsigo e com Deus no coupc que, puxado por 
dous grandes hanoverianos, a esperava á porta. 



II 



Era um encanto esse coupc. Um verdadeiro 
ninho, a que a mistura confusa de- aromas subtis 
dava a semelhança de um sachct. A viscondessa 
recostou-se sobre as fofas molas, conchegou o véo, 
olhou para o pequeno espellio. que entre as vidra- 
ças lhe dava por zns-a-zns um rostosinho fresco e 
gentil — o seu. Olhou, achou-se encantadora com 
aquella rendilhada mantilha negra sobre os seus 
cabellos louros, e sorriu ao espelho com uma co- 
qucffcne infantil. Depois sentou-se mais para traz 
e cerrou os olhos n'uma doce languidez, que vi- 
nha dos aromas penetrantes que lhe acariciavam 
o olfato, e da perfeita tranquillidade descuidosa do 
seu espirito e do seu coração. 

Havia na atmosphera do coupc uma volúpia 
vaga, delicada, indefinida. Não era uma provoca- 
ção ao desejo, era um convite a sonhar — e a vis- 
condessa, por entre as pálpebras quasi fechadas, 
leu. como que n'um turbilhão, a historia d'aquelle 
coupc. que a levava, voando, sobre a lama de Lis- 
boa, como um carro mythologico. 



A l.V)Mr;i)i.\ DK Lisboa 

E tinha uma historia cheia de recordações que 
não niorreni. aquelle coitpé. Fora n'elle que ella 
sahira ha dous annos de S. Luiz com o seu noivo, 
transformado, pela benção do padre, em seu mari- 
do. Entrara para o coiipé — como ella se lembra- 
va I)em ! — toda cheia de commoção, de alegria, 
de anciedade e de pudor. Quando sentiu o joelho 
de seu marido roçar pela seda do seu vestido teve 
um estremecimento estranho, depois elle apertou- 
Ihe meigamente a mão em que ella sentia escaldar- 
Ihe o annel nupcial, depois debruçou-se para lhe 
dizer um segredo, e o hálito de um homem bafe- 
jou-lhe pela primeira vez as suas faces, e depois 
sentiu na sua cara. da côr viva do sangue, toca- 
rem as barbas macias e perfumadas de seu mari- 
do, e um beijo na nuca abalar todo o seu sêr como 
um choque eléctrico. E seu marido sorria e ella 
sorria também enleada, nervosa, toda corada e 
palpitante. 

E encostando-se mais para o fundo, deliciosa- 
mente embebida n'estas recordações, chegou a cara 
á seda côr de rola do estofo, e feriu-lhe o olfato 
um aroma que não era dos seus. um cheiro imper- 
ceptível, mas que tinha a intensidade almiscarada 
dos perfumes cauaillcs; e o espelho parecia sorrir 
maliciosamente, como se já tivesse visto outro 
rosto formoso encostado n'aquelle angulo do cou- 
pc, que fazia desejos de dormir. 

A viscondessa afastou-se com um gesto rapi- 



i6 A Comedia de Lisboa 

do cie repulsão e. pela primeira xez, desde que 
alli estava, olhou para a rua. N'esse momento pas- 
sava um rapaz, que a comprimentou. Ella abai- 
xou imperceptivelmente a cabeça e lembrou-se de 
quem elle era. 

Era um seu adorador mysterioso, em quem, 
n'aquelle mesmo coiipé, lhe fallára, ha oito dias, 
uma amiga ; um rapaz que fazia versos modernos, 
e que a escolhera para heroina de um soneto par- 
nasiano. 



III 



A' noite a viscondessa foi vêr as igrejas. 

Era quinta-feira santa. Seu marido fora ao 
Alemtejo vêr umas propriedades : não havia S. 
Carlos, não havia nenhuma soiréc, nada em que 
matar uma noite. 

Lisboa toda, vestida de preto, refugiava-se, do 
isolamento cá de fora, nas igrejas cheias dos me- 
lancólicos cânticos litúrgicos, e dos aromas acres 
do rosmaninho. 

A viscondessa seguiu Lisboa. Foi para a igre- 
ja, e. encostada confortavelmente a um altar ves- 
tido de roxo, ouviu, como que em sonhos, por en- 
tre o borborinho dos fieis, e o ambiente tépido da 
igreja, impregnado dos fumos dos thuribulos, a 
voz monótona de um padre gordo e rosado, çoni 



A Comedia de Lisboa 17 

as cores sadias dos bons jantares e da vida bem 
passada, que procurava soluços na velha e dra- 
mática liistoria da Paixão do Christo. 

No throno a igreja estendia até aos últimos 
degraus a cauda luminosa do seu vestido de luto, 
povoado de estrellas scintillantes, como as noites 
límpidas, e á porta ouvia-se a voz rouca e enfado- 
nha de um irmão do Santissimo, gritar como um 
vendedor de cautelas : «Para a cera do Santo Se- 
pulchro». 

Andavam no ar aromas molles e inebriantes, 
e a viscondessa, sentindo a languidez dos banhos 
turcos, surprehendia da têa para o corpo da igre- 
ja os olhares ternos de dous namorados felizes, e 
depois a sua imaginação enroscava-se nos círculos 
doudos do incenso, e acompanhava-os nas ondula- 
ções phantasticas até ao tecto illuminado do tem- 
plo, onde os anjos formosos acompanhavam, na 
sua ascensão, algumas pallidas virgens do marty- 
rologio do christianismo. 



IV 



Quando foi para casa as confeitarias estavam 
todas illuminadas e cheias de gente. Os seus olhos 
titaram-se com uma curiosidade invejosa n'aquel- 
les burguezes grupos de familias, que compravam 



i8 A Comedia de Lisboa 

grandes condeças de amêndoas baratas; nas rapa- 
rigas de véo, que trincavam com os seus brancos 
dentes as amêndoas cobertas de assiicar, sorrindo 
aos namorados, cheias de gulodice e de ternura. 
Chegou a casa e achou-se só, nos seus immen- 
sos quartos forrados de espelhos e de objectos ca- 
ros. Abriu um livro de versos de Musset, e ador- 
meceu entre os finos lençoes de baptista, a pensar 
nas amêndoas, nas igrejas, nos amores, e nos poe- 
tas... 



V 



A Alleluia é o primeiro sorrisso entre as lagri- 
mas da Paixão. E' uma festa que começa em tre- 
vas como o poema do Dante, e acaba como elle 
cheia de luz e de sol. A viscondessa foi á Alleluia. 

Sentiu uma alegria de criança ao mergulhar - 
se na escuridão da igreja, a escuridão que mas- 
cara multidões enormes. Sabia que estava cer- 
cada de gente por lhe ouvir o ruido monótono da 
respiração, e o som confuso de muitas vozes fal- 
lando baixinho. 

No altar-mór bruxuleavam tremulas as luzes 
avermelhadas dos cirios, atirando de vez em quan- 
do para o chão, com um ruido sonoro, grandes piti- 
gos de cera amarella. 

Pouco a pouco foi-se costumando ás trevas. 



A Comedia dk Lisboa ig 

As caras, que entrevia entre a luz frouxa das pou- 
cas velas, tinham aspectos phantasticos ; de vez em 
(juando sentia roçar-lhe pelas finas luvas uns vul- 
tos que passavam, e um d'esses vultos parou junto 
d'ella. Ouvia-lhe muito perto a respiração regular 
e harmónica, e as mangas do seu vestido de seda 
tocavam a miúdo, sem querer, no cotovelo do seu 
visinho, escondido nas trevas. De repente a voz 
pausada do celebrante entoou estas palavras jubi 
losas: ((Gloria m excelsis Deo», a que responde- 
ram, como um nnisono canto triumphal, o estron- 
dear dos instrumentos de metal, n'um hymno de 
gala, o estalar dos foguetes, os toques das cam- 
painhas, os immensos jorros de luz a entrarem 
no vasto templo, pelas j ancilas, d'onde cahiram 
a um tempo, como n'uma magica, as densas cor- 
tinas roxas. 

Olharam-se todos com um sorriso amarello, e 
os olhos da viscondessa encontraram-se com os 
olhos negros do seu mysterioso visinho, o poeta 
de que ella. fora uma das musas. Os seus olhos 
afastaram-se rápidos, e no seu coraçãxD de esposa 
fez-se súbita revolta ; a indignação purpureou-lhe 
as faces, não olhou mais para elle, e antes do fim 
da festa sahiu nervosa e irritada... 



2ú A Comedia de Lisboa 



VI 



No adro, á luz clara do sol, e entre a multidão 
que esperava a sabida da Alleluia, encontrou um 
amigo de seu marido. Fallou-lhe com uma alegria 
estranha : 

— Vi-a hontem em Cintra com o visconde, 
disse-lhe elle ingenuamente, apertando nas mãos n 
mão pequenina d'ella, que tremia como uma pom- 
ba quando a agarram. Iam já longe quando os 
vi, mas o visconde ainda me disse adeus. 

Ella despediu-se seccamente, saltou para o seu 
coiipc, e teve um gesto terrível de repulsão, ao 
sentir aquelle cheiro de almíscar que na vesi>era 
lhe ferira o olfato. O espelho parecia-lbe que ti- 
nha o sorriso satânico de lago. 

Olhou para a rua, e viu defronte do trem os 
olhos negros do poeta parnasiano. Fez-se corada 
até ás orelhas e, quando os cavallos começaram a 
andar, olhou para traz. 



o BAILE NO CLUB 



Dá-ine o braço e entremos. 

— Ih ! que de gente que já está ! Não se pôde 
dar um passo. Para chegar á porta da sala do 
baile era preciso tentar uma arriscada viagem 
através das longas caudas e dos tules molles que 
se espreguiçam pelo chão. 

Esperemos que a valsa acabe. 

Esta sala é a sala das mamãs, aquella alli a 
das esguias e louras ladys que passam toda a noi- 
te, muito direitas n'umas cadeiras de estofo ver- 
melho, conversando com os seus rosados compa- 
triotas, que no caminho da Mancha para o Medi- 
terrâneo, passeiam uma contradança por Lisboa. 

Aqui n'esta sala, onde mal podemos entrar, é 
onde estão as mamãs, as tias, as meninas que dan- 



A Comedia de Lisboa 

çam pouco e aquellas que já se incommodam com 
o calor dos bailes. Em compensação conversa-se 
muito. Aquelle grupo que está no sophá do fundo 
é um dos mais animados. As despezas da conver- 
sação são feitas por uma baroneza, que apesar de 
avó tem a eterna mocidade do espirito, e por iim 
jornalista notável que tem como poucos a rara 
sciencia da conversação. 

Aqui ao nosso lado, n'uma posse languida, re- 
costada n'este sophá, com o vestido rose de lonc 
rendas, que quasi nos vem beijar os i^és, uma outra 
baroneza, de cabellos d"um louro quente e olhos 
semi-cerrados n'uma coqiicttc myopia, uma mulher 
que parece arrancada da galeria das heroinas que- 
ridas de Balzac, mira de vez em quando as valsis- 
tas por detraz da sua luneta rcgcnce com a imper- 
tinência graciosa d'uma duqueza do século xviii. 

A'quelle canto, sumido n'uma poltrona, com os 
cabe'llos em farripas atravessando em diagonal um 
craneo quasi nu, um conselheiro, a quem os bir- 
mans vieram dar actualidade, conta pela millesima 
vez n'essa noite, a uma senhora ingleza que o ouve 
immersa em doce somnolencia, os esplendores da 
eml^aixada que o velho Oriente nos enviou, as boas 
qualidades dos embaixadores, e os ditos espirituo- 
sos das suas conversações de que não entende uma 
palavra. 

Acolá um deputado da maioria, um dos orado- 
res mais rhetoricos da camará e um dos mais ama- 



A Comedia de Lisboa 23 

\-eis companheiros de sala. conA-ersa com uma for- 
mosa condessa italiana, uma belleza patricia e cor- 
recta que tem juntamente com isso o segredo de 
todas as elegâncias, em quanto além discutem ani- 
madamente em hespanhol um valente general emi- 
grado, um velho deputado republicano, e um in- 
telHgente rapaz que está ha tantos annos entre nós 
e que tem a(|ui tantas sympathias e tantos amigos 
f|ue já não podemos pensar que não seja portuguez. 

A valsa está a acabar. Aproximemo-nos da 
])orta. Ainda volteiam alguns pares na agonia da 
alegre dança. 

As valsistas são intre])idas e graciosas ; estão 
(jffegantes e risonhas, com os cabellos um jjouco 
desmanchados beijando-lhes as espadoas nuas. pal- 
pitantes e ligeiramente rosadas pelo calor. Elles, 
os seus cavalheiros, são extremamente ridiculos 
com as suas casacas pretas a redemoinhar grotes- 
camente nos circulos da A-alsa. e têem um cansaço 
cheio de suor e de desillusões. E' quasi tão diffi- 
cil ser-se um valsista elegante como um actor 
eminente. 

O primeiro embaraço é a casaca. 

A valsa acabou. As ulti'-nas notas expiraram 
brutalmente sem aquella poesia convencional de 
todas as ultimas notas. Expiraram ruidosamente, 
acompanhadas pelos guinchos estridentes do cor- 
netim. que dominava toda a orchestra e ensurde- 
cia toda a sala. 

4 ' 



24 A Comedia de Lisboa 

As valsistas retomaram os seus lugares, depois 
d'irem ao toucador reparar os desastres das suas 
longas saias roçagantes. 

Entremos. 

Aos primeiros passos somos assaltados por 
uma multidão de criados, que nos querem por 
força e com um empenho desusado fazer tomar 
gelados, refrescos e punch. 

Os gelados são magníficos. Os de café estão 
excellentes mas são vencidos i>elos de tanjerina ; 
uns gelados que Mathias Ferrari cuidou com todo 
o esmero para o estômago dos convidados e para 
os noticiários dos jornaes. Não são gelados, são 
mais propriamente reclames, servidos frios e com 
outro nome. 

A sala está brilhantíssima. 

Nem parece um baile. Todos estão divertidos ; 
ha alegria em todas as caras, sorrisos em todos os 
lábios. Andam no ar murmúrios de festa : garga- 
lhadas francas e joviaes, vozes frescas e alegres, 
toda a animação, ruido, borborinho confuso de du- 
zentas ou trezentas pessoas que conversam, que 
riem. que dançam, e, o que mais é, que se di- 
vertem. 

Os nossos olhos voltam-se para toda a parte e 
não encontram senão todas as attracçÕes do nu. 
Parece um oceano d'espadoas, de collos e de hom- 
bros. sobre o qual se erguem gentis cabeças capri- 
chosamente penteadas, umas com negras tranças 



A Comedia de Lisboa 25 

esmaltadas de rosas, outras com os cabellos :\ 
Pompadoiir realçados por uma camélia vermelha, 
outras esijargindo em abundantes canudos, por 
ventura postiços, o ouro dos cabellos pelos lirios 
(lo collo. 

Se a sala se transformasse de repente em aca- 
demia, havia alli modelos para todos os estudos, 
desde a múmia até á Vénus grega, hombros de to- 
das as cores, desde os que parecem trabalhados em 
barro cozido até aos que se diriam feitos de már- 
more e que desafiariam como os de Henriqueta 
de Mortsauf os lábios febris de todos os Félix do 
mundo. 

Entremos na sala, onde predomina nas toilcttcs 
o branco, o côr de rosa, o azul, e sigamos pela 
esquerda. 

Paremos aqui. 

D'entre ondas de gaze vemos sur:;ir um busto 
formosissimo de mulher, uns braços de esculptura 
primorosa, uns hombros esplendidos, com os tons 
ligeiramente azulados do leite, e palpitando cheios 
de tentações sob os beijos quentes da luz tremula 
e amarellada do gaz. 

O corpete do vestido branco e constellado de 
grandes laços vermelhos, acompanhando nas suas 
suaves ondulações o arfar tranquillo d'aquelle seio 
de virgem, que acorda para a plástica com uma 
opulência de formas que faria a felicidade d'uma 
Juno antiga, parece envergonhado da sua pallida 



26 A Comedia de Lisboa 

cór ao pé da brancura de nenuphar d'aquella pelle 
suave, que na sua limpidez immaculada deixa adi 
vinhar as linhas azues das veias. 

E' a primeira belleza do baile. Tem no rosto 
de criança a frescura das flores que desabrocham, 
a suavidade alegre d'uma aurora de primavera. 

Percorramos a sala, temos alli á direita, n'a- 
quelle canto onde se agrui)ou a nol)reza vicillc ro- 
clic do paiz, uns três encantadores rostosinhos que 
parecem roubados aos quadros de anjos de^ alguma 
velha cathedral italiana ; ao lado uma belleza es- 
sencialmente peninsular, os olhos negros e os ca- 
bellos de azeviche d'uma viscondessa da província 
que veio á capital ser uma das deusas dos nossos 
salões; em frente, ao pé d'uma formosa rapariga 
de cabellos escuros, uma flor do Minho que pa- 
rece estiolar-se á luz do nosso gaz que dá uns 
tons estranhos á sua pallidez scismadora, está uma 
brazileira elegantíssima, pequenina e airosa, com 
os cabellos cheios de pós brancos perfumados, uns 
olhos vivos e pequenos que tem um olhar altivo e 
dominador e que revelam um caracter imperios(3 
e enérgico, um espirito caprichoso e original, uma 
estranha e indomável organisação de mulher que 
deve ter alguma cousa da Margarida Laroque de 
Feuillet; mas em nenhuma d'ellas, em nenhum 
d'esses rostos de variada belleza, que dão á sala 
o aspecto de- preciosa galeria de valiosos quadros, 
encontramos uns olhos negros que fulgurem com 



A Comedia de Lisboa 27 

tão estranhas scintillações, uns lábios que tenham 
mais adorável sorrir do que os da formosa crian- 
ça, que \-imos logo ao entrar na sala, com um úni- 
co enfeite nos seus cabellos empoados, um grande 
laço de vivo escarlate, com uma única riqueza na 
sua singelíssima toilcttc — o esplendor deslum- 
brante dos seus 18 annos. 

E' o nome menos sonoro talvez que está na 
sala. mas com certeza a formosura mais scintil- 
lante. 

Os criados não nos deixam dar um passo. 
Agora é a cêa, uma cêa de príncipe que nos perse- 
gue com uma insistência de credor. 

Para todos terem alegria no baile, até aquelles 
para quem elle é um pretexto para cear. 

A cêa volante tem sobre o bufete uma grande 
vantagem, a de ser um incidente e não um fim. 

A orchestra começa uma quadrilha da Angot. 

Dançam velhos e novos. 

A gavota, o solo inglês eram danças a valer: 
tinham arte. podiam originar triumphos. A qua- 
drilha é uma semsaboria, nem um exercício é. 
Tem o disparate serio e regrado de uma scena de 
doudos mansos. 

Passeia-se para traz e para diante, fazem-se 
comprimentos methodicos, dão-se as mãos, volta-se 
para a direita e para a esquerda, fazem-se duas 
mesuras e torna-se para o seu lugar. 

Para se arranjar uma desculpa chamou-se-lhe 



28 A Comedia de L,isboa 

pretexto para conversar. Vejamos o que são essas 
conversas. 

Marchande de niarée, toca a orchestra sempre 
dominada pelo cornetim. Paremos aqui : 

EivLK. — Está muito animado o baile. 

ElIvA. — Immenso, mas faz muito calor. 

ElIvE (com espirito). — Parece que dançamos 
n'um forno. 

Ella (sorrindo por delicadeza). — E' verda- 
de. (Pausa). 

EllE. — V. Exc.a esteve no sabbado em casa 
de madame Gould? 

EivLA. — Não, não sou visita. (Pausa) . Es- 
tava muita gente? 

En avant DEUX 

Ouçamos outro par: 
Ella. — Que calor que está ! 
ElIvE (ahanando-sc com o claque). — E' ver- 
dade, parece um forno. 

Elea. — Foi ao baile do Daupias ? 
EelE. — Não sou visita. 

Balancez 

Mudemos de sitio. 

EllE. — Esteve em casa da França Netto ? 



A Comedia de Lisboa 29 

Eij.A. — X'ão, estive em casa do D. Francisco 
(Ic Almeida. Foi? 

Ei.i.K. — N^ão sou visita. One calor que está! 

En avant quatre 

Mais para diante. 

Ella. — Então diga-me, snr. * * *, foi a to- 
das as festas dos inundados? 

ElIvE. — Deixe-me, minha senhora, estou 
inundado de inundados. (Sorri contente corn- 
ai go)- 

Ella. — Dizia outro dia com graça o meu tio 
conde, que d'aqui a pouco era preciso fazer um be- 
neficio para os que tem ido aos benefícios... 

Elle. — E é verdade. Tantas inundações já 
chegam a ser sccca. (Riem muito ambos). 

Balancez 

Mais dons pares. 

Ella. — -Já reparou para o vestido da peque- 
na da viscondessa? 

Elle. — Até já o comprimentei, é muito meu 
conhecido. Ha três annos dancei com elle uma 
valsa... no corpo da mãi. 

Ella. — Eu já vi uma tira ha mezes no pes- 
coço do pai. Ah ! Ah ! Ah ! 



jô A Comédia de Lisboa 

M0ÚI.INÊT 

Passemos a outros mais galhofeiros : 

ElLa (contimiando uma conversa). — E* deli- 
cioso vêl-o (lirig-ir uma contradança ! é magnifico, 
não ha nada mais cómico... 

Ellk. — Pois sabe dirigir melhor um cotillon 
do que uma embaixada. 

Ella. — E o chino, já viu o chino? 

EllE. — E' muito bem feito; é um capachinho 
ao pé da molleirinha. 

Ella. — Elle vai aos ares quando se lhe olha 
para a cabeça... eu então de propósito quando 
converso com elle fallo sempre em chinos. 

O vis-A-vis (inettendo-se na conversa). — Já 
sei de quem faliam, pelas gargalhadas. E' do 
conde de... 

O maldito cornetim parecia estar no valle de 
Josaphat e não nos deixou ouvir o resto. 

Oh ! como pensamos saudosos no escuro Ma- 
cário ! 

Cinco horas! e entra outra vez um enxame de 
criados com chocolate. 

Cinco horas ! E lembrarmo-nos que andámos 
das oito á meia noite a aborrecermo-nos por todn 
a parte á espera de ir para o baile ! 

Em Paris comprehendeu-se já o que havia de 
ridículo e de incommodo n'este tolo uso, e os bai- 



A ComEdia de Lisboa 31 

les não começam quasi ás horas de acabar, como 
entre nós, e como lá mesmo, nos bons tempos ro- 
mânticos em qne as Ii^•idas Adelias queriam que o 
sol as viesse encontrar desgrenhadas e pallidas, 
com as olheiras das noites perdidas e a tosse da tí- 
sica. ^•olteando ainda n'uma suprema valsa. 

A tisica passou de moda e não seria mau que 
passasse também a de procurar fingil-as, indo para 
o baile quando se devia ir para a cama. 

Cinco horas ! E ainda se preparam para o co- 
tUlon! Descemos apressados as escadas persegui- 
dos pelo chocolate. 

Emquanto esperámos pelos paletots interceptá- 
mos este dialogo entre um addido e madame Ca- 
lino, que espera pela carruagem: 

— O baile esteve magnifico, diz o addido pon- 
do o cachenez — em muito boa conta de gente — 
Não estava gente de mais nem de menos. 

— E' verdade — responde ella — antes pelo 
contrario ! 



os ENSAIOS GERAES 



Fora do theatro esta semana houve apenas 
dons acontecimentos notáveis, o novo chino de iiui 
cavalheiro muito conhecido em Lisboa e o ecHpse 
da kia. Aquelle estreou-se na procissão de Pas- 
sos, debaixo de uns aguaceiros que lhe deslustra- 
ram a virgindade, este realisou-se ante-hontem por 
detraz de umas nuVens densas que esconderam, 
aos olhos dos mortaes e aos telescópios do snr. 
Campello. os amores eternos dos dous luminosos 
astros. Finda a procissão o conde despiu a capa 
roxa e os cabellos pretos, mudou de casaco e de 
cabeça, e foi contrito e constipado ouvir o terceiro 
acto do Roberto. Terminado o eclipse, as nuvens 
brancas e rasgadas afastaram-se como grandes 
cortinas rendilhadas de um leito nupcial, e a lua 



A Comedia de Lisboa 33 

pallida, como noiva ao saliir dos braços amorosos 
de estremecido esposo, continuou a passear com a 
serenidade de um cocoffc pelo seu immenso boule- 
zvrd azul constellado de estrellas e atravessado de 
nuvens de feitios grotescos, um céo phantastico 
onde esperávamos encontrar a qualquer canto a 
assignatura de Gustavo Doré. 

Se fôssemos astrónomos ou cabelleireiros, estes 
dous assumptos dar-nos-hiam um folhetim. 

Não somos, e deixando-os á sciencia do snr. 
Gama Lobo e á do snr. Baron, entremos nos thea- 
tros pela porta da caixa, por aquella que é vedada 
ao publico. 

Entrar é mais fácil de dizer do que de fazer. 

No palco não cabem vinte pessoas e estão mais 
de duzentas. 

Parece que entrámos na feira das Amoreiras 
— não i>ela concorrência mas pela musica desafi- 
nada que ouvimos, acompanhada de gritos estri- 
dentes — W uni pataco, c um pataco, meus senho- 
res! Quem quer ver a grande Igiie:; de Castro que 
depois de morta foi rainha! Quem não tiver ca- 
beça não paga nada! Vai começar a grrrrrande 
funcção ! 

De repente desaba uma pateada medonha, gri- 
tos, assobios, apupada. 

— Ai ! que estão a cantar o Ríiy Blas! e ianios 
para fugir, mas em vez da voz do criado da snr.^ 
Paschalis, ouvimos a do snr. Leopoldo de Carva- 
lho gritando : 



34 A Comedia de Lisboa 

— Outra vez!... Do principio da scena!... 
não entraram a tempo ! 

Ficámos um pouco mais socegados e vimos en- 
tão o Farrusca, de contra-regra n'uma das mãos 
e bengala na outra, a servir de batuta, regerido 
aquella orchestra de assobio e tacão, que devia 
transformar-se em applausos e em bravos cá fora. 
ao contrario do que succede muitas vezes. 

A pouco e pouco fomos entrando. 

No palco, no meio da scena, estava uma ca- 
deira á Voltaire, forrada de encarnado. 

— Está o Santos a ensaiar — dissemos nós. E 
effectivamente elle lá andava de um lado para o 
outro com a sua luneta escura a defender dos raios 
da luz aquelles olhos, que parece que cegaram de 
vêr tão perto os raios brilhantes da gloria: a en- 
sinar uma inflexão a este, uma pose áquelle, a afi- 
nar um quadro, a dispor um grupo, a acertar uma 
situação, a desforrar-se dos triumphos que a doen- 
ça lhe faz perder, por aquelles que as suas lições 
fazem ganhar aos outros. 

Ao lado de Santos, anda preoccupado, nervo- 
so, inquieto, parecendo-lhe que está muito atraza- 
da a peça, e que uma entrada fora de tempo lhe 
vai matar o seu acto predilecto, um rapaz alto, 
magro, secco, de cara séria e enérgica, olhar pene- 
trante por detraz das lunetas de myope, o author 
da peça António Ennes, um rapaz de 28 annos, 
que tem já a cabeça cheia de cabellos brancos. 



A Comedia dê Lisboa 35 

como que para não envergonhar os velhos, de, 
sendo tão novo. valer muito mais que elles. 

António Pedro parece que não sabe o papel, 
(jue não se importa com a peça, e que em vez de 
ser o protogonista é o ultimo dos comparsas. K 
ninguém se occupa d'elle, ninguém se preoccupa 
com isso. Todos sabem que se lhe pôde ensinar 
maravilhas no ensaio, póde-se-lhe dizer o que se 
(juizer, marcar e acertar gestos e inflexões, que 
chegado o grande dia da prova, tudo desappare- 
ce ; António Pedro entra em scena, transforma-se, 
não faz nada fio que lhe ensinaram, faz tudo dir- 
ferente. tudo cousas novas, tudo prodígios de ver- 
dade, de sentimento dramático, de observação que 
não fez, de estudo que não teve, de arte que não 
aprendeu. 

E' que a natureza ensinou a António Pedro o 
verdadeiro segredo de ser sublime — ter génio! 

Amélia Vieira, que parece começar agora a 
saber esse segredo, está morrendo em scena, em- 
quanto os comparsas, sentados na escada do cama- 
rim de Posser. batem com os pés no chão, como 
se estivessem a ouvir o snr. de la Costa ; e nos ca- 
marins Alberto Pimentel, sumido n'uma poltrona, 
conta uma historia, interrompida a cada passo 
por Coutinho de Miranda, ao mesmo tempo que 
se lhe encarapita nos joelhos o filho mais velho de 
Emilia dos Anjos, a actriz que no Gymnasio des- 
empenha sempre os papeis mais antipathicos, por 



,l6 A Comedia de Lisboa 

se saber que esses anjos do mal devem ter sempre 
na sua belleza e na sua elegância o segredo de 
todas as fascinações. 

O ensaio está a acabar; notámos no palco a 
ausência das sonoras risadas de Maria das Dores, 
dos grandes olhos negros de Beatriz, da tagarelli- 
ce eloquente de Polia, e dizendo de longe um adeus 
ao Pinto, que parece com o seu grande bigode e 
pêra uma gravura de heróico mosqueteiro, sahimos 
a correr do Gymnasio, dando uni encontrão no ve- 
lho Marques, que vem entrando com um olho cada 
vez mais fechado e o sorriso cada vez mais aberto 
(Vaquella cara francamente cómica, que no gallego 
da Morte de galIo fez rebentar com gargalhadas 
os suspensórios dos nossos avós. 

Damos dous passos e estamos n'outro theatro. 

Este é fechado aos profanos como um harém 
da Turquia. 

Para lá se entrar é preciso ter o nome escripto 
á porta. E' um privilegio que por ser raro se torna 
ainda mais desejado. 

Lá dentro ha coristas que para serem feias 
teem de se pintar, cousa que as, coristas dos ou- 
tros theatros nunca perceberam senão como pleo- 
nasmo. Ha a Gloria, uma cara que a faz ambi- 
cionar, e perdoe-nos a memqria de Duarte de Sá 
este nosso delicto, ha a Thereza, ha a Estepha- 
nia, uma pallida rapariga depois de caracterisada, 
e uma picante morena depois de lavar a cara, a 



A Comedia de Lisboa 

Clementina, a Maria da Graça, um corpo de coris- 
tas ({ue se prende á antiga tradição pela legen- 
daria Canária. O director do theatro. Francisco 
Palha, nm dos talentos mais sympathicos da nossa 
terra, o homem de letras mais fidalgo e o fidalgo 
mais espirituoso que tem Portugal, esgueira-se 
pelos corredores, fugindo aos pedidos de entradas 
que de todos os lados chovem pelo simples motivo 
de serem difficilmente concedidas. 

Não está no theatro para ninguém cá de fora. 
e está para todos lá de dentro, com a sua amabi- 
lidade de dono da casa, com a sua illustração de 
director technico. com o seu talento de homem ver- 
dadeiramente superior. Dirige o theatro como 
Deus dirige o mundo, superintendendo nos actos 
do Destino. 

O Destino está no palco a presidir aos ensaios 
com o seu bonnct dos ensaios de apuro, um honnet 
caracteristico. symptomatico de ensaio geral, como 
a cadeira vermelha de Santos e o lenço de seda 
amarello de Emilia das Neves. O Destino, cha- 
ma-se : — Lioni. 

E' um actor dos mais illustrados e espirituosos 
do nosso theatro. Quando não está em scena o seu 
talento vê-se em cada personag-em, em cada sce- 
na, em cada accessorio; quando apparece, o pu- 
blico esquece-se de o victoriar porque está sempre 
a rir com os esplendores da sua ubérrima veia 
cofnica. 



38 A Comedia de Lisboa 

Na peça que se ensaia a que outr'ora foi Lan- 
ge vai morrer na guilhotina, e o seu canto de cys- 
ne é uni canto dramático como ella nunca cantou. 
E canta-o tão bem que parece que nunca fez outra 
cousa. 

A antiga Clarinha foge com o ex-Ange Pitou, 
transformado por uma chronologia anachronica 
em Rouget de L'Isle, obedecendo a essa lei fatal 
da opera lyrica a que a Patti se submetteu agora 
dos amores da prima-dona pelo tenor. Augustíj 
tem a habilidade de conservar o seu bigode de 
1). Juan na cara d'um sacristão, e nem ao seu 
l)eneficio sacrificou essa meia dúzia de cabellíjs 
(jue tem sacrificado alguns bons typos cómicos. 
E a Marsclhcj:a, echoando em toda a sala, des- 
mente os seus créditos de hymno revolucionário, 
conservando a ordem inalterável do theatro da 
Trindade : siicccsso sobre successo. ovação sobre 
ovação. 

Corremos rapidamente ao theatro de S. Car- 
los. Está a terminar o ensaio da Dinorah: os mú- 
sicos mettem já nos saccos os seus instrumentos, 
e de Maesen sahe coberta de gloria d'essa opera 
cpie foi também a gloria de Ortolani. 

Os camarotes estão vazios, o que ás vezes póá<i 
ser um favor feito aos binóculos, e nas frisas estão 
duas ou três damas que vão ao theatro não só 
para se mostrar como também para ouvir, 

A frisa 24 está deserta. Fez-nos saudades esta 



A Comedia de Lisboa 39 

frisa. Ha três annos via-se alli em todos os ensaios 
geraes uma mulher loura, impassível e elegantís- 
sima, que synthetisava em si t(J(lo o nosso lícini- 
monde. 

Era uma flor de perdição que ás tardes de in- 
verno passeava no Aterro em ligeiro coupé os seus 
Kings Charles e o seu aborrecimento. 

Ha três annos que essa pallida cocotte levan- 
tou vôo e trocou os aromas pouco inebrianteis do 
Aterro pelos perfumes aphrodisiacos dos hoiile- 
vards de Paris. 

Sahimos do theatro e ao atravessar o Chiado 
encontramol-a a ella, a loura Magdalena do Nor- 
te, a branca flor do Tédio, que a reminiscência 
nos desenhara no cérebro ao vêr vazia a frisa 24, 
e que nos apparece de novo nas nossas mal calça- 
das ruas, um pouco mais fanée mas sempre com a 
mesma impassibilidade de estatua, a mesma bran- 
cura de lirio, a mesma elegância de rainha. 

Está ha quatro dias em Lisboa : e Deus sabe 
d'aqui jjara onde irá. Estas mulheres como os poe- 
tas só teem um deus — o Acaso. 

E' elle que as eleva, elle que as faz viver, mui- 
tas vezes elle que as mata. 

O Acaso; é toda a historia das Imperias, das 
Coras Pearls e das Polacas. 



A QUARESMA 



Bate-nos já á porta, com os seus dedos còr de 
lirio. a formosa estação das flores. 

O seu hálito cheio de perfumes sua\'es embal- 
sama já a nossa atmosphera, os campos vestem a 
sua libré verde para receberem dama Chloris, as 
violetas e as margaridas atapetam os prados, a na- 
tureza abre-se n'um grande sorriso alegre, é mais 
\\\o o azul do céo, é mais quente a luz do sol. 

Andam no ar tentações loucas de idyllios, os 
\-apores tépidos, que se erguem da terra, tem uma 
sensualidade enervante, que dá vontade de ter 
amores hricos debaixo dos melancólicos salguei- 
raes, vendo os cysnes brancos a darem-se bicadas 
ternas, ouvindo os rouxinoes cantar o rondo da 
Lúcia, saltitando nos troncos que começam a em- 
plumar! 



A Comedia dk Lisboa 41 

R' a estação que faz a gente boa. Não se po- 
dem conimetter crimes, ter ódios, sentir rancores 
n'esses dias alegres, tépidos, perfumados, em que 
tudo sorri na natureza, desde o sol que se balouça 
no espaço, enchendo-nos de luz, até á flor da laran- 
jeira que. se balouça no tronco, enchendo-nos de 
aromas, desde a nota crystallina da ave. até o ru 
niorejar mysterioso das folhagens, desde os inse- 
ctos multicores (jue scintillam no verde dos cam- 
pos até ás estrellas radiantes <jue fulguram no azul 
do céo. 

E' por isso que as cortes se fecham, que os 
theatros vão estando desertos, que os tribunaes 
começam a deixar de ter clientes, que tudo se vai 
preparando para al)rir esse grande parenthesis na 
vida agitada, complexa, inquieta da cidade; esse 
parenthesis consagrado ao deus Verão, que dorme 
ainda o seu longo somno nos seios fecundos da 
mamã Flora. 

As ruas estão já cheias de gente. Os pobres 
espreguiçam-se pelas esquinas, aquecendo-se con- 
fortavelmente como velhas ladys ao seu grande 
fogão — o sol. 

Os ricos começam a fazer as visitas ao campo. 
Os homens deixam as suas occupaçÕes para iren.i 
para a Havaneza gozar o dia, e ver quem passa. 
As senhoras correm ás modistas, anciosas pelos 
novos figurinos. Os rapazes principiam as suas 
partidas de campo ao Dá-fundo, a Queluz, ao 



42 A Comedia de Lisboa 

Campo Grande; os mais elegantes a Cintra, os 
mais democratas á Perna de Pau. 

Morreu o inverno, ninguém pensa n'elle. «E 
póde-se ir embora, que não deixa saudades, a não 
ser aquella valsa no club, aquelles lanceiros em 
casa do D. Francisco de Almeida, aquelle cotillon 
em casa da França Netto. aquelle concerto da 
Trindade, a primeira noite da Dinorah em S. Car- 
los, o baile de domingo gordo em D. Maria... a 
primeira recita dos curiosos...» E assim vão ellas. 
as estrellas das nossas salas, fazendo o necrológio 
da estação que passou, com um egoismo perfeita- 
mente humano, recordando apenas o que ella lhes 
trouxe de lisongeiro. de agradável para a sua 
vaidade, para o seu espirito, e, raras vezes, para o 
seu coração. 

Agora em que se pensa é na novidade... de 
todos os annos : «mais dous mezes em Lisboa para 
mostrar no Passeio Publico, á luz escura do gaz 
municipal, os vestidos novos, sabidos das mãos 
parisienses da Alarie, da Dinaud, da Blanche, da 
Grandville, e depois ala para os Setiaes, para a 
Várzea, para a Peninha, para o Bussaco, e mais 
tarde para as ondas gigantes da Foz, para as va- 
gas pacatas de Cascaes, para o Espinho, para a 
Granja, ou então para a agua suja das sujas bar- 
racas do Tejo. 

E entretanto, emquanto nas suas reminiscên- 
cias fazem o balanço do inverno que passou, e nas 



A Comedia de Lisboa _ 43 

suas imaginações juvenis o orçamento dos praze- 
res do verão que se aproxima, as nossas elegantes 
aproveitam as primeiras caricias da primavera 
para darem ainda, oito dias, ar ás toilettes de in- 
verno, que vão ser fechadas no guarda-roupa de 
ébano, com grande espelho de Veneza, quando 
não vão, o que não é excepcional, para as trouxas 
da Maria H espanhola e da Felicidade, que, de 
porta em porta, com os seus velhos capotes de 
pano e a sua mais velha ainda alcunha de contra- 
bandistas, vão desde a choupana dos pobres até 
ao palácio dos ricos, como se dizia nos romances 
antigos, levar fazendas novas por vestidos velhos, 
transacção domestica, que na linguagem das fa- 
mílias económicas tem o singelo nome de troca. 

Aproveitam estes esplendidos dias de primave- 
ra, diziamos nós. em se despedirem dos seus ves- 
tidos, nas ruas. nos theatros. nas ultimas soirécs 
que se annunciam para a Paschoa, em assistir ao 
levantar da feira do nosso theatro lyrico. e em 
vêr procissões... o divertimento predilecto da qua- 
dra religiosa que estamos atravessando. 

As procissões ! Que bello pretexto para vêr 
gente, para comer bolos, para ter uma soirce te- 
mente a Deus, n'este tempo em que é do bom tom 
não abrir as salas, com o simples pretexto da gen- 
te se divertir. 

E' quaresma. «Dar bailes n'este tempo?... 
Nunca, senhores, nunca. Agora se ha urna pro- 



44 A Comedia de Lisboa 

cissão, se vem gente, não se ha-de pôr fora á noi- 
te. Accende-se luz para não se estar ás escuras, 
toca-se piano para não se adormecer, dança-se 
para não se perder a musica.» 

E é por isso que n'estes dias solemnes — em 
que as irmandades resolvem passear as suas pin- 
gadas capas pelas- ruas da cidade, levando ás cos 
tas umas imagens, que nem sempre são primores 
de estatuária — tão depressa o pallio entra na 
igreja, e a lua apparece no céo com a sua procis- 
ssão de estrellas, todas as casas illuminam, e atra- 
vés das vidraças as notas alegres da valsa da An- 
got ou da quadrilha dos Brigaiids vem casar-se cá 
fora com os echos longiquos das marchas do lonc 
ou do Nabucho, que acompanhavam com os seus 
plangentes sons a religiosa solemnidade. 

Agora todas as semanas ha duas ou três pro- 
cissões e todas dos Passos. Procissões burguezas. 
procissões fidalgas, ])rocissÕes saloias, procissões 
dentro e fora da cidade, dentro e fora da igreja... 
uma verdadeira febre, uma verdadeira doença re- 
ligiosa. 

As procissões trazem conisigo, além do obriga- 
do cortejo de carolas, penteados com muita bando- 
lina nos cabelleireiros falladores das ruas menos 
frequentadas, o cortejo fatal de namoros, roubos 
e encontrões, que nunca faltam onde ha muita 
gente junta. 

■ As tardes de procissão são umas tardes anima- 



A Comedia de Lisboa 45 

(Ias, ruidosas como as tardes de touros. E' ii'isto 
(|ue nos assemelhamos ao hespanhol — no nosso 
amor pelos touros, no nosso apparente fervor re- 
ligioso. 

A procissão sahe. Na rua ha um brouhalui 
composto do choro das crianças, dos discursos or- 
deiros da policia, dos couces dos cavallos das pa- 
trulhas municipaes, dos gritos : «Vai agua ou não 
vai agua» dos vendedores amhulantes. das impre- 
cações das velhas pisadas, dos risos das raparigas 
beliscadas pelos janotas, e do infernal dlão! dlão! 
dos sinos que parecem querer ensurdecer o mundo. 

O homem do pendão, o famigerado Eneas, ou 
trophéo, com os ares de um acrobata, no circo, 
outro, faz prodigios de força, sustenta o religioso 
sustentando a perche. 

A' proporção que os anjinhos \"ão sahindo, er- 
guendo nas mãosinhas tenras os symbolos da Pai- 
xão de Christo, umas crianças pallidas, anemicas, 
creadas n"um ambiente de sacristia. n'umas casa-; 
sem lux e sem ar, e que n'esses dias \'ão carrega- 
das brutalmente de ouro e de azas. ouvem-se d'en- 
tre as massas murmúrios de admiração, ao vêr 
umas grandes arrecadas de o\arina. uns grossos 
cordões de ouro. de hccfaire de \iella. (|ue quasi 
f|ue enforcam os pescoços esgalgados e pouco lim- 
pos d'aquelles anjos, que dão as peípieninas mãos 
ás mãos grossas e calosas de dous operários ado- 
mingados, que os levam agarrados com a valen- 



46 A Comedia de Lisboa 

tia com que os iX)Iicias levam os bêbedos para a 
esquadra. 

Aos anjinhos seguem-se os andores — cheios 
de monstruosos e desengraçados ramos de flores 
vulgares, dados pelos fieis ricos — com umas ima- 
gens nuas, demasiadamente nuas, que inspiram 
imbecilidades Ímpias aos livres pensadores de bal- 
cão, que, de charuto de vintém na bocca, fazem 
com ellas corar as raparigas que estão próximo, 
e resmungar as velhas de capote e lenço. Depois 
vem o pallio, levado pelos irmãos mais influentes 
e cobrindo qualquer relíquia mais ou menos au- 
thentíca do heroe do Golgotha — e no fim, fechan- 
do o cortejo, uma Mater dolorosa, com manto 
azul e túnica cheia de dourados, um vestuário des- 
gracioso e profano que cobre uma imagem gros- 
seira, que faz corar nas telas de Murillo e de 
Raphael as formosas virgens, que a tradição e a 
historia aureolam de poético esplendor. Depois 
segue-se a banda marcial, tocando musicas fúne- 
bres de Verdi. depois três ou quatro filas de sol- 
dados, commandados por alferes perfumados, e 
depois por ultimo uma multidão variegada de 
todos os typos das ultimas classes de Lisboa, um 
cortejo que parece ter sabido das galerias da 
nossa Boa Hora. em dia de audiência criminal 
importante. 

E a procissão passa, e os sinos tocam, das va- 
randas as donzellas sorriem aos namorados, os 



A Comedia de Lisboa 47 

ratoneiros mergulham as mãos nas algibeiras dos 
burguezes, os policias afastam õ povo, as velhas 
ajoelham, os janotas fazem bons ditos, os criados 
calçam as luvas de linha, as donas da casa passam 
uma vista de olhos pelas bandejas de bolos e pelos 
licores, os pianos baratos preludiam a primeira 
contradança, as damas fazem avant deux, os "pa- 
dres sentam-se ao beberete, e as soirées começam. 

E é n'estes bailes disfarçados. n'estas valsas 
quasi que clandestinas, que as nossas elegantes 
esperam y>^\o verão, recordando o passado in- 
verno. 

Nos dias em que não ha procissões, vão a S. 
Carlos ouvir a Diuomh. e as notas crystallinas da 
snr.^ de Maesen. fazem-n"as pensar nos rouxinoes 
do Bussaco : passam por D. Maria, e aquellas bon- 
)ics 7'illageoiscs de sapato de laço e de meia de se- 
da, fazem-lhes lembrar com saudades as saloias de 
Cintra»; entram no Gymnasio. e o SalfirubcMico 
leva-lhes a imaginação para aquella galhofeira 
barraca dos Dallots, onde com os cabellos ainda 
húmidos do banho da manhã, costumam entreter 
um quarto de hora das fastidiosas noites da feira 
de Belém. 

Fallar no Saltiiiibcnico é recordar o Paraíy- 
fico, ou dous grandes triumphos de um grande 
actor, e o Paralytico, esse drama mediocre, em que 
uma mulher casada envenena lentamente seu ma- 
rido, para casar com o amante, tem toda a actuali- 



48 A Comedia de Lisboa 

dade agora, que, de bocca em bocca, nas Hgeiris- 
simas azas do boato, corre toda a cidade uma his- 
toria idêntica, descoberta hontem em Lisboa. 

E' um drama domestico abafado ao sahir da 
alcova para o tribunal pela generosidade da victi- 
ma, que não quiz que a mulher indigna, que usava 
o seu nome, o fosse arrastar ás vergonhas de uma 
audiência publica. 

E' por isso que a historia que devia figurar na 
secção dos tribunaes, não passará talvez dos do- 
minios do folhetim. 

Um homem de bem, casado ha muito, era n'es- 
tes últimos tempos atormentado por pertinaz doen- 
ça, que resistia energicamente a todos os esforços 
da sciencia. 

As suas enfermeiras eram sua mulher e sua fi- 
lha. Um d'estes últimos dias, uma pequena ques- 
tão, havida entre ellas, fez da mãi e da filha ini- 
migas mortaes. 

Esta, no auge da desesperação, vai ter com o 
pai e faz-lhe uma confidencia, que parecia tirada 
de um drama d'Ennery. 

Sua mãi ministrava todos os dias. com a soli- 
citude conjugal da esposa de Jeronymo Peyrad. 
um veneno subtil a seu pai, e ella ajudava-a com 
o silencio n'esse monstruoso crime, que escondia 
um adultério. 

O doente ou\iu-a aterrado e a única vingança 
que tirou, foi expulsar do lar a envenenadora. 



A Comedia de Lisboa 49 

E assim acabou o sinistro romance. 

O pobre homem com])rehendeii que a justiça é 
uma grande cousa de certo, mas que ha uma cou- 
sa muito maior ainda do que a justiça, — a mise- 
ricórdia. 



A SINCERIDADE PORTUGUEZA 



Quem quizer tape os ouvi- 
dos que vamos dizer verdades. 



Não lia nada mais curioso, mais original do 
que a nossa sinceridade em tudo, nas letras, nas 
artes, na politica, na religião, e até nas nossas 
relações sociaes. 

E isto é tanto mais cómico, quanto nós nos te- 
mos na conta de um po\'o essencialmente franco 
e sincero, e que, quando vemos alguém dizer o 
contrario do que sente, chamamos-lhe logo com 
sarcástico sorriso — «francez». 

Portuguez ! portuguez ! meus amigos, é que se 
lhe deve chamar, e não vamos buscar fora epithe- 
tos estrangeiros, para cousas perfeitamente na- 
cionaes. 

Dizer tudo ao contrario do que se pensa, ou 
antes dizer o que se pensa e escrever o contrario 



A Comedia de Lisboa " 51 

do que se diz, é o característico principal da nossa 
época e da nossa sociedade. 

A gente entra n'um theatro, em dia de pri- 
meira representação de peça original portiigiieza, 
encontra bocejos em todas as boccas, epigrammas 
mortaes em todas as apreciações. 

A peça é detestável, o aiithor um tolo, o publi- 
co um martyr. nós uns venturosos por não termos 
assistido ao drama. E todos nos dizem isto, jor- 
nalistas e profanos, entendidos e não entendi- 
dos, criticos e publico. 

No dia immediato pega-se n'um jornal e lêem- 
se duas ou três columnas de elogios ao drama e 
ao author. A este chama-se eminente escriptor, 
áquelle obra prima do theatro portuguez, drama 
magnifico, concepção genial, etc, etc, etc. Na 
noite immediata o publico donne ao vêr a peça, 
e o author tem tentações diabólicas ao lêr os ar- 
tigos dos jornaes. Os adjectivos laudatorios em- 
briagam-no como copos de Madeira. O peor po- 
rém é (|ue estes dramaturgos tem quasi sempre 
mau vinho... pensam em fazer novas peças. 

E as peças vem. o publico torna a adormecer, 
os criticos a l)ocejarem, a enterrarem a peça, com 
bons ditos na conversação, e a glorificarem-n'a, 
com phrases encomiásticas, nos jornaes. 

Entretanto, quando se falia de litteratura e de 
arte, genericamente, não se poupa a pobre littera- 
tura e a pobre arte portugueza, «época de perfei- 



52 A Comedia de Lisboa 

ta decadência, e de estacionamento litterario, de 
ausência de critica, e de talento», etc, etc. 

Mas ao passo que, quando se falia do theatro 
em geral, se diz que não temos litteratura dramá- 
tica, chama-se eminente e primeiro dramaturgo, 
todos os dias, a qualquer sujeito que se lembra de 
commetter um drama ou uma comedia. 

"Não ha arte entre nós, não ha pintores, não 
ha quadros, não ha talentos», diz-se quando se fal- 
ia de pintura, e em todos os jornaes fervilham no- 
ticias chamando eminentes e illustres a todos os 
sujeitos que, a troco de algumas libras, pintam re- 
tratos sem talento e sem semelhança. 

Dos actores o mesmo; todos confessam que 
não temos artistas dramáticos — conversando ; e 
escrevendo não ha um que não seja distincto, pou- 
cos ha que não sejam primeiros. 

E isto é um declive fatal, onde mal se pÕe o 
pé se galga de momento. Um adjectivo arrasta 
outro, este é distincto, aquelle ha-de ser illustre, 
aquelToutro eminente, e aquelFoutro primeiro. 

E a sinceridade vai assim atraz dos adjectivos, 
ficando esphacelada em cada um d'elles, e che- 
gando ao fim transformada em hypocrisia. 

Mas Deus nos livre de f aliar em tal. A hypo- 
crisia é cousa que não ha nos briosos portuguezes, 
isso é bom para o francez. 

Nós cá, quando dizemos que um homem é tolo, 
é porque o j^ensamos — e pensamol-o com justiça 



A Comedia de Lisboa , 53 

e a miúdo — mas o que lhe fazemos é, quando 
temos de dar a nossa opinião por escripto, cha- 
mar-lhe eminente e illustre : são valores entendidos 
entre os contemporâneos que, por triste e deplo- 
rável experiência, sabem já o que valem muitas 
obras primas dos últimos tempos. 

O snr. A... reconhecidamente inepto faz um li- 
vro: o publico não o lê por prudentissima medida 
preventiva : a critica glorifica-o sem o lêr também, 
a academia abre-lhe o seio, e n'esta múltipla co- 
media ha só um enganado, o author, (jue acredita 
ás vezes na sinceridade dos elogios. 

E do mesmo modo que nas letras, nas artes, 
na religião e no trato social. 

A religião já de ha muito está adoptada pela 
maioria da gente como uma formula e nada mais. 

E' uma religião toda externa (|ue não é nem 
l)ara n(')s nem para Deus, é somente ])ara o pu- 
blico. 

Também é o único sacrifício que se lhe consa- 
gra e elle merece-o, porque é boa pessoa, nada exi- 
gente e extraordinariamente benévolo. 

No trato social a sinceridade segue o mesmo 
originalíssimo caminho. A opinião escripta é com- 
pletamente a antithese da opinião fallada. 

As palavras, ao passarem dos lábios á penna, 
transformam-se totalmente. 

Um fulano de tal é apontado a dedo como ne- 
greiro, ladrão, muitas \ezes assassino. Um dia o 



54 A Comedia de Lisboa 

Diário do Governo fal-o conselheiro, barão, vis- 
conde, e a opinião publica, escripta. chama-lhe 
distincto cavalheiro, honrado e prestante ci- 
dadão. 

Uma mulher é tida geralmente como uma d'es- 
sas mulheres perigosas e condemnadas a quem não 
é licito fallar em publico. 

O boato conta, de bocca em bocca, as suas 
historias escandalosas, as senhoras afastam-se d'el- 
la por pudor, os homens comprimentam-n'a ape- 
nas com sorrisos equivocos. 

D'um dia para outro, a estola d'um padre em- 
brulha a mão d'ella com a d'um d'esses cavalhei- 
ros prestantes e beneméritos, em quem a commen- 
da substitue a grilheta, e o titulo o numero dos 
registros criminaes. Todas as mãos se lhe esten- 
dem, todas as casas se lhe abrem, os maridos dão- 
se por muito honrados em lhe levarem para a in- 
timidade suas esposas, as mães em lhe entregarem 
suas filhas, e, ao contrario da protogonista de Vi- 
ctor Hugo, Marioii passa a ser Marie. 

Na politica a sinceridade dá uma cambalhota 
perfeita. Vira-se de dentro para fora. As gran- 
des qualidades dos homens de Estado confessam- 
se na conversa e negam-se na imprensa. Todos 
concordam em que o snr. X é um talento privi- 
legiado, um estadista completo e um honrado ca- 
racter, todos lhe chamam imbecil, nullidade e la- 
drão em letra redonda. E depois de tudo isto ain- 



A Comedia de Lisroa 55 

da se chama fraiiccz a quem não diz o que pensa, 
a (|uem não escreve o que diz. 

Para nós, que vixemos n'este oceano de men- 
tira. n'este continuo baile de mascaras, é fácil 
avaliar a sinceridade portugueza. 

Ma.s os vindouros, a geração de amanhã, a 
posteridade, (|ue um dia ha-de julgar o nosso sé- 
culo, deve fatalmente ficar muito embaraçada, 
quando encontrar tão grandes hon.iens e tão pe- 
quenas obras, tantos nomes celebres e tant )s li- 
\ros que o não são. 

Ha uma cousa peor do que a falta de docu- 
mentos para reconstruir uma época, é os docu- 
mentos falsos. 

Quando d'aqui a séculos se quizer estudar a 
historia de hoje encontrar-se-hão reputações de 
gigantes e obras de anÕes. 

Xenhuma época será tão fértil como a nossa 
em celebridades, e tão pobre em obras celebres. 

Foi exclusivamente para a posteridade que es- 
crevemos estas linhas. Não são um folhetim, são 
uma annotação na margem d'uma pagina da his- 
toria litteraria e artística do ultimo quartel do sé- 
culo XIX em Portugal, umas verdades ditas chã- 
mente, que só teem o merecimento de ser verda- 
des n'esta babylonia de hypocrisias, e que darão 
aos vindouros a explicação d'esse facto monstruo- 
so e enigmático — um diluvio de grandes homens 
e uma ausência de grandes livros. 



A Comedia de Lisboa 

Poder-se-hia julgai* então que estes foram des- 
truídos por algum estupendo cataclysmo. Não fo- 
ram ; aquelles é que foram feitos por um terrível 
flagello... a hypocrisia. 

E como para estas linhas chegarem á posteri- 
dade lhes falta o único sello que pòác le^•ar estas 
correspondências ao seu longínquo destino: o ta- 
lento : pedimos humildemente aquelles poucos que 
estiverem destinados a fazer essa comprida via- 
gem, através dos séculos, que, pelo amor da Ver- 
dade, as levem nas suas bagagens e as façam che- 
gar ás mãos dos seus destinatários. 



os CURIOSOS 



Houve nni tempo em que elles estiveram mais 
recolhidos. Não representavam, não cantavam, 
não pintavam, não escreviam para o publico, e 
iam alimentando o seu feroz amor culpado j^ela 
arte, nas salas dos seus conhecimentos, á porta 
fechada, fazendo quadras aos annos das meninas 
namoradeiras, pintando debuxos para as tias ve- 
lhas, cantando barcarollas das operas italianas, re- 
citando poesias melancólicas dos vates que passa- 
ram, desempenhando scenas cómicas alegres dos 
authores populares, e fazendo sortes de prestidi- 
gitação com os chapéos dos convidados. 

N'esse tempo a gente jxídia andar descançada. 
A's vezes, quando n'um dia de annos ou de procis- 
são, se ia a casa d'algum parente divertido, lá se 
encontrava um ou outro curioso molhando a sopa 



58 A Comedia de Lisboa 

na arte, mas havia remédio prompto. era sahir, que 
na rua e nos theatros estava-se ao abrigo d'elles. 

Um dia porém, dia nefasto, as portas d'essas 
salas abriram-se, como as do Limoeiro quando en- 
traram os constitucionaes, e os curiosos de todas 
as classes, sexos e idades, lançaram-se furiosos so- 
bre Lisboa, arremetteram com a arte em todas as 
suas manifestações, invadiram o theatro, o ate- 
lier, a imprensa, o romance, pegaram na penna, 
sentaram-se ao piano, empunharam a palheta, su- 
biram ao palco; abriram as guelas : a Arte velou 
o rosto, e Lisboa, como um doente cheio de cáus- 
ticos, viu-se de repente coberta de theatros parti- 
culares e de concertos de curiosos. 

E' uma tribu medonha, terrivel, selvagem, a 
dos curiosos. Para ella nada ha sagrado, nem as 
creações mais delicadas dos poetas, nem a musica 
mais inspirada dos mestres. E sobre selvagem é 
immensa ; por um curioso que se mata — isto é, 
que passa a artista, o que vem a ser o mesmo, se a 
morte é o esquecimento — apparecem dez curiosos 
novos, e reproduzem-se de tal forma, espalham-se 
de tal modo por Lislx)a, que não se pôde dar um 
passo sem vêr um curioso, sem ter que o ouvir, 
sem ter que o applaudir exactamente por elle não 
saber nada. 

E' uma cousa deveras estranha o privilegio 
que teem esses sujeitos de poder fazer tudo mal, 
com o applauso constante dos ouvintes. 



A Comedia de Lisboa 59 

Vai-se a uni concerto de curiosos: a menina 
S. esganiça-se liorrorosaniente para cantar o ron- 
da da L11CW. «Bravo! Bravissimo! não sabe can- 
tar!» 

X"uni llieatro ])articnlar: 

Um o-alan esbraceja durante cinco actos, assas- 
sinando cruel e estu]:>idamente uma elevada crea- 
ção artistica. ((Magnifico! gritam os espectadores, 
muito bem, muito bem ! ignora completamente to- 
das as regras da arte de representar ! Muito bem ! 
muito bem!» (Bafem as palmas). 

X'uma exix)sição de Bellas-Artes, defronte do 
quadro d'um artista : 

— Hum!... não presta para nada... O céo 
nunca teve aquelle azul. E o verde cFaquelles cam- 
pos?... E a lua... e a posição d'aquelle cavallo? 
Hum ! Hum ! 

Defronte do quadro d'um curioso: 

— Oh ! que esplendida cousa ! Este rapaz nem 
sequer sabe desenho. Oh ! é magnifico ! (Bxtasis 
de todos os espectadores). 

E é assim sempre, eternamente. Applaudem-se 
muito os curiosos exactamente por fazerem aquillo 
que não sabem fazer. Parece-nos que seria uma 
razão poderosa para os mandar para sua casa ; mas 



6o A Comedia de Lisboa 

pelo contrario, na sua ignorância está o segredo 
do seu successo. 

Uma menina, que não tem voz nem sabe musi- 
ca, lembra-se um dia de ir cantar uma opera. Não 
se fecha no seu quarto para commetter essa atro- 
cidade. Vem para o theatro, para o salão, annun- 
cia-se como se poderia annunciar a Malibran ou a 
Patti. Cheia de caridade pelos .pobres, vende ca- 
ros os bilhetes para essa festa, em que mostra que 
a Arte e o publico lhe merecem muito menos que 
os ditos pobres: e os espectadores vêem diante de 
si essa cousa monstruosa que se chama concerto 
de curiosos e applaudem e pagam, e nem sequer 
podem dormir, sem ouvir, como que em sonhos, 
os guinchos desafinados dos concertistas. 

A grande vantagem dos curiosos é o não sabe- 
rem. O snr. conselheiro M., que é rico, proprietá- 
rio e commendador, escreve por desfastio uma 
cousa a que chama um romance. O publico com- 
pra-o. «E' d'um homem de letras? Não, é d'um 
curioso. Ah! está excellente! o author nem se- 
quer aprendeu grammatica. E' soberbo!...» 

Ora no fim de tudo, o que era muito bom, 
muito conveniente e muito commodo, era que cada 
um se contentasse em ser o que é sem querer in- 
vadir attribuições alheias. 

A snr.a viscondessa de C. é uma senhora for- 
mosíssima, de muito espirito, muito elegante, rica, 
bem relacionada, tem uma soberba carruagem. 



A Comedia de Lisboa 6i 

í^frandes salões, esplendida casa ; o snr. de X. é 
uni rapaz (Valta sociedade, niillionario, distincto, 
possuidor de magnificos ca^■allos, monta como o 
marcjuez de Castello Melhor, tem uma esposa for- 
mosa, uma conversação encantadora : para que 
hão-de ambos ambicionar glorias que não são para 
elles, fazerem aquillo que não sabem fazer, de 
illustres damas passarem a detestáveis souhrettes, 
de seductores galans de sala passarem a ridicu- 
lissimos galans de theatro, e em summa de excel- 
lentes espectadores passarem a ser péssimos ar- 
tistas? 

Porque no fim de tudo a verdade é esta. V. 
exc.^. minha formosissima leitora, que não tem 
nas salas ninguém que a iguale no espirito, na 
elegância, na pose, no encanto do sorriso, fica na 
scena totalmente vencida por uma pobre rapariga, 
que n'uma sala parecerá a mais grosseira cordon 
hlcii a seu lado, mas que alli, no seu reino, é actriz 
e a deixa a v. exc.^, rainha dos bailes, perdida en- 
tre as comparsas. 

O talento e a arte é o único bem (Vessas pobres 
creaturas. que passam toda a santa vida mettidas 
entre os bastidores, que, em quanto v(3s passeaes 
aos fulgores luminosos do sol as vossas luxuosas 
equipagens, decifram, á luz baça e avermelhada 
do gaz dos ensaios, os segredos da arte e a letra 
dos copistas. 

Vós tendes a belleza. a elegância, o luxo. a \\- 



02 A Comedia de Lisboa 

l)er(la(le. a riqueza, a educação, quando não sois 
pai-7'rmícs: ellas só teeni o talento, a vocação, d 
trabalho e o publico. Deixai-lhes os applausos. 
que vós tendes o respeito ; deixai-lhes o trabalho, 
que \"(')s tendes a riqueza ; deixai-lhes o talento, que 
vós tendes a familia. 

Cá fora (|ue distancia as separa de vós! lá den- 
tro (jue distancia \'()s separa d'ellas ! 

Se trocacs os vossos lugares, fica a sala deser- 
ta das aristocráticas espectadoras que faziam o 
encanto do nosso binóculo nos inter\-allos. fica a 
scena erma das talentosas actrizes (jue nos delicia- 
vam o espirito em (pianto o pano estava em cima. 

Cada um. no mundo, tem o seu lugar marcado. 

Vcs, delicadas mulheres, creadas na opulência, 
na grandeza, nos perfumados bondai rs, fostes fei- 
tas para os camarotes ; ellas, as pallidas raparigas 
creadas na miséria, ao acaso, á aventura, foram 
feitas para o palco. Cada uma tem as suas glorias 
e as suas felicidades- Elias a coroa de louro, vós 
a coroa de laranjeira; ellas os applausos dos es- 
p2Cta(lores. \-ós as 1)ençãos dos pobres ; ellas as la- 
grimas do pul)lico, vós o sorriso de vossos filhos. 

Por isso, n"aquillo que ellas nos deleitam, vós 
fazeis-nos adormecer. 

A \ós ])edimos a commoção da vida — ■ «o 
amor» — a ellas a commoção da scena : — o «en- 
thusiasmo». Não as queremos a ellas para nossas 
esposas, não vos queremos a vós para nossas 
actrizes. 



A Comedia de Lisboa 63 

K hoje. mais do (|iie nunca, urge protestar 
contra os curiosos, hoje (jue elles i^ulhilam de to- 
dos os lados, que correm todas as salas de Lisboa, 
e todas as praias de banlios, a fazerem concertos 
e a darem recitas. 

Era ])reciso protestar e protestamos, ainda que 
o remédio mais efficaz para esta monoinania, que 
parece reinar epidemica entre nós. seria talvez 
a])plicar aos curiosos o que se diz dos ix)etas. 

Se curiosos só por curiosos fossem ouvidos, 
estamos certos que logo se lhes acabaria a raça, 
por(|ue cremos cfue elles são curiosos sem saberem 
o que fazem, como os martyrisadores do Christo. 

Costumam os authores dos livros immoraes 
com fins moralisadores, escreverem no fim das 
suas obras: (cSe este livro conseguir arrancar 
uma mulher só que seja aos abysmos das Gautiers 
e das Marions, daremos por pago o nosso tra- 
' balho.» 

Nós diremos, terminando, quasi o mesmo. Se 
este capitulo conseguir arrancar, aos theatros par- 
ticulares, um curioso só que seja... o leitor que 
dê por bem pago o trabalho de nos ter lido. 



LISBOA DE HONTEM 



E' costume fallar-se muito nas compridas noi- 
tes de inverno, n'aquelles seroes que não tem fim, 
n'aquelles dias que vivem menos que as violetas e 
que as rosas. 

E" um completo engano. Que nos importa a 
nós que as noites sejam longas, se não lhe senti- 
mos a longura? 

Aquella quadra popular que os dous namora- 
dos, que passavam os dias de verão a conversar, 
elle com a pesada enxada ao hombro, ella com o 
cântaro á cabeça, cantavam tristemente ao despe- 
dir-se, quando as estrellas começavam a tomar o 
seu assento na luminosa assembléa sideral : 



Curtos dias de maio, 
Oh ! dias d'amargura ! 
Ainda bem não é manhã, 
Já lá vem a noite escura, 



A Comedia de Lisboa 65 

qual das minhas gentis leitoras a não tem para- 
phraseado baixinho, no fundo do seu coração, ao 
vêr entrar os primeiros raios do sol de dezembro 
por entre as fisgas das janellas das salas dos bai- 
les, quando, sentindo ainda no paladar o gosto 
acre e aromático do chocolate, dá os últimos giros 
de valsa em alegre cotillon? 

Ah ! como nos parecem pequenas e rápidas as 
noites de inverno, a nós todos que vivemos na ca- 
pital, que temos os theatros, as soirécs, as parti- 
das, os chás de familia. os bailes, para nos faze- 
rem esquecer aquella immensidade de horas, cujos 
minutos são eternidades para aquelles que pade- 
cem, que estão sós, que têem frio e fome, que ar- 
rastam tristemente a vida longe d'esse mundo bri- 
lhante de festas e de prazeres, de que vós, minhas 
formosas leitoras, sois os mais radiantes astros ! 

Aquelles podem achar longas as noites de in- 
verno, mas nós que as vimos passar velozes como 
a mocidade, ouvindo cantar o Aldighieri, vendo 
sorrir a Preziosi ou passeando uma contradança 
acompanhada pelo piano do Macário, não pode- 
mos deixar de rir na cara de quem nos diz que 
ellas eram grandes, e de achal-as infinitamente pe- 
quenas comparadas com as que vão passando, e a 
que o vulgo chama as curtas noites de maio. 

No theatro o calor sentou-se nos nossos luga- 
res, invadiu os vossos camarotes ; cá fora. no cam- 
po, o luar pallido e sereno recorta já, sobre o fun- 



66 A Comedia de Lisboa 

do limpido e claro do céo. os j^erfis brancos das 
casas, as formas phantasticas das arvores, mas a 
briza traz-nos, de envolta com os perfumes dos 
roseiraes e dos jasmineiros, as pneumonias e os 
defluxos n'um ventosinho traiçoeiro e fresco — 
ultimo espirro do inverno que recolhe a sua casa. 

N'esta situação indefinida e transitória, o que 
se lia-de fazer? O sol é madrugador, é verdade, 
deu-lhe para se levantar cedo ou acordam-no os 
gorgeios dos pássaros, e quando nós levantamos 
a cabeça do travesseiro, e espreitamos por entre 
as cortinas do nosso leito, já ha que tempos que 
elle anda a passear pelos campos, dizendo segre- 
dos ás camponezas, que se fazem vermelhas como 
cerejas sob as suas caricias ardentes, beijando as 
espigas verdes do trigo que, ao contacto dos seus 
lábios de fogo, se fazem douradas como os raios 
brilhantes. 

O sol levanta-se cedo; mas nós por em quanto 
é que não nos levantamos com o sol. Para que? 
Para ir para a Havaneza? para vêr os cysnes do 
Passeio? para passear no Chiado. 

Nada, d'aqui a um mez, quando de mala na 
mão, como o imperador do Brazií, dissermos adeus 
a Lisboa, por uns bons três mezes, disputaremos 
com o Phebo dos gregos a primasia das madru- 
gadas. 

Por hoje contentar-nos-hemos em o vêr, ás 
oito horas da noite, tomar o seu banho no oceano. 



A Comedia de Lisboa d-j 

e, tni (|uanto o não imitamos na Ericeira, ou em 
Cascaes, ou na Foz, ou mesmo na Flor de Lisboa, 
tratemos de aproveitar o tempo o melhor que po- 
dermos. O theatro com o seu calor, o campo com 
a sua aragem fria. mandam-nos para casa. Va- 
mos pois para casa, e, com a janella aberta para 
não abafar, arranjando uma temperatura confor- 
tável com o calor do candieiro de petroline e com 
a fresquidão da briza da noite, mata-se o tempo 
conversando. tral>alhando, lendo — fazendo serão 
é a phrase. 

Em Lisboa, o único tempo em que se faz se- 
rão é n' estes dous mezes. 

Entre a éix)ca dos theatros e a época do cam- 
po ha este pequeno intervallo, que se pôde cha- 
mar propriamente a época da leitura. 

Hontem dançava-se e ia-se ao theatro, ama- 
nhã passeia-se e toma-se banho; hoje — lê-se. 

Lê-se e conversa-se. Quando n'uma cousa se 
podem reunir as duas é o ideal. 

Mais felizes do que Fausto, do que D. Juan, 
do que todos os allucinados que têem atravessado 
o mundo em busca d'um ideal que nunca encon- 
tram, nós encontrámol-o. 

Um livro, que é uma conversação, um conver- 
sador que é Júlio César Machado, isto é, o primei- 
ro dos conversadores do nosso paiz, o cinzelador 
da anecdota, o humorista elegantissimo, o artista 
da phrase, o estylista primoroso, o homem de le- 



68 A Comedia de Lisboa 

tras completo, que, quanto -mais de perto se vê 
mais se admira, e que. contrario á tradição, seria 
mesmo grande homem para o seu criado de quarto. 

Descoberto o livro e o author, está descoberto 
o segredo para uma noite, ao menos, passar rápi- 
da como as noites bem passadas. 

A gente está a lêr Lisboa de hoiiteui, e está a 
vêr Júlio Machado, com a sua cara trigueira e es- 
pirituosa, com os seus grandes cabellos sedosos e 
negros, penteados em cabelleira, como ninguém 
poderá usar sem ser ridículo, e que a elle lhe dão 
uma originalidade picante, como o seu estylo aos 
seus livros, e a sua maneira de dizer, á sua con- 
versação ; está a adivinhar-lhe o sorriso superior, 
o olhar profundo d'aquelles olhos pretos e gran- 
des, que illuminam singularmente aquelle rosto de 
charinant arabc, como lhe chamam em Paris. 

Lisboa de hontem para os que têem trinta an- 
nos é suave como uma recordação, é como que 
tornar a nascer, tornar a \êr tudo o que se viu na 
mocidade, tornar a atravessar as velhas ruas sem 
candieiros, e os tempos da barca dos toneis e d(» 
theatro da rua da Procissão, tornar a viver com a 
forte geração dos grandes homens que a morte 
avara guarda já, quasi toda, no tumulo, tornar a 
rir com os tyjx^s populares que a lúgubre par- 
ca varreu das ruas de Lisboa para as valias dos 
cemitérios. 

Para quem não dobrou ainda o Pruth dos 



A Comedia de Lisboa (/) 

trinta annos, o novo Iím-q do eminente escriptor 
é quasi que um passeio archeologico a uma velha 
cidade desconhecida, pelo braço do mais alegic 
companheiro e do mais espirituoso cicerone que 
desejar se pôde, é a visita a uma Citania recons- 
truída n'um momento, como uma cidade de fceru , 
ao sopro magico d'esse poder omnipotente que, 
como o Deus da Biblia. faz surgir do nada mun- 
dos maravilhosos — o talento humano. * 

Curiosíssimo, extremamente curiosíssimo, es^e 
formoso livro onde se encontram paginas scintil- 
lantes que fazem pensar em Haine, em Janin, em 
Karr e em Gustavo Droz, e que, o que mais é, 
denunciam em cada phrase a possante e caracte- 
rística individualidade de Júlio Machado, anda já 
a estas horas por todas as mãos, tem feito já de- 
licias de todos os espíritos elegantes e delicados. 

Quando ao anoitecer, voltando d'um passeio 
ao campo, vemos, por essas estradas fora, através 
das janellas abertas de par em par. esses interio- 
res domésticos, que parecem uma collecção d'a- 
quellas formosas photographias coloridas allemâs 
de grupos de família, homens e mulheres lendo e 
costurando em redor d'uma mesa, sobre a qual a 
luz avermelhada do petróleo é obrigada a con- 
vergir ix)r um immenso ahat-jour, se os rostos sor- 
riem e seguem attentos e risonhos a palavra d' um 
leitor que, no meio da mesa, folheia rapidamente 
um livro pequeno e elegante, podemos jurar logo 
que esse livro é — Lisboa de hontem. 



A Comedia de Lisboa 

E singularidade notável, o livro tem 270 pa- 
ginas e nem sequer um capitulo, uma paragem. 
Começa na primeira pagina e acaba na ultima 
sem uma suspensão. 

E' c|ue Júlio Machado sabe que os capitulos 
nos seus livros servem apenas para furtar espaços. 

Quem agarra n'elles, lé-os de principio a fim 
sem descançar, e, o que mais é, sem cânçar. 

O encanto não se quebra um momento, os as- 
sumptos mais differentes encadeiam-se em flores 
que não deixam perceber as balisas que os sepa- 
ram; é como que um licor precioso que se bebe 
d'um só trago. 

E podemos afiançar-vos, leitoras, que n'esta:-) 
noites sem bailes nem theatros, que tão compridas 
vos parecem, ao chegar ao fim, ficareis com ran- 
cor á Poika c ao gaz, que fazem terminar a gra- 
ciosa caiiscric, como o cotiUon e o sol fazem aca- 
bar os bailes, e que ao fechar o livro, e ao ou- 
vir meia noite, murmurareis no intimo do vosso 
coração -a paraphrase da quadra dos insaciáveis 
namorados : 



Curtos dias de maio. 
Oh ! dias d'amargura ! 
Ainda bem não é manhã, 
Já lá vem a noite escura. 



os DIVERTIMENTOS DO DOMINGO 



(trADUCÇÃO d'uMAS paginas ESCRIPT4S A LÁPIS 
NA CARTEIPA d'uM INGLEz) 



17 dc junho de 1877. 



Cheguei hoje pela manhã a Lisboa, no com- 
boio de Badajoz. 

Lisboa é perfeitamente uma terra phantastica. 
No globo terráqueo não ha nada que se pareça 
com ella. 

Nem as cidades populosas dos Estados-lTni- 
<ios, nem as Iribus selvagens da America, nem os 
paizes maravilhosos do Oriente, nem as capitães 
civilisadas da Kiiropa se lhe assemelham. 

I,iv|i.);i (■ iilll |i;iH'i|l licsis IIH gl/andc vid;^ ')'' 

universo. E' uma cousa á parte, que nem no pas- 
sado, nem no presente, e parece-me que nem no 
futuro, terá rival. 

E' uma terra pitoresca, cheia d'altos e baixos 
como o espirito dos habitantes. Surprehendi-a ac 
levantar da cama, e em quanto ella esfregava js 

7 



A Comedia de Lisboa 

olhos fartos de dormir, eu lavava-me do pó e 
mettia-me no leito confortável d'um dos melhores 
hotéis. 

Acordei ás 3 horas. Perguntei ao criado do 
quarto o que havia de divertimentos ao domingo 
em Lisboa. 

— As touradas á tarde e o Passeio á noite. 
Indo a elles, ficará conhecendo toda a cidade. 

Para não perder estes dous divertimentos ca- 
racteristicos da capital de Portugal, saltei por de 
cima do almoço, jantei, metti-me n'um carro com 
rodas, a que os indigenas chamam tipóia, puxado 
por dous animaes extravagantes a que na terra 
chamam cavallos. e fui até ao Campo de Sant'- 
Anna, local do barracão onde ha os combates de 
touros. 

A gente, apenas entra, fica logo sujo de branco 
e tem de marinhar por umas escadas de mão que 
afjui se chamam trincheiras. Sentei-me n'um de- 
grau e assisti a toda a tourada. 

O homem combate com o touro, mas sempre 
])or ])recauçno embola-lhc os jirins an passo qu ' 
afia d farpa. Nestes Lu!iibat.tT. "• homem tem tc- 
das 35 vantagens sobre a fera, excepto a da inte!- 
ligencia. porque o boi vai alh á força e o homem 
xai por sua livre vontade. 

Nas trincheiras ha sempre uma gritaria insup- 
portavel, assobios, pancada, gargalhadas, assuada, 
uma cousa inteiramente nova para todos que não 



A CoMEniA nE Lisboa 73 

são portuguezes. Quando n'um camarote, com 
limas cortinas de chita, como as do trem em que 
eu tora, appareceu um homemzinho de chai>éo al- 
to, a praça parecia que vinha abaixo com berraria. 

Pensei que aquelle homem fosse algum crimi- 
noso, e ((ue a multidão o queria apedrejar. Não, 
senhor. Depois de indagações difficeis, vim a sa- 
ber que aquelle homem era a authoridade, e que 
tudo aquillo era manifestação de sympathia. Mais 
tarde, xi (jue era assim que o povo de Lisboa 
mostra a sua \ene ração pelos grandes homens 
da terra. 

Aca1)ada a tourada, fui ao Passeio Publico : 
uma rua, mettida entre grades, que ha no valle 
(|ue forma o coração da cidade. 

O Passeio Publico em Lisboa é a continuação 
lógica (la praça dos touros. Esta é circular, aquel- 
le é rectangular. As trinheiras do Campo de 
SantWnna são aqui substituídas por umas cadei- 
ras, que custam apenas urn \'intem. vintém que 
muitas \ezes não valem. 

C) Passeio ao entardecer não apresenta nada 

\\i' i!"'>lH\tl. h''infii' e nill' >r.í>, \ "rSlldO'? .í CIUTipÇíí. 

pasieiâin para. baixo e para cima sentam-se con- 
\'ersam. como é costume em toda a parte. 

Quando a noite desce do alto das montanhas 
([ue bordam o Passeio, é (|ue começa o espectáculo 
a tomar proporções extravagantes c perfeitamente 
maravilhosas. 



74 A CoMJvJJlA Dl', IjSlíOA 

A noite começava a encher tudo de trevas ; 
no céo accendiam-se as estrellas e na encosta dos 
montes os candieiros, mas no Passeio nem signal 
de luz. De repente, do meio da escuridão, rompe 
uma musica marcial, cjue, pela afinação, bem se 
via que estava ás escuras no Passeio e na Arte. 
Como vaga enorme corre o Passeio d'um lado a 
outro, desde uns taipaes de madeira que são re- 
líquias do tempo dos hespanhoes, até aos cysnes 
de pedra da cascata superior, um rumor seme- 
lhante ao das praças de touros. 

O rumor cresce e transforma-se em gritaria. 
No meio do Passeio apparece um homem alto, 
rosado, com grandes suiças postiças, cercado de 
assobios, seguido de pequeninas luzes tremulas. 

E' a authoridade da praça, o Cócó do mu- 
nicipio. 

Em Portugal todas as grandes corporações 
lêem o seu Cócc). 

Este titulo (lá direito a três gebadas em ])U 
blico, e a um acompanhamento de vinte e quatro 
garotos com ])hosi)horos de cera nas mãos. 

() ( '('xo >|ii iiniiii(i|>io airavoson <> l'asM"io la- 
deado pelos seus escudeiros, — depois das três 
gebadas do estylo retirou-se, ao som do seu hymno 
tocado a assobio, para uma das casinholas que ha 
no alto do Passeio. 

Este . Cócó tem grande reputação cm Lisboa., 
pelos seus altos feitos e pelos seus bons pasteis. 



I.i- 



lia tempos nin maestro offereceií-lhe uma 
jKjlka tema, intitulada A Toi. O povo adora-o e 
tcm-n"o como o Cócó-Mór de Lisboa. 

Na camará ha mais Cócós, o Cócó do Passeio. 
Cócó das calçadas, etc. 

Do mesmo modo que a palavra saudade, a pa- 
lavra Cócó não tem equivalente nas outras linguas 
europêas. 

Cócó quer dizer na lingua indigena : — func- 
cionario pasteleiro. 

Depois da entrada do Cócó-Mór no Passeio, 
começou o espectáculo. 

As sinetas das portas principiaram a tocar 
como as chocas quando vem buscar os bois á pr.i- 
ça. A gritaria continuou sem interregno ; e os ja- 
notas subindo aos bancos começaram a accendei' 
os candieiros. Então entrou no Passeio o vistoso 
corpo de homens de forcado vestidos de preto, 
calça branca, fita azul e branca no braço, e espada 
á cinta. Seguiam-n'os os cavalleiros, montados 
em bons ginetes, de capacete á prussiana e espada 
em punho. 

O intelligente da corrida, vestido á paisana, 
com um chapéo de coco na cabeça e bengala na 
mão, passou revista ao bando e collocando-se atraz 
(Velle mandou seguir. Começou então a grande 
tourada, com a única differença de que as feras, 
a (|uem o povo na sua pitoresca linguagem chama 
policias, são agora quem persegue os homens. 



jó A Comedia dk Lisboa 

As feras seguiram em linha pelo Passeio fora, 
levando adiante de si, homens, mulheres e crian- 
ças. 

Como nas touradas hespanholas houve tam- 
bém o incitamento das garrochas. Lançou-se fogo 
ao taipal — reliquia da porta do sul do Passeio. 

Immediatamente d'entre a multidão sahiram 
uns sujeitos que á vista de todos collocaram solem - 
nemente nos braços umas fitas que, segundo me 
disseram, dão a invulnerabilidade no fogo, e arre- 
messaram-se heroicamente para as chammas com 
uns guarda-chuvas que em Lisboa parecem ter o 
privilegio de apagar fogos. 

Do Passeio tinham-se fechadt) todas as portas 
para mais facilitar a evacuação. Apenas por uma 
greta podiam sahir uma a uma as innumeras pes- 
soas que enchiam o recinto. 

Foi então que o espectáculo chegou ao seu 
auge de animação. De dentro do Passeio o povo 
era enxotado pelas espadas dos soldados, e lá fora 
os que sabiam eram recebidos ás cutiladas pelos 
agentes da paz. Era magnifico. Os chapéos voa- 
vam pelo ar, os gritos echoavam de todos os la- 
dos, as senhoras, as crianças e Os homens, banha- 
dos em sangue, fugiam para as trincheiras illu- 
minadas, a que o povo em vez de abrigos, chama 
Recreios. 

Alguns bois chegaram a saltar as trincheiras. 
A confusão era indescripti\el. Das varandas os 



A COMKIHA l)K IvTSBOA 77 



espectadores gritavam : morra a policia ! morra a 
camará! ao longe oiivia-se esta gritando: viva o 
Cócó! os policias batiam nos soldados, soldados e 
policias batiam nas arvores, como D. Quixote, e 
o intelligente da corrida mostrava-se satisfeito. 

Na arena os feridos e os mortos gemiam pro- 
testos tremendos, ensopados em sangue, e na rela- 
{;ão directa dos seus soffrimentos. Os que apanha- 
\'am apenas um pontapé pediam a demissão do 
policia aggressor ; os que apanhavam uma pran- 
chada pediam a demissão dos soldados ; os que 
accumulavam pontapé e pranchada pediam a de- 
missão do commissario geral ; os que apanhavam 
uma cutilada pediam a demissão do governador 
ci\il ; os que apanhavam duas, a demissão do go- 
verno ; os mortos pediam a demissão do rei. 

E aqui teem como Lisboa se diverte ao do- 
mingo. 



AS CASAS 



Aíiular! eis o verbo predilecto de toda a Lis- 
boa. Mudar de tudo, e sempre. Mudar de casa. 
de ministros, de affeiçÕes, de ideaes, de opiniões, 
de tudo, excepto de roupa branca. 

A volubilidade nacional está perfeitamente ca- 
racterisada nas noites de 30 de junho e 31 de de- 
zembro : n'esse grande cotillon de espelhos, com- 
modas e canapés, que se repete de seis em seis 
mezes com o phrenesi do delirio, com a certeza 
da fatalidade. 

E' uma vertigem, uma loucura, uma febre, 
uma doença. 

Este profundo desapego pela casa é a origem 
dos grandes descarrilamentos domésticos. 

Na vida, como no theatro, a scena não é tão 
ilidi ff erente ao drama como apparcntemente pare- 



A L'(.iMi;iii,\ lu: lyisiiuA 

ce. Se !Mai\^ai"icla. em vez de ter jardim, morass3 
n'iim quarto andar da rua do Ouro ; se Adélia, 
em vez de ir para a estalagem de Ittenheim, fosse 
para o hotel Borges : já Fausto teria mais tra- 
balho para seduzir a suave Gretchen, e Antonv, 
em vez de levar a snr.^ d'Hervey amordaçada 
para o quarto, ao cahir o pano, iria entre o An- 
tunes e o Palmella para a esquadra da 2.^ divisão. 

A casa! é n'ella muitas vezes que está o. futuro 
das famílias, que está o dia de amanhã, a felici- 
dade ou a desgraça. 

E nós nem pensamos nisso, deixamos uns pré- 
dios e entramos para os outros, com uma indiffe- 
rença descuidosa, como se não nos ficasse parte 
da nossa vida n'aquenas paredes que abandona- 
mos levianamente, n'aquellas paredes que a tradi- 
ção, na sua larga experiência, nos diz que teem 
ouvidos... 

Os gregos, que não eram mais tolos que nós. 
consideravam a pedra do lar como uma cousa sa- 
grada. Para elles era o centro da vida, era o san- 
tuário da familia. 

Tinham os seus deuses domésticos, os seus 
penates, os manes, os lares, uma catre f a de génios, 
que tornariam muito dispendiosas e incommodas 
as mudanças. 

Nós puzemos fora os penates para não com- 
plicarmos o serviço das padiolas. Ha gente que, 
quando se muda, deita á margem os gatos para 



8o A Comedia de Lisboa 

os não ter de levar n'um sacco, a despertar por 
essas ruas fora o humorismo dos gravoches lis- 
boetas. Para simplificar, puzemos na rua os ga- 
tos e os penates. 

R no fim de tudo, estes, apesar de não mia- 
rem, eram uns sujeitos incommodos. Estavam 
sempre a j^edir leite e bolos como um Khing's 
Charles. E' verdade que enchiam a casa de bene- 
fícios — no bom sentido da palavra, que no mau 
os theatros substituem bem os penates — velavam 
pelo.s pequenos, como amas seccas, e faziam sahir 
dinheiro nas sortes de Hespanha d'aquelle tempo. 
Mas a par (Kisso tinham exigências terríveis e- 
perigosas hoje. 

Por exemplo, a deusa do lar, a austera V^esta, 
não consentia o mais ligeiro peccadilho em casa. 
As esposas infiéis, os maridos dóceis, os filhos ex 
travagantes, as pessoas pouco decentes eram pos- 
tas na rua sem appellação nem aggravo. 

Ora francamente, se isto fosse hoje assim, an- 
dava sempre uma procissão de gente por essas 
ruas sem saber onde se havia de metter. 

Nada. Vale mais matar o diabo do que ser 
morto por elle. Ponham-se fora os penates ; e os 
penates fôram-se, e a deusa Vesta ficou sem com- 
modo, para aprender que // fauf de la verfu, mais 
pas trop nen fauf. 

■ Mas as exigências dos penates não justificam 
o desapego pelas casas. Não é uma questão de 



A COMEIMA DK UlSI30.\ 8l 

sentimentalismo banal, é uma questão de felici- 
dade futura. Ninguém se lembrará, de certo, de 
negar a influencia nociva ou benéfica que sobre o 
nosso sêr physico exercem as casas. Ha casas by- 
gienicas. outras que o não são. Pois na vida 
moral as casas podem exeixer não menos impor- 
tante influencia do que sobre a vida physica. 

Porque no fim de tudo. a cousa é clarissima, 
profundamente verdadeira, e eminentemente ló- 
gica. 

Toda a vida bumana depende das mais peque- 
nas cousas. O mais lig^eiro passo pôde. acarretar 
tremendas catastropbes. ou espantosas venturas. 
O acaso é o grande deus da vida. A sua lógica 
porém é terrível. Os factos encadêam-se n'uma 
proporção crescente, e o grão de arêa gera a mon- 
tanba. como o pequeno barco de Colombo deu ao 
mundo a America. 

N'este valle de lagrimas, em que vivemos, a 
grande arte é saber aproveitar os momentos. A 
occasiào é tudo. Não ba mulher por mais honesta, 
consciência por mais pura, que não tenha tido ou 
não haja de ter, na sua existência, um momento 
perigoso, o momento da (|ueda. Se n'esse mo- 
mento vem o tentador, tem a conquista certa. O 
difficil é acertar com o momento. 

Muitas vezes está elle no mudar de casa. 

Imagine-se dous noivos. A sua casa é um ni- 



8-' A COAJiiDlA UK r^lSKOA 

nho ; pequena, alegre, confortável. Vivem sem- 
pre sós, sempre um com o outro. 

São felizes e amantes. Mudam de casa. O ni- 
nho transforma-se em palácio: o pequeno gabinete 
de trabalho, o microscópico boudoir são agora 
immensas salas. As visitas não são um desejo 
d'elles, são uma necessidade da casa. Recebem. 
As salas confortáveis chamam os convidados. As 
reuniões passam a soirées, as soirées transfor- 
mam-se em bailes. A vida de dous, perde-se na 
vida de todos. — O amor que era um encanto e 
uma necessidade na solidão, passa a ser um tram- 
bolho e um ridiculo na sociedade. Os amigos do 
marido fazem a corte á mulher, as amigas da 
mulher provocam a corte do marido. E elles pas- 
sam a ser amantes, e felizes, mas cada um para 
seu lado, e Vesta apaga a lamparina. 

Uma familia que tem jardim, muda-se para 
uma casa que o não tem. — As noites quentes do 
verão, passavam-se alli deliciosamente sob as par- 
reiras, ao pé da cascata, conversando, fumando, 
costurando á luz vermelha do petroline. Aqui c 
calor enxota-os de casa, e sahindo, o menor pe- 
rigo que a familia pôde correr é ter as orelhas 
cortadas pelas espadas dos municipaes, no Passeio 
Publico, onde não pôde estar ninguém. 

Ha casas que attrahem, e casas que repellem; 
ha casas d'onde custa sahir, ha casas onde se não 
pôde entrar; umas impõem a solidão e o amor, 
outras ordenam a sociedade e o escândalo. 



A CoMKiHA ni'. IjsiíDA 83 

K isto é só emquanto ao futuro. São os pcri- 
L^os das mudanças. Agora emquanto ao passado : 
são as saudades. 

As casas onde morrem tísicos era costume an- 
lioo mandal-as ]~)icar. Nas paredes silenciosas li- 
ca\a algnma cousa crcssas doenças terriveis e sua- 
xes ([ue matam a sorrir. 

Succede o mesmo com a felicidade. Do mes- 
nid modo (|ue nos quartos dos cliolericos ficam 
átomos de epidemia nas paredes de cal, nos quar- 
tos dos noivos ficam os aromas das íiôres de la- 
ranjeira, que se esvaem, nos quartos das crianças 
atonios (jueridos das rosas da mocidade (|ue se 
espargem exuberantes. 

-\s paredes teem ouvidos, e tanto lhes ficam os 
gritos d'agonia e de dôr, como os suspiros amo- 
rosos, como o chilrear alegre dos dias descuidosos 
da infância. E ha quem se aparte sem saudades, 
como sem receios, d'essas jiaredes mudas que, :; 
semelhança dos sac/irls luxuosos, guardam éter 
namente a recordação dos i)er fumes (|ue n\'llas 
SC esconderam ! 

ls(o n.io I- iiiii.i )pii( i.i I I >ii\ ( iirii iiial. <■ iinin 
poesia eterna e immutavel, a poesia do coração. 
Quando debaixo d'umas arvores gigantes, quandr) 
.sentados n'uma pedra tosca, coberta de musgo, 
rodeada de plantas selvagens, sentimos morrer d 2 
amor nos braços uma mulher querida, levando 
nos olhos que se fecham, nos cxtasis hystcricos da 



84 A Comedia de Lisboa 

volúpia, os nossos beiços ardentes em qne se ex- 
hala, como de flor (jue morre, todo o perfume da 
nossa alma, essas arvores, essas pedras, es- 
sas plantas silvestres são-nos tão sagradas d'alli 
em diante, como a pedra do lar dos gregos, como 
as relíquias augustas dos crentes. 

E' isto a saudade, é isto o amor, é isto a poe- 
sia ; e como todos comprehendem e sentem o hor- 
ror fatal pelas casas em que morre um parente 
(juerido, uma pessoa idolatrada ; não sabemos 
como ha quem não tenha veneração e saudade:-! 
pelas paredes que escutaram os seus primeiros 
beijos de amor. que ouviram os primeiros vagi- 
dos — o único choro que ha alegre — da creatura 
que hontem era nada. — o feto : e que hoje é 
tudo ; — o filho. 

E apesar de tudo isto as mudanças continuam. 
e cada vez mais. para gloria dos gallegos e para 
])em dos senliorios. 



o DIA 24 DE JULHO 



Mal elle apparecen lá n"uin cantinho do Orien- 
te a espreitar se eram já horas de se levantar do 
sen leito côr de rosa. atiraram-lhe de cá de baixo 
^:om nma saraivada de foguetes, bombas, mor- 
teiros, hymnos retumbantes, phrases de rhetorica 
e notas desafinadas, (|ne elle. mesmo (|ue tivesse 
tenção de se voltar para u outro lado e dormir 
outro somiio. nào teria remediu senão saltar fora 
da ramri. en\er!^".'n" ;i sna grande tniirttc (\v 1u/ e 
\ii [.IO! c./..<- '.'■" lo!d abbiotu ,1 chegada da coin.- 
MiisBão d Almada ao Te-Deum de S. Domingcs c 
á parada do Rocio. 

A's vezes vem de mau humor, como as crian- 
ças quando acordam estremunhadas, faz caretas, 
escon'le-se. churaniinga. faz andar n'uma dança 
as sombrinhas das senhoras, em sustos as com- 



missões das luminárias, destinge as bandeiras e 
os g"eneraes, e quando se vai embora deixa todos 
arrependidos de lhe terem feito tanta festa ao 
nascer. Mas não senhor, hontem, honra lhe seja 
feita, portou-se muito bem. 

Assistiu alegre e risonho a todas as solemni- 
dades e se não assistiu ao fim da segunda parada 
foi porque tinha que fazer no outro hemispherio. 
Mas deu astro por si, e ainda o castello de S. Jor- 
ge não tinha principiado a sua phantastica illumi- 
nação, já o Padre Eterno, com uma solicitude que 
deve ter escandalisado muito os leitores da Nação, 
pregava na immensa parede azul do seu palácio 
maravilhoso a grande luminária que, entornando 
sobre a cidade em festa os jorros da sua branca 
luz sideral, mettia n'um chinello todas as illumi- 
naçÕes possíveis, até mesmo o magnesium d'um 
sujeito, que, quasi de tão alto como Deus — imi 
quarto andar da rua do Passeio- — ^ queria derru- 
bar a lua, (' luclar cmilra o Padre Eterno em fa 
\'or do snr. José Júlio Rodrigues. Lisboa andon 
lõdõ () (lia irnnia fcsla. As ])lii1arnionicas corrc- 
lauí hidas as iiias d.i ciiiailt-, liiiini))liantrs c \iii 
gativas. N'esse dia ao menos não havia remedro 
senão ouvil-as : e por isso ellas tocavam, tocavam, 
tocavam sem descançar, sem parar, sem beber, 
sem comer, a não ser de vez em quando algumas 
notas dos hymnos liberaes. Foi durante o dia 24 
de julho todo o seu alimento e não foi pouco. 



A CoMiíDiA UR Lisboa 87 

A ])opulação de Lisboa fez n"esse dia uma 
cousa espantosa, sahiu á rua. Via-se gente por 
toda a parte, nas ruas. nas janellas. nos telhados, 
cm cima das arvores, marinhada pelas velas das 
faluas atracadas ao Aterro. Os ])olicias tiveram o 
seu regabofe. Paliaram mais n'esse dia do cjue o 
snr. José de Moraes durante toda a sua carreira 
])arlamentar, e gastaram mais lógica nas discus- 
sões com o po\'0, durante a parada, de (jue todos 
os advogados de Lislioa durante um anuo de 
foro. 

Os cavallos dos trens tiveram também a sua 
festa — o descauQO. Trabalharam todo o dia mis 
não se mexeram nunca.' Andar de trem. hontem. 
queria dizer estar parado. 

Andavam no ar murmúrios de festa e estalos 
de foguetes. 

Lisboa fazia um grande arraial ])ara saudar 
.uma grande cousa — a Liberdade. 

Ha quarenta e quatro annos entrava ella. das 
duas para as três horas da tarde, no cães do So- 
dré, na ponta da espada heróica d'esse valente sol- 
dado, que a arte immortalisou no bronze. de|)ois 
da heroicidade o ter immortalisado na his- 
toria. 

N'esse dia também a briza que passou ouvni 
cantos festivos, gritos de alegria e de triumpho, 
mas, acompanhando esse hosamia á hberdade, ha- 
\-ia como na Marselheza umas notas plangentes 

8 



88 A Comedia de Lisroa 

e trágicas, eram as lagrimas dos vencidos, eram 
os rugidos ferozes das vindictas pessoaes e inevi- 
táveis, eram o choro desesperado das viuvas e das 
mães que \-iam a aurora ([ue se levantaxa illuminar 
os cada\'eres hirtos d'aquelles que ainda na vés- 
pera tinham morrido pela liherdade. c|ue fora 
todo o seu anceio, por esse sol brilhante (|.ue en- 
chera de fulgores os seus sonhos de prisioneiro, 
e que hoje só lhe podia servir de tocha fune- 
rária. 

Os tiros festivos, que se repercutiam pelos 
ares, deixavam muitos tristes, porque na véspera 
ainda' a cada um d'esses tiros o echo respondia 
lúgubre com os gemidos dos moribundos. 

Hoje não. — O fumo da pólvora eleva-se para 
o céo como uma nuvem crincenso sem deixar ca- 
dáveres na terra. A liberdade é uma formosa 
deusa christã. Não se alimenta, como os insacia- 
\'eis deuses do velho paganismo, da carne quente 
das victimas. Na sua ara sacrosanta não quer o 
sangue innocente d'Isaac, nem a vermelha purpura 
dos Césares. 

O seu altar é o do tra1)alho : a sua religião a 
conf raternidade : ,a sua divisa o Bem, o Justo, o 
Verdadeiro. 

O povo portuguez. (jue ha quarenta e quatro 
annos vive sob a sua benéfica tutela, faz bem em 
festejal-a. Não p(3de ser mais santa a festa. — Se 
o grotesco sorri por vezes entre as tranças de buxo 



A COMKDIA 111-; LlSnOA Sc) 

(_■ as ])rt\i;as das 1)an(leiras. se o Imrlesco se senta 
nos 1)auc()s nús dos coretos e fa/. caretas ]K)r de 
iraz dos ];atios caiados, e dos transparentes sym- 
bolicos. a magestade olympica da idéa que presi- 
diu aos festejos faz calar em todos os lábios os 
sorrisos (|ue a sua realisação pratica, em dema- 
siado ])rovinciana, por ventura desperta. 

Xão se avalie a divindade ])elo culto, não ava- 
liemos Deus pelo Vaticano. 

O povo festeja ingenuamente como sabe e 
como p(')de os seus mais caros ideaes. — Expio 
ram-n'os d'um lado e do outro a carolice e o mer- 
cantilismo. Af|uella tem o seu orgulho empenhado 
em ter o -coreto defronte da janella, — um lux;) 
(|ue palavra de honra lhe não invejamos — esteio 
seu génio commercial e pratico empregado em 
hem servir os' seus freguezes e encher os seus co- 
fres á custa de todos os enthusiasmos. 

E' de\eras original este modernissimo movi- 
mento do mercantilismo applicado á exploração 
das grandes torrentes da opinião publica. 

Um dia apparece o milagre de Lourdes. O 
commercial apparece immediatamente. Querem 
milagre? Muito ])em. Fornece logo ao publico 
um l)om bolei. conf(jrta\'el, commcido. com quar- 
tos arejados, mesa farta e serve-lhe á mesa re- 
donda, entre duas entradas, o desejado milagre, 
jantares a tanto por cabeça, com agua de Lour- 
des e \'inho de Bordeaux. 



<X) A Comedia de Lisboa 

O snr. padre Conceição Vieira, que não pôd.' 
transportar para cá o hotel, transporta a agua. 
Francamente preferimos o hotel. E mais dia me- 
nos dia temos ahi ao lado das boticas allopathas, 
homceopathas e raspalhistas, uma botica religiosa 
com aguas santas para todos os padecimentos, .i 
tanto o litro sagrado. 

Chega o natal. O povo adora os presépios, 
gosta de vêr nas igrejas os pastores de barro. :j 
boi e o burro, a estrella de papelão e os reis ma- 
gos, dos quaes um c preto. O theatro da rua do^ 
Condes dá-lhe logo, a 360 réis o lugar, tudo : ui"i 
boi verdadeiro, um burro authentico. os reis ma- 
gos de todas as cores, a estrella. o presépio, tudo 
em tamanho natural. 

As classes elevadas começam a sonhar com a 
ar\(^re do natal: aipiella deliciosa festa tradicio- 
nal das crianças, o lar. a arvore cheia de brinque- 
dos infantis, o velho pastor evangélico, as louras 
crianças, as pallidas ladys. Os Recreios Witthoy- 
ne arranjam logo tuflo isto. Por um tostão forne- 
cem ao publico a arvore do natal, o lar, os velhos 
pastores, as pallidas ladys e até as louras crianças. 
— Não pode ser mais barato. 

As peregrinações a Roma fazem ])ensar fatal- 
mente nas peregrinaçqes a Jerusalém. 

Não houve ainda quem arranjasse uma loja 
com Papas ])or preços módicos: mas o espirito 
liebraico com as suas legendarias tradições ác 



A COMKDIA 1)K LiSHOA 91 

Schylock arranjou logo unia Jerusalém entre o 
Passeio e o Rocio. A gente janta na Silva, desce 
o Chiado e encontra logo uma casa onde acha por 
lista, a preços reduzidos, todas as reliquias da 
velha cidade de Christo. 

As noites de Santo António e S. João eram 
cm Lisboa as noites dos festejos domésticos, dos 
mysticos sortilégios, das sortes, das rodinhas de 
vintém, das poéticas alcachofras. O Passeio Pu- 
Ijlico substitue-se logo ao lar. 

Por meio tostão teem-se sortes já feitas, alça 
cliofras já queimadas e até floridas, rodinhas que 
custam sempre mais mas muitas vezes ardem 
menos. 

xA.gora cheg^ou a occasião das festas da liber- 
dade, umas festas essencialmente patrióticas e po- 
pulares. 

A alvorada de 24 de julho, uma cousa cheia 
de poesia, de foguetes e de h3'mnos. 

O que faz o Whittoyne? serve logo ao publico 
no seu jardim i^elo baratissimo preço de um tos- 
tão, foguetes, liymnos patrióticos e uma aurora 
(la liberdade com a grande vantagem sobre 
outra de ser muito mais cedo... ás 2 horas da 
manhã ! 

1"", o publico foi. e viu e gostou e á sabida teve 
ainda o gosto de \êr a outra alvorada que vinha 
caminhando pausadamente pelo Rocio fora. Ti. 
como rujuelle sant(j de quem o millionario ingleri 



A Comedia ]>ii Lisboa 

comprou duas cal:)eças, uma de quando era pe- 
(jueno e outra de quando morreu, a liberdade teve 
para elles duas auroras. 

E o que é mais, é c|ue effecti\'amente as teve. 
Uma aurora de sançue em 1789, uma aurora toda 
de luz em 1833. 



o VERÃO 



( ) Acaso ás \ezcs tem insidias tcn"i\cis. Ouan 
(lo a isente menos o es])era desnorteia-nos com nm 
desmentido crnel. 

l'm dia em (|ne tinliamos acabado de escre\"er 
o folhetim acerca da Lisluxi de íionlcni. de Jnlio 
Machado, e de íallar da excêntrica cabelleira sedo- 
sa e nei^Ta. qne é tim dos ])rinci|)aes característicos 
do typo elei^ante e sym])athic() do ^^rande escri- 
])tor, sahinios de casa com a ncjssa consciência 
de folhetinista ])erfeitamente soce.^ada, ]jor ler- 
mos prestado instiga a nm talento l)rilhante, e fal- 
lado sem])re xerdade aos nossos bcMis leitores. Aíal 
tinliamos dado dons ])ass()s na Patriarchal. \-imos 
ao longe tim homem a sorrir-nos e a caminhar 
para nos. h'ômos ao scti encontro sem saher bem 



94 A Comedia de Uisboa 

quem era, um pouco culpa d'elle, um pouco da 
nossa luneta. 

A dous passos parámos assombrado. Era Jú- 
lio César Machado... mas tinha cortado o cabello 
n'esse dia. Conheciamol-o ha vinte annos com a 
sua tradicional cabelleira. e nunca tinhamos fal- 
lado n'ella : exactamente no dia em que falíamos 
foi o dia em que elle a cortou. 

A tesoura mysteriosa do Acaso cortando n'es- 
se dia os cabellos d'elle, regosijava-se por nos ter 
ao mesmo tempo cortado as nossas phrases. En- 
ganou-se redondamente comnosco o Acaso, e para 
nós Júlio jMachado teve mais um dia o cabello 
crescido. 

Hoje succede-nos cousa parecida. 

Temos passado estes dous mezes a suar mais 
que Adão, em toda sua vida, para amassar o pão 
de cada dia, como lhe disse pessoalmente o Pa- 
dre Eterno e tinhamos promettido a nós mesmo 
um refrigerante — um folhetim. Sentamo-nos á 
mesa n'este instante para nos vingarmos do calor 
com um punhado de phrases enérgicas, para fa- 
zer do verão um assumpto já que elle faz de nós 
umas cascatas, e n'isto a chuva começa a entrar- 
nos pela casa dentro em grandes pingos, como 
se o Aldighieri estivesse já em Lisboa e como se 
não andassem ainda pela rua as varinas a apre- 
goarem as melancias á faca, como n'este momen- 
to estamos ouvindo. 



A CoMKDiA DE Lisboa 95 

E' verão, decidamente é ainda verão. Se al- 
guém não faz o seu dever e quer mentir é elle, e 
portanto pôde querer fugir á vontade, pôde embu- 
çar-se no seu cache-nez de nuvens còr de chumbo 
e faze'r os chapéos de sol servirem de chapéos de 
duna. jxSde lançar mão de todos os sophismas e 
aguaceiros, que nôs continuaremos a consideral-o 
em pleno uso da sua estação, e faremos o nosso 
folhetim como se o thermometro marcasse S- 
graus á sombra, e se o sol fosse tão quente que 
pozesse o Camões de S. Pedro de Alcântara da 
côr do Camões do snr. Victor Bastos. 

Digamos ao verão como Josué ao sol : Pare, 
e ouça-nos, depois irá tratar da sua vida. 

Lisboa no verão, apesar da sua insipidez, não 
deixa de ter um aspecto muito curioso e origi- 
nal. 

De dia apparece pouca gente : o sol, a poeira, 
e os policias civis, passeiam sôsinhos pelas ruas 
da capital. De vez em quando esgueira-se, ren- 
tinho das paredes, para apanhar uma restea de 
sombra um vulto apressado, de leque n'uma das 
mãos, chapéo na outra : é um noticiarista á pro- 
cura de noticias, um lojista á ])rocura dos fregue- 
zes. ou um pretendente á procura d'um empre- 
go — em summa — todos caçadores do im- 
possível. 

A' noitinha é que principia tudo a sahir da 
casa — homens — que senhoras essas não ha 



A Co.MEUlA DE LlSlíi 

\êl-a.s n'este tempo: teem um certo pudor em sen- 
tir calor e não irem para o campo e então não 
sahem para fingir ou que não dão pelo verão, ou 
que não estão em Lisboa. Só as ternas meninas 
enamoradas é que arrostam com a deselegancia de 
passar o \^erão na capital, e lá vão arrastando as 
mães e as tias velhas para os Recreios Jlliittuync. 
ou para as praças frescas e pouco illuminadas, 
onde o amor murmura segredos sob as verdes 
folhas das copadas arvores municipaes. 

Cada um d"esses clul)s ao ar livre, onde a po- 
pulação de Lisboa se reúne á noite, tem a sua fei- 
ção especial. 

Os Recreios, o sitio mais central e mais illu- 
minado, é o passeio dos namoros legaes que terit 
o seu ideal embrulhado religiosamente na estola 
do coadjutor da freguezia, dos amores ciz'is e 
francos que não se importam com a igreja, nein 
com o mundo, e das coeottes hespanholas, cheias 
de pó d'arroz e \-azias de espirito, que vão alli á 
procura d'a\'enturas rendosas, mediante o sacri- 
fício de ouvirem cantar os seus compatriotas. 

O publico de homens alli é muito variado, ag- 
glomeram-se todas as classes para vêr a plástica 
das Lutgens e depois espalham-se pelos jardins 
cada um entregue ao seu capricho — uns vêem o 
tigre marinho, outros as bailarinas hespanholas, 
outrcjs o piíii, *paiii, puni, e ouvem todos no fim 
da noite (jualcpier das Batalhas musicaes, que se 



.\ CoMlvDIA Dl' IjSIÍOA 

liã()-(k' omir por força, porque não ha uni canto 
CMU Lisboa, a não ser lá para ■ a Estrella, onde 
ellas se possam deixar de ouvir. 

Durante o verão tem ido mais ou menos toda 
a ^ente de Lisboa áquelle Golgotha illuminado a 
AÍ(h-os de cores, que se chama Recreios WliiUoyiir, 
e (|ue enifjuanto teve Whittoyne nunca foi recreio, 
e (|ue hoje que é recreio não tem já Whittoyne. 
Só uma pessoa nunca appareceu lá n'estes mezes 
da estação calmosa^ o snr. Fresco. — A ultima 
\ez que lá esteve foi no inverno. 

O Passeio Publico, que este anuo teve já a sua 
noite de celebridade, aquelle Passeio que teve o 
arrojo de deitar abaixo uma camará, que não se 
atrevera a deital-o abaixo a elle, está agora, que 
é de graça, tão solitário como estava d'antes, (|ue 
era por dinheiro. E' já dizer. 

Minto, d'antes ainda se viam lá doze ou quin- 
ze pessoas todos os dias. que hoje não se vêem... 
Eram os músicos e o snr. José Torres. 

— X'csfr gciicro prefiro o Pcrc Lachaisc, dis- 
se um dia Roger de Reau\'oir ao atra\'essar •> 
passeio do Rocio. 

A população mostrou-se briosa. Podia alguém 
pensar cpie ella não ia lá por não ter meio tostão. 
((Não, senhor, tenho meio tostão, o que não quero 
é sahir de casa senão para vêr fogo de vista. Xão 
\'ou"»). E não foi. .\ camará abriu de i)ar em ])ar 
as portas de ferro, accencleu tudo e ]X)Z-se á espe- 



9^ A Comedia de Lisboa 

ra que o publico entrasse e lhe agradecesse. O 
publico agradeceu cá de fora, não entrou. 

Xa primeira noite ainda lá foram uns curio- 
sos, vêr como era aquillo de graça. Quando an- 
davam, os passos produziam no chão um som lú- 
gubre ; parecia um enterro fora da terra. Chega- 
ram até ao fim e voltaram. Estava já a tocar a 
sineta. Eram lo horas. Foram perguntar para 
que era aquelle signal — era para sahir. 

— Ah ! isto hoje foi expeciencia, pensaram 
elles, sahiram e não voltaram. 

O Passeio assim, com gente a passear e ser.i 
musica, fazia o effeito d'um jantar sem vinho. 
O publico o que fez? tirou-lhe o jantar, não pas- 
seou mais, e o Passeio ficou parecendo então uma 
mesa posta, sem jantar e sem convivas. 

A feição caracteristica pois dos frec[uentado- 
res do Passeio, é não irem lá ! 

A's IO horas porém, continua a tocar regular- 
mente três A'ezes a sineta : é para os porteiros sa- 
hirem. 

Outro sitio dos mais concorridos e com certez.^ 
o mais pitoresco, é S. Pedro de Alcântara. Nas 
noites de lua é d'um effeito magico, o panorama 
(jue se desenrola aos pés d'esse formoso parque, 
o encanto dos estrangeiros que vêem a Lisboa. 
Pois não obstante a poesia suave d'esse sitio, não 
florescem ahi o amor platónico, as paixões 
ideaes. 



A Comedia uii Lisboa g9 

N'aquelles bancos, mais bem alinhados que os 
nossos soldados em dias de parada, vêem-se hx) 
anoitecer, aos centos, casaes amorosos, arrulhando 
estreitamente unidos e de mãos enlaçadas, as es- 
trophes sensuaes dos poemas de Gythera. 

Depois, á proporção que a noite vai fazendo 
brilhar mais o gaz dos candieiros, afastam-se sem- 
pre unidos e conversando baixinho, perdem-se n'a- 
quella grande rede de travessas e de ruas do ve- 
lho Bairro Alto. S. Pedro de Alcântara é o Campo 
Grande dos pobres, ou antes o Campo Grande é 
o S. Pedro de Alcântara dos ricos. A esta cama- 
da succede-se outra não menos amorosa, mas ma:s 
maltrapilha. A primeira é na maioria de costurei- 
ras, com a sua manta de lã branca enrolada em 
torno da cabeça, e de operários com as suas quin- 
zenas de côr. Agora vêem-se lenços na cabeça, e as 
cintas por cima dos colletes. E assim successiva- 
mente, de hora para hora. o publico d'aquelle pa:<- 
seio vai baixando como as heroinas de Goncourt e 
(Ic Zoia. até que, á i ou 2 horas da noite, aquelles 
bancos se transformam em leitos, e a alamed;: 
n'uni vasto dormitório de vadios, apesar da vigi- 
lância da ])oHcia, que anda a acordar todos, mas 
(|ue. quando acorda o ultimo, já o primeiro está 
outra vez a dormir. 

Subindo um pouco, estamos n'outro dos pontos 
de reunião dos encalmados do bairro Occidental. 
E' a Patriarchal, a ])raça mais elegante c bonira 



A Com Em A de Lisboa 

(|ue tem Lisboa, e, apesar crisso. e talvez por isso 
mesmo, a menos concorrida. 

Xa praça do Príncipe Real. os passeantes sã'J 
essencialmente os indigenas. Dos outros bairro^ 
só por acaso alli apparece alguém. Quem alli vai é 
do sitio, um sitio de gente rica, que cada vez vai 
lendo mais prédios sumptuosos e mais animaçã'). 

A' tarde, em estação para baixo, passeia alli 
toda a gente dos arredores, á noite, em estaçã') 
para cima, sentam-se nos seus bancos todos os ha- 
i)itantes do bairro occidental. 

isto é a população l^uctuante d'aquella praça. 
A effectiva, são á noite, as famílias burguezas das 
circumvisinhanças, e, mais tarde, fora de horas, o 
club dos nocturnos. E" o grande club, o mais ani- 
mado de todos os de Lisboa, o mais animado e o 
(|ue se deita mais tarde. 

N"esse club ha de tudo. rapazes e velhos, repu- 
blicanos e realistas, negociantes, políticos, jorna- 
listas, empregados públicos, daiidys, etc. ; discute- 
se alli tudo, desde a representação d'uma magica 
nas Nariedadcs, até ás mais altas questões euro- 
])êas, c ás vezes em voz tão alta que os echos e o-; 
polícias não podem dormir. 

A Lage teve d'antes as suas noites de gloria. 

Foi n'outro tempo o passeio de toda a elegân- 
cia da cidade baixa. Hoje a elegância bca em casa 
ou anda a encher-se de pó e de calor por Bemfi- 
ca. Luz. Lumiar. Camarate, Pedrouços e por to- 



A Co.MKniA DH LlSIiDA 

(lós esses campos a seis \inlens de Lisboa, e (|uei:i 
vai á Lage são os jarretas, ac|iie]les que (rimenu) 
\eeni jogar o líilhar na Áurea, e que nos mezes de 
\'erão vêem todas as noites as aguas do Tejo ])ate- 
rem o compasso das suas marés nos degraus do 
cães das Columnas. 

Alli do (|ue se falia é essencialmente de politi- 
ca : us enterros ci\is discutem-se muito, e as luctas 
da liberdade, e mesmo a guerra peninsular servem 
muitas \ezes de assumpto a estes sujeitt)s que, j;'i 
no tempo do Tolentino, eram velhos e iam para 
Santa Catharina, inspirar-lhe uma das suas me- 
lhores satyras. A's vezes os vetustos séculos que 
ca\aqueiam alli muito admirados do gaz, são in- 
terrompidos pelas gargalhadas joviaes das pecca- 
doras que, de guitarra na mão e fado nos lábios, 
\-ão com os seus Didiers passear sobre o rio cheio 
de luar, as suas \'ozes desentoadas, roucas, e at. 
suas cantigas sem grammatica nem espirito. 

E o Tejo íica muito contente por alguém se 
importar com elle, e dá-lhes em encanto e em poe- 
sia tudo o que elles lhe dão em semsaboria e em 
banalidade. 

Falta-nos ainda fallar d'outro grémio ao ar li 
\re, do Campo de Sant'Anna. cjue é positivamen 
te a ilha dos amores. Só lhe falta o ser ilha. Cá 
em baixo todos esses passeios tem a sua neve. — 
O Passeio e os Recreios Whittoyne, além do ])ro 
prio botequim, têm a sua grande sor\-eteira central 



A Comedia de Cisboa 

no Martinho — morango e leite. O Terreiro do 
Paço tem o seu Martinho chamado o da Neve, que 
lhes fornece leite e morango. — O Ferrari, no 
meio d"estes dous gelos, iamos dizer fogos, tem a 
neve exquisita, o sorvete de banana, d'ananaz. de 
groseille — a neve elegante por excellencia. O 
Costa e o X'unes fornecem amplos sorvetes ao 
calor dos bairristas occidentaes. O Poço dos Ne- 
gros, a preços reduzidos, dá uns immensos copos 
de neve barata a todos aquelles que preferem em 
tudo a quantidade á qualidade. 

No Campo de Sant'Anna não ha neve. Ha 
apenas agua e essa mesma não ha por onde se- 
beba. 

No jardim, onde ás noites passeiam todos os 
amores discretos e escondidos de Lisboa a sua cal- 
ma, ouve-se o manso susurrar da agua. mas não 
se goza o púcaro de folha com ferrugem. Elles. 
os ternos namorados, vencem heroicamente esso 
obstáculo, escrevendo no seu orçamento a -verba de 
5 reis nocturnos para púcaros de barro. — Uma 
bella industria a exjílorar na localidade. E as- 
sim, sem temerem a sede. vão para ahi conversar 
amores sob as arvores, levando no dedo minimo. 
suspensa pela aza, a indispensável pucarinha. 
Quando os lábios escaldados pelo verbo ardente 
lhes pedem agua, levantam-se, vão bucolicamente 
ao tanque bordado de rochas e matam a sede. A's 
vezes o barro amarga ao paladar delicadíssimo 



A Comedia nt Lisroa 103 

iVella, e então é fácil ouvirem-se diálogos como 
este : 

ElIvA (chegando a pucara aos lábios c afas- 
tando-a logo). — Ai! não posso beber por isto! 
amarga tanto a agua ! 

EivLE {sorrindo c bebendo). — Não gosta? 
Olhe — ix)is eu uma das cousas de que gosto mai>^. 
é de l^eber um copo d 'agua por um púcaro de barro. 



AS CORRIDAS E AS TOURADAS 



As corridas de cavallos em Portugal fazem-nos 
o effeito do g-racioso véo andaluz na cabeça d"uma 
saloia de Bemfica, do papel d'uni fidalgo parisiense 
n.a pessoa d'um actor das Variedades, d'uma can- 
ção franceza nos lábios d'unia discípula do nosso 
conservatório, da ultima palmeira do deserto no 
largo do barão de Quintella. 

E' uma cousa curiosa e profundamente cómica. 

O hippodromo é excellente, o local magnifico, 
o panorama esplendido. 

R' o scenario maravilhoso da grande trilogia de 
Wagner, jiara a comi)anhia da rua dos Condes 
representar n"elle as Intrigas no bairro. 

A direcção do Jockey Clyb faz o C[ue humana- 
mente é possivel para as suas corridas serem boas: 



A Comedia de Lisboa 105 

mas falta-lhc tiulo... desde os corredores até ao 
publico. 

A's vezes o premio é disi)iitado por um só ca- 
\allo. e ainda assim nem sempre é esse o primeiro 
a chegar á meta. Ha tempos chegou primeiro um 
cão que acompanhava o cavallo. 

O pubHco vai mas nã(^ saije ir, e ao principio, 
emquanto pensou que o divertimento era feito pe- 
los cavallos e não feito por elle, ainda foi mais. 

Xo domingo lá o notou assim muito acerta- 
damente, a um cRA-alheiro francez, um titular 
muilo conhecido em Lisboa ])ela sua assetinada 
cabelíeira : 

— «II a peu de gens aujourddiui, mais dans 
le |)remier jour de courses est tombe ici le pou- 
\oir du monde». 

E' textual porque o ouximos. 

Ora o tal pniti^oir (fii inoiuíc nunca lá voltou, 
e não faz falta porque não da\'a animação e diffi- 
cultava a entrada. 

Agora quem lá vai. são os membros do Jockey 
Clul) e as suas familias, os elegantes, os emprega- 
dos públicos, os caixeiros das lojas da baixa e as 
cocottes. 

E' um espectáculo pitoresco, o assistir ao des- 
tilar das famosas equipagens. 

Lá vai o Dogue, com o seu cha^Déo branco, e 
a sua tipóia secular com quatro cavalleiros dentro 
e um na almofada : lá vai a Lola, a Dolores, a 



io6 A Comedia de Lisboa 

Concha, a Consiielo, toda a casta de nomes hespa- 
nhoes femininos, no carro do Pingalho, com a 
sua jaleca de alamares, no conpé do Anão, com 
a sua gra\'ata encarnada, na victoria do Conde: 
n'esses esplendidos carros que correm cem vezes 
por dia a cidade em todas as direcções, puxados 
por duas sombras de ca^•allos que voam pelas cal- 
çadas, deixando-nos maravilhados de cada carro 
não se fazer em migalhas cem vezes em cada 
corrida. 

Depois vai a Ruça e o cão, no «Americano» : 
vai um nocturno puxado a sebo. com o Cambaio 
na almofada, e dentro dous janotas com o seu far- 
del n'um cesto — carne assada e vinho de Torres : 
além três caixeiros estúrdios em cavallos do Ma- 
noel Hespanhol, e depois lá cada um forma o seu 
grupo, f aliando sempre muito baixinho para não 
interromper o espectáculo. Toca a campainha, 
apparecem três ou quatro cavallos que não são 
das suas relações. 

— Vamos a apostar. 

— Cinco tostões pelo castanho. 

Como quem diria, na roleta, meia coroa ao 
preto. 

— Um jantar na Pincha. 

— Meia libra, diz um que vai de luvas ; e to- 
das as cocottes o olham assombradas. 

E o cavallo corre, elles seguem-no palpitantes, 
um perdeu o jantar, outro ganhou 720, e depois, 
meia hora de espera pela outra corrida. 



A Comedia de Lisboa 107 

O sol aperta, e a poeira faz apparecer as nó- 
doas que a benzina escondeu. 

E' a hora dos comes e bebes. 

Então é que é vêr: a espuma das ondas que 
ao long-e se desfazem na torre do Bugio, parece 
reRectir-se como n'um espelho, no vasto recinto 
do hippodromo. E' a cerveja do «Leão» que 
corre a jorros das garrafas pardas, misturando o 
estalido das rolhas com o das gazozas do snr. Mo- 
reira, que, do mesmo modo que no theatro, substi- 
tuem alli o champagne. 

Depois acaba-se o divertimento : trata-se do 
assalto ao ((Americano» e aos omnibus : os cavai- 
los que vêem sahindo do hippodromo embuçados 
nos seus paletots, para se não constiparem, fa- 
zem-se corados ao verem assim correr o povo 
para os char-á-bancs. 

E lá vem tudo para Lisboa, encamado dentro 
dos carros, a dar tratos á memoria para se recor- 
dar que demónio teria sido o divertimento. 

E este mesmo publico, que no hippodromo está 
calado que nem um rato, quando não chia, é o 
mesmo c|ue faz aqucllâ grande bulha nas igrejas, 
pela Semana Santa, o que interrompe em S. Car- 
los todas as o]'cras com a sua animação toda me- 
ridional, o que deita abaixo a praça do Campo de 
Sant'Anna, com a sua gritaria em tardes de 
touros. 

E' que este é que é o seu divertimento. 



loS A Cu.MKDIA DK LlSIlOA 

Nas corridas está como que n'uma visita de 
ceremonia, nas touradas está — em sua casa. — 
Não é muito Ijoa casa; mas em summa é onde elle 
se diverte á farta. 

— O' Botas, anda-me com ellc ! 

— Toca a musica, mandriões ! 

• — Salta á praça que o bicho não morde ! 

■Estas graçolas assadas pelo sol d'uma tarde to- 
da de verão,, são o seu gozo predilecto. Isto nas 
touradas ordinárias, n'aquellas onde não ha preoc- 
cupações sérias, onde o espirito está desassombra- 
do e o coração á larga. 

Agora nas touradas de fidalgos, — as touradas 
de curiosos — o prazer então é differente, é o 
prazer do perigo que se aproximaj que passa, que 
se vence, que se torna a aproximar, sempre a gen- 
te com o credo na bocca, sempre elles, os curio- 
sos, com o sorriso nos lábios.- 

Effectivamente é a única parte onde os curio- 
sos se i>ódem vèr. No theatro adomiecem-nos, 
nos concertos enfastiain-nos, na litteraturá irrí- 
tam-nos, nas touradas enthusias.mam-nos. 

Só com elles é que nas touradas ha as grandes 
commoções. 

. ' Francamente, o que nos pôde interessar a nós 
a vida d'esses sujeitos, que nunca vinios, que vão 
ás tardes alli arriscal-a por cinco ou dez tostões? 
Elles que a avaliam em tão pouco, não teem di- 
reito a. exigir que nós a apreciemos mais do que 
elles. 



A Comedia de Lisboa loo 

A tourada passa a ser unia lucta \ulí^ar (Tuni 
animal (jue \ai alli porque o le\'am, e cruni ho- 
nieni (|ue \ ai alli porque lhe pagam. O espectador 
])aga a ambos i)ara o divertirem : e deixa a sua 
sensibilidade em casa, muito bem acondicionada, 
para se não estragar, ou se a le\a ])ara a trinchei- 
ra tem de a empregar pnvd o 1)()i (|ue é (|uem \'ai 
alli desinteressadamente. 

O homem \ai ])(M'(iue ([uer, porcpie faz (Taquil- 
lo a sua profissão, e seria realmente um disparate 
nós estarmos a enternecer-nos todos os dias, a 
prejudicar a nossa saúde, a cançar o nosso espi- 
rito, com fortissimas comiuoções e continuados 
sustos. ])€la vida de quem entendeu (|ue o melhor 
meio de a ganhar era trabalhando i)ara a perder. 
. A hão ser assim, nós teríamos o direito de pro- 
liibir as touradas. Os senhores totu"eiros enten- 
dem, e entendem muito bem, que podem dispor 
da sua vida como lhes aprouver. D'accordo. o 
nós \'amos lá e não nos importamos nada com a 
sua vida. importamo-nos com a vida do touro, que 
sabemos |>erfeitamente que não deu procuração 
ao lavrador para dispor da sua. Se elle viesse 
das lezírias, por ahi abaixo multo por sua livre 
vontade, se chegasse ao pé do snr. Victorino Mar 
quês e lhe dissesse: «Tenho desejos d'ir amanhã, 
á praço do Campo de Sant'A'nna. jogar a pan^ 
cada com o snr. fulano de tal. o meu cachaço está 
a pedir, farpas....» então sim; no dia irnmediato 



A Comedia de Lisboa 

nós nas trincheiras seriamos perfeitamente im- 
parciaes, porque ambos os gladiadores iam alli 
exercer uma das mais sagradas faculdades da 
alma do homem e do boi — a vontade. Mas em- 
quanto assim não fôr, seremos sempre pelo boi, 
e repetimos, se fôssemos pelo homem, prohibiria- 
mos as touradas, porque se é verdade que cada 
um tem o direito de dispor da sua vida, não é me- 
nos verdade que esse direito cessa em offendendo 
a lei do justo, e que se um sujeito pôde matar-se 
á sua vontade, o que não pôde é matar-nos a nôs 
com re]>etidas commoçÕes. 

Desde o momento, porém, que em vez do tou- 
reiro nos apparece o curioso, a questão muda in- 
teiramente de phase. Quem o leva lá não é o seu 
interesse, é o interesse dos outros, é a vontade 
subjugada por essa força superior, que se chama 
heroicidade, temeridade, ou loucura. Elles não 
vão alli expor a vida por uma paga qualquer, vão 
porque o seu intrépido animo varonil os impelle 
para as grandes commoçÕes. porque a sua audaz 
coragem os chama para a lucta perigosa, onde a 
vida se joga a cada momento a troco d'uma ova- 
ção — (^ue c para elles ; d'uma esmola — que c para 
os pobres. E nôs. quando vemos na praça esses 
syrnpathicos rapazes, a quem falíamos cá fora. 
(]ue \êmos todos os dias no Chiado, avançarem 
sorrindo para o touro, que jxSde trazer nos seus 
baços cornos a néi^ra morte, olhando serenos para 



A Comedia de Lishoa 

OS camarotes onde a mãi, as irmãs, ou as noivas, 
os miram anciosas com o coração a palpitar de 
susto e logo depois de enthusiasmo, não podemos 
prohibir a commoção de nos envolver o cérebro 
como uma doce embriaguez, não podemos dizer 
ao coração que não pulse mais apressado, não 
podemos furtar-nos ao enthusiasmo, quando os 
vemos cheios de mocidade, de elegância e de de- 
nodo, cahir galhardamente sobre a cabeça do fe- 
roz touro, que parece curvar-se reverente ante 
elles. como em homenagem a tanta valentia, e a 
tanta intrepidez. 

K' cousa singular, este espectáculo das toura- 
das, um espectáculo sangi"fento e cruel quando 
n'elle entram os artistas, torna-se um espectáculo 
de gala e de festa quando entram os curiosos — 
os fidalgos. A praça raras vezes sente molhal-a 
o sangue. 

Os touros parecem comprehender que aquillo 
não é uma tarefa, é uma festa, e portam-se com 
toda a sua delicadeza de feras, e fazem muitas 
vezes do espectáculo mais repugnante da penín- 
sula, apesar de mais animado, o mais brilhante e 
v;omniovente, apesar de menos civilisador. 

Muitas vezes, quasi sempre, i valentia e te- 
meridade do? toureiros curiosos, p5em-"e -io ser- 
aíço das mais santas causas. 

A caridade sorri ao arrojo juvenil que lhe ati- 
la para o regaço sacrosanto com o óbulo opiAlcnto 
conquistado a risco da própria vida. 



A Comedia de Lisboa 

Hoje, esse espectáculo esplendido, brilhante 
por si. santo pelo seu fim, vai levar uma esniQla 
l:)emdita ás desgraçadas populações do Brazil que 
agonisam nos horrores da fome. 

Não é um divertimento inútil á tourada d'hoie 
no Campo de vSant'Anna, é uma obra de caridade 
O nosso folhetim d"hoje não é um folhetim, c 
um reclamo. Não temos para o acabar a anecdota 
que faz sorrir, temos a prece que, ouvida, fará 
enxugar muitas lagrimas : 

UMA ESMOLA PARA OS FAMINTOS DO CEARÁ. 



os MORTOS ILLUSTRES 



X'este mundo ha só uma cousa peor do que 
ser morto, é o ser morto illustre. 

• Ouajido ás vezes vejo ir para o cemitério, 
n"nma modesta traíjuilana cheia de symbolos ama- 
rellos e pagãos, um morto ignorado que desce 
tranquillamente á sua cova. não tendo a agravar- 
lhe o latim dos padres, os (hscursos das socieda- 
des patrióticas, e levando ainda a humedecer-lhe 
os lábios para sempre mudos, as lagrimas arden- 
tes que. como o orvalho da manhã marca sobre 
os pallidos lírios a sua passagem rápida, marcam 
n'aquelle rosto, -que vai começar a ser caveira, a 
passagem do ultimo beijo de ternura ; penso sem- 
l)re na grande felicidade d'aquella creatura.que 
pode mr»rrer descançada «o seu leito, rodeada de 



114 A Comedia de Lisboa 

affectos sinceros e de amizades dedicadas, e que, 
n'essa hora suprema em que o espirito, presen- 
tindo terminado o seu papel n'este mundo, desen- 
tranha todos os seus thesouros de ternura, de 
grandeza, e de sinceridade, preferindo legal-os ao 
coração amante d'uma esposa ou ao respeito pro- 
fundissimo d'uns filhos, em vez de encerral-os 
n'um estreito caixão de chumbo, pôde dizer esses 
segredos últimos, sagradamente Íntimos, sem que 
entre os seus lábios que se fecham, e os ouvidos 
attentos dos amigos que por muito tempo o es- 
cutam ainda depois d'elle fallar, esteja o ouvido 
perfeitamente mecânico do repórter e por detraz 
d'esse ouvido a multidão indifferente, aborrecida, 
enfastiada, á espera de noticias baratas que lhe 
distraiam a hora do almoço. 

Esses são os felizes, desapparecem como essas 
pequeninas estrellas que enchem o céo aos milha- 
res e que se apagam sem que ninguém de pela sua 
falta. Só n'elles faliam os poucos que viviam h 
sua dcbil luz. Sahem da vida como entraram 
n'ella, sem ninguém reparar n'elles, como uns 
comparsas de theatro. Occupam sete palmos de- 
baixo da terra, occupam sete metros em cima, é 
a única differença! Vivem e morrem na sombra, 
na vida tiveram sorrisos, não tiveram triuniphos, 
na morte tèem lagrimas, não têem noticias. 

Quando se retiram deixam só atraz de si o 
luto, não deixam artigo? de sensação, 



A Comedia de Lisboa 115 

Os outros, os illnstres, são grandes planetas, 
astros cuja vida se passa sempre sob o olhar cu- 
rioso do telescópio, cujo desapparecimento inspira 
graves observações, e extensos artigos. 

Esses não são cadáveres, são assumptos. 

A sua vida tem sido uma constante noticia, a 
sua morte é um artigo de fundo. 

N'essas mortes illustres quem menos figura é 
o morto : — os enterros celebres são as apotheo- 
ses dos vivos. 

Os obscuros, os huinildes, os desconhecidos 
descem á cova, sem noticias, sem discursos, sem 
rhetorica, só levam comsigo as saudades, as la- 
grimas, a alegria, d'aquelles que lhes queriam. 

Os illustres, por uma lagrima que levam, dei- 
xam mil vaidades, que se ostentam, a sua morte c 
uma vacatura, o seu enterro uni espectáculo, o 
seu elogio um reclamo, a sua cova um berço de 
ambições, que entrelaçando-se com as phrases ora- 
tórias, forma sobre o seu esquife uma coroa, onde 
em vez da ternura escrever «saudade», o egoismo 
humano escreve «orgulho». 

A's vezes esses cadáveres hirtos, têem, nas 
mãos profanas das paixões ardentes, ondulações 
phantasticas de estandartes revolucionários, e as 
descargas que fazem as honras fúnebres ao corpo 
inanimado de Lamarque, são a fusilaria das bar- 
ricadas. 

Outros são disputados ás bicadas pelos corvos 



ii6 A Comedia de Lisboa 

sinistros dos partidos militantes, e, no meio d'essa 
lucta encarniçada á sombra lúgubre dos verdes 
cyprestes, vem de vez em quando um salpico de 
lama que emerge de um charco immundo, o- Pays 
ou o Univers, e, n'esse escarro ignóbil, a huma- 
nidade enojada lê uns nomes fadados para o lodn- 
çal, Cassagnac ou Veuillot. 

Esses grandes homens que na vida foram um 
astro luminoso, que as multidões seguiam fasci- 
nadas, como os soldados do velho império se- 
guiam as estrellas brilhantes que fulgiam nas es- 
poras d'ouro de Napoleão, o Grande, passam en- 
tão a ser simples lanternas com que os Diogenes- 
Paturot procuram, não um homem, mas sim uma 
posição social. 

Xem a morte é livre a esses heróicos luctado- 
res. Alguns jornaes francezes accusaram a Thiers 
de se ter deixado morrer, quando a França mais 
]M-ecisava d'elle. Quando agonisam, a casa enche- 
se-lhes, não de amigos, d'informadores. — O que 
alli os leva não é o interesse da amizade, é a fe- 
bre da noticia. Os grandes olhos da imprensa eu- 
ropêa, seguem palpitantes as suas doenças para fa- 
zer boletins interessantes a tanto a linha. — A 
sua enfermidade não é para elles um cuidado, é 
uma no\-a secção. As suas palavras derradeiras, 
não as recolhem religiosamente a amizade, a vene- 
ração, recolhe-as o mercantilismo. — Todos que- 
rem vêr o grande homem moribundo, não é para 



A Comedia de Lisboa 117 

ij;iiar(lar na memoria os ultiiiKJs traços da agonia 
d'um heroe que morre, é para dar á lithographia 
a estampa palpitante qne se vende aos mi- 
lhares. 

Ao passo que a doença vai continuando o seu 
implacável caminho, os agentes das pompas fune- 
l)res pregam as tahoas do caixão de carvalho, os 
cangalheiros litterarios soldam as ph rases sonoras 
da sua necrologia. 

Quando elle morre, os coveiros ])egam na en- 
xada, os reporteis largam a penna com que já 
lhe tem aberto essa grande cova fatal, nos seus 
noticiários — o elogio fúnebre. 

O rosto do morto é analysado com toda a ob- 
servação profunda crum anatomista. [)ara figurar 
nos faits divers. 

Os esculptores vem encher-lhe a cara de ges- 
so, antes que o coveiro a encha de cal. Ambos 
exercem a sua profissão : este evita as exhalaçÕes 
mephiticas, aquelle arranja os bustos caros. 

Depois vem o enterro. K' um acto de luxo, 
uma occasião de festa. Todos (|uerem prestar uma 
homenagem ao grande homem, comtanto que os 
nomes venham nos jornaes e que a conducção seja 
barata e commoda. 

Se os padres desafinam no Libera me, se os ir- 
mãos do Santissimo não levam macassar no ca- 
bello e luvas pretas nas mãos, se o velludo do 
pano fúnebre é de algodão em vez de ser de seda. 



A Comedia de Lisboa 

ha protestos enérgicos, artigos furibundos, indi- 
gnações solemnes, pomposos reclamos pessoaes. 

E' necessário que tudo seja luxuoso, senão 
para que os incommodaram por tal bagatella? 
Que importa que o morto valha muito se o en- 
terro vale pouco? Acima da biographia do finado 
ha uma cousa, — a conta do armador. Aquillo 
não é uma homenagem ao fallecido, é uma festa 
para os vivos. 

Venha a festa, o luxo, a elegância, o confor- 
tável, que elles lá vão levar-lhe o seu respeito e 
os seus adjectivos. 

A viuva chora. Quantas lagrimas? Que é 
para se porem nos jornaes. Está de luto? quanto 
custou o vestido? venha a conta da modista. E 
tudo vai assim; o morto desapparece ante os vi- 
vos, as perpetuas da coroa para aquelle, devem 
transformar-se em louros para estes ; o elogio fú- 
nebre não é para cantar as virtudes do morto, que 
dorme, é para mostrar de quantas imagens bri- 
lhantes dis^DÕe a eloquência do vivo que falia. 

Em quanto o bicho das covas róe o cadáver, a 
noticia dos jornaes digere até á ultima linha tudo 
o que ha a respeito do morto. Aquelles tem as 
suas compridas azas transparentes, estes as suas 
pennas bem afiadas. E' um duello a quem' mais 
depressa ha-de acabar com o morto. E ainda 
aquelles não principiaram o seu lúgubre trabalho, 
já estes em phrases altinosantes e em lagrimas d-' 



A Comedia de Lisboa i ig 

actor passeiam a sua rhetorica devoradora sobre 
o cada\-cr ainda quente. 

Xão lia nada mais desconsolador (|ue uma mor- 
te illustre. l{' o reverso ne^ro da resplandecente 
medalha da celebridade, e ainda niíd o homem ce- 
lebre não tem exhalado o ultimo suspiro, apenas 
essa funebi"e criada a (|ue os antii^os chama\'a!u 
Parca lhe desj)e o domin»') c(»m (|ue andaram intri- 
í^ando uns aos outros n"esse i^rande baile de mas- 
caras (|ue se chama o mundo, e os deita, como a 
mãi aconchega os filhos, n"esse immenso leito — ■ 
a natureza — ha uma cousa peor ainda (|ue a terra 
(|ue deitam em cima do cadáver, (jue a cal que lhe 
come os olhos, rpie os \-ermes grotescos que en- 
gordam na sua podridão, é essa cousa monstruosa, 
fatal, imi)]aca\"el, f|ue os ameaça na vida. rpie os 
despedaça na morte — o nECRoIvOGio. 



IO 



A POLICIA 



Brame furiosa a indignação pelas ruas de Lis- 
boa. Andam no ar facadas e adjectivos. Respira- 
se um ambiente de tragedia ; — cheira a sangue e 
a rhetorica. 

Em quanto das feridas, abertas pela navalha 
mysteriosa do assassino, corre o sangue a borbo- 
tões, do tinteiro dos vingadores jorram objurgato- 
rias violentas á policia, como se a policia tivesse 
alguma cousa com isso. 

Todos a insultam, todos a aggridem, todos lhe 
peílem contas dos relógios que se furtam, das fa- 
cadas que se dão, das infâmias que se commet- 
tcm. dos abusos que se praticam, como se a policia 
ti\esse por missão andar a guardar as algibeiras e 
os ventres dos cidadãos, arriscando a sua pelle, 



A Comedia de Lisboa 121 

incomnioclando a sua digestão, obrigando o seu 
cérebro a pensar, as suas mãos a agarrar, as suas 
pernas a correr! 

E' forte abuso este uso em que se está de, por 
({ualquer crime que se pratica, por qualquer crimi- 
noso que se não descobre, accusar logo a policia! 

Como ha-de a policia descobrir os criminosos 
se elles não se vão lá apresentar? Andar atraz 
d'elles? ir procural-os a casa? Isso era despres- 
tigiar-se a authoridade, era descer da sua alta 
posição, andar agora como um cão perdigueiro a 
seguir o rasto dos assassinos, a bater-lhes ás por- 
tas, a vêr se os encontra, a emboscar-se para os 
apanhar, como se se tratasse de uma i>essoa de 
bem. 

Francamente, incommoda-nos de uma maneira 
atroz a injustiça flagrante com que a toda a hora 
se accusa essa boa policia, que não faz mal a nin- 
guém, e que, tendo á cinta uma espada, passa 
muitos e muitos dias sem a tirar da bainha para 
ferir em legitima defeza os bêbedos que estão 
desarmados. 

E' por isso que hoje. não nos importando ir de 
encontro á opinião publica, arrostando com a im- 
popularidade, vamos, um contra todos, com toda 
a energia que dá a convicção, com toda a placi- 
dez das grandes causas santas, defender o fraco 
contra o forte, e o accusado contra o accusador, 

a POLICIA CONTRA O PUBUCO, 



A Comedia de Lisboa 

Em primeiro lugar come(;amos por lançar o 
epitheto de cobardes a todos aqnelles que accusam 
a policia. Nunca se insultam os ausentes, meus 
senhores, e a policia de Lisboa sempre o está. E, 
quando o não está. dorme, e o somno da policia 
dcA-e-nos ser tão sagrado como o somno dos 
mortos. 

Mas não querendo ^•a]i(lar este argumento, 
que só por si punha termo ás suas invecti\'as in- 
justas. le\'amos a nossa generosidade até acei- 
tar a questão nos termos em que a põem ; admit 
tindo o absurdo de que a policia foi feita para 
policiar. 

Durante o longo espaço d'um anno apparece- 
ram mortas em suas casas quatro mulheres — sf) 
quatro ! — e a policia nunca descobriu os assas- 
sinos. 

E' esta a pedra d'escandalo. 

Vamos a analysal-a por miúdos. O que fez a 
píjlicia, quando soube da morte d'essas mulheres? 
Ficou de braços cruzados ? Não, senhor. A po- 
licia conhece perfeitamente todos os grandes cri- 
minosos que ha em Lisboa, sabe-lhes os nomes, as 
tabernas onde param, o vinho que bebem, quantas 
navalhas trazem na algibeira. f|uantas mortes tra- 
zem ás costas, quantos nomes usam, etc, e até por 
signal, em dias de paradas, de festejos nacionaes, 
de procissões celebres, prende-os por vinte e qua- 
tro horas para não roubarem de mais. 



A Comedia de Lisboa 123 

A policia trata-os com uma solicitude deveras 
maternal. Deixa roubar, coitados! mas não muito. 
Xi)s (lias em que tinham mais cpe roubar, para 
lhes não deixar ter uma indigestão de relógios e 
de l)olsas. ou uma desordem grave, que obrigasse 
os tribunaes a mandal-os pela barra fora, fecha-os 
no Limoeiro até ao dia seguinte. 

Lá de vez em quando, podem dar a sua faca- 
da. E' bem entendido, uma distraçãosinha de 
tempos a tempos ; mas facadas ás escondidas e 
(lue os não compromettam como succederia nos 
dias em que anda toda a gente pela rua. Elles são 
gratos á policia e dão-se perfeitamente com ella. 
Alguns até na véspera d'esses dias vão-se-lhe en- 
tregar dizendo-lhe : «Faz favor, prende-me até 
depois d'ámanhã, que é para eu não fazer por ahi 
alguma morte ou algum roubo?» A policia pren- 
de-os carinhosamente e passadas 24 horas abre- 
Ihes solicita a porta da gaiola. 

Ora quando se dá um crime mysterioso, a po- 
licia sabe muito l)em o f|ue ha-de fazer. Lança a 
mão logo a todos os criminosos das suas relações 
e pergunta-lhes o seguinte : 

— Foste tu que mataste agora aquella mulher 
na rua dos Vinagres? 

— Não, senhor, responde elle. 

— Mas tu estás sujo de sangue ! Deixa lá vêr 
a navalha ! 

O outro mostra a navalha. 



124 A Comedia de Lisboa 

— E a navalha também está suja! 

— Isto foi cá outro negocio, responde o cri- 
minoso. 

— Ah! foi outro? Não foi o da rua do Passa- 
diço? Vê lá! 

— Não foi. 

— Dás a tua palavra de honra ? 

— Dou a minha palavra de honra. 

— Juras pela tua salvação eterna ? 

— Juro. 

— Então vai-te embora. 

E depois vai a outro, a outro, a outro. Prende 
aquelles que sabe que eram capazes de fazer a 
morte, pergunta-lhes com toda a franqueza se fo- 
ram elles, elles dizem que não, o que ha-de ella 
fazer? 

Corre a roda e como nenhum se apresenta, vol- 
ta para casa, porque tem de tratar das multas. 

Também isto não é só prender os assassinos, 
ha também as posturas municipaes que dão muito 
trabalho. 

E depois a policia sabe muito bem quem com- 
mette esses crimes mysteriosos, não é este nem 
aquelle — é a navalha. 

E a policia tem pela navalha um respeito re- 
ligioso e tem razão. 

A navalha não é uma arma traiçoeira como 
por ahi lhe chamam nos noticiários, é uma syn- 
these litteraria. A navalha é a ultima palavra do 
romantismo em Portugal. 



A Comedia de Lisboa 125 

E a policia é romântica. E' como Ponson du 
Terrail. — Tem iim certo orgulho nas situações 
complicadas que deixa envoltas nas sombras du 
mysterio para intrigar o leitor. 

As partes de policia parecem capítulos de Ro- 
cambole, e isto lisonjeia-os muito. Tem o seu 
amor próprio de romancistas de sensação. 

Esta mão mysteriosa que espalha a morte pe- 
los bairros sujos de Lisboa, como o Destino nas 
velhas tragedias clássicas, é um effeito dramático 
que denota um talento possante, uma grande arte, 
um extraordinário savoir fairc. D'Ennery, Du- 
cange. Bourgeois, Barrière e até o velho Dumas 
dar-se-hiam j3or muito satisfeitos com elle. 

E quem o fez? Foi a policia. Se atraz da as- 
sassinada se visse o assassino, onde estava o inte- 
resse da situação? Era uma trivialidade. Agora 
esta navalha que se agita, manejada por mão oc- 
culta, tem o seu quê de fatal, de imponente, de 
lúgubre, que nos transporta áquellas altas regiões 
trágicas em que vivem os heroes de Hugo e de 
Shakespeare. 

E o publico em vez de ap])lau(lir pateia. reiíf)- 
vando a eterna historia da ignorância a apedrejar 
o génio. 

Que im]V)rta á policia (|ue o assassino fô.sse n 
snr. fulano, ou o siir. sicrano? O assassino é a 
navalha, é o fadista e ella adora c< fadista, e nós 
achamos-lhe toda a razão. 



120 A. Comedia de Lisboa 

O fadista é no nosso Bairro Alto nnico e ul- 
tMiK) descendente dos valentes cavalleiros da meia 
idade, dos fidalgos cavalheirosos e galantes dos 
grandes séculos, dos amantes apaixonados e guer- 
reiros, pallidos e fataes do velho romantismo. O 
fa(l'sta é o antídoto do realismo, o ultimo reducto 
da poesia cavalheiresca e das paixões trágicas. — 
Em vez de escudo tem a cinta, em vez de gladio a 
navalha. 

A nossa sociedade, a nossa e todas, está insí- 
pida, positi^'a, egoista e interesseira. Os grandes 
amores legendários já não a agitam, domina-a só 
o calculo, o interesse, o bem-estar. Não têem dra- 
mas, têem f arcas.: não têem punhaes. têem apitos. 

Hsses ódios implacáveis Cjue faziam o encanto 
dos romances de 1830, e o jjerigo permanente dos 
a^•entureir()s galantes, foram siibstituidos por uma 
cousa a que chamam a honra exterior. Hoje, em 
todas as sociedades cultas, cjuem se bate não é por 
si, é pelos outros. E" mais perigoso um adjecti\'0 
(jue um ultraje. Já não ha ódios, ha pose. 

Os ()dios não se expandem em luvas atiradas, 
nem em golpes bem vibrados, saciam-se em por- 
tarias e em artigos de fundo. 

X^ão é caAalheiresco. não é romântico, não é 
poético; mas é racional. Por um sujeito que nos 
incommoda. não se deixa a gente matar, nem se 
arrisca a cuni])rir degredo. Espera-se a occasião 
e assassina-se moralmente, ao voltar d'uma pagina 



A Comedia de Lisboa 127 

de jornal, ou n"iima encruzilhada de bons ditos. 
A \inganca da Clotilde de Sardou, matou a vin- 
i4"an(;a da amante que Pomerol defendeu na Cór- 
sega. 

O romance e a epopêa fugiram dos nossos cos- 
tumes, refugiaram-se no Bairro Alto. 

Afiuellas portas escuras e insalubres, que pa- 
recem mais portas de sentinas (jue portas de in- 
fernos, com as suas cortinas cheias de nódoas e os 
seus cheiros nauseabundos, são o theatro dos úni- 
cos dramas pungentes e colossaes, que se agitam 
em Lisboa. 

São uns dramas estranhos, esses dramas. As 
heroinas são múmias cortidas em aguardente or- 
dinária. 

Em redor crellas debatem-se, com todo o en- 
thusiasmo das grandes paixões ideaes, as estro- 
phes grotescas dos ]X)emas da carne, marcadas 
com facadas. 

K' um mundo ])erfeitamente á parte, um mun- 
do (jue tem gomma nas saias sujas, incenso nas 
enxergas duras, na\alhas nas cintas, vinho do 
Termo nos lábios, ])odridão nos beijos, assassínios 
nos abraços. 

Como aquelles fidalgos galantes dos tempos 
das .Marions, que ultimavam n'um momento as 
suas pendências, e epilogavam os seus ciúmes com 
uma estocada, os D. Juans d'essas Vénus do char- 
co tem sempre, na ponta da navalha, a ultima pa- 
lavra do seu romance. 



128 A Comedia de Lisboa 

Elles têem o desprezo sublime dos selvagens 
pela morte, a indifferença dos ignorantes pela pri- 
são. Não trocam phrases violentas, nem bilhetes 
de visita lustrosos feitos na Minerva, trocam fa- 
cadas como se fossem apertos de mão. 

A policia faz bem em adoral-os. São peças 
litterarias que não se encontram n'outras classes 
sociaes. 

Se não fossem elles, quem havia de tornar in- 
teressantes, pungentes, dramáticas as partes de 
policia ? 

E atiram-lhe pedras por ella os não prender, 
por não transformar o terçado em espada de ex- 
termínio ! 

Bem haja ella que os trata com todo o carinho, 
que foge d"elles quando estão juntos, para não ter 
incommodos, e que só os procura depois d'elles 
fugirem, para não os incommodar! 

Mas entretanto, nós que a comprehendemos e 
que a amamos, e não queremos vêl-a assim indis- 
})osta com aquelles que, apesar de não estarem á 
altura de avaliar os serviços que ella presta d'este 
modo á litteratura pátria, lh'os pagam, damos-lhe 
um conselho para harmonisar tudo e para tapar r. 
bocca aos descontentes. Não ande, escreva. Não 
procure os criminosos, mas annuncie-se ainda mais 
para saberem onde está, e publique editaes assim, 
para tirar de cima dos seus frágeis hombros toda 
a responsabilidade: «Pede-se a todos os crimino- 



A Comedia de Lisboa 129 

SOS que, logo que conimettam um crime, venham 
ao commissariado de policia declarar que crime 
foi e em que circnmstancias, para lhes ser dada a 
punição devida». 

Mais abaixo : 

«Pede-se ás pessoas que usem de armas prohi- 
hidas, que, antes de fazerem uso d'ellas, as ve- 
nham depor n'este commissariado para serem 
competentemente multadas e autoadas» ; por fim : 

«Roga-se aos snrs. assassinos o obsequio de 
comparecerem n'esta repartição logo depois de 
comniettido qualquer assassinato, afim de recebe- 
rem a competente guia para serem admittidos no 
Limoeiro». 

Tomadas estas medidas, se os criminosos não 
apparecerem, é porque de todo não querem, e a 
policia pôde lavar d'ahi as suas mãos. 



os MORTOS 



O (lia de hoje é uma triste imagem da vida. 

Amanhece contente e risonho como um bah\ 
i|uando faz annos. 

A Igreja põe a sua foilcffe de festa, enche de 
flores os seus altares, de incenso as suas imagens, 
de sonoros cantos alegres os echos dos seus tem- 
jjlos : — é dia de grande gala no céo. O órgão ge- 
me musicas jubilosas com a sua grande voz do- 
lente que mesmo quando sorri parece um trovão a 
dizer segredos de amor. Os sinos fazem cabriolas 
de palhaços nas suas altas guaritas de pedra, en- 
surdecem os astros com as suas canções joviaes 
gritadas em notas metallicas e estridentes. 

Xas chaminés burguezas fumegam os assados 
bem cheirosos, sussurram promessas as costelletas 



A Cu.MKDiA DK Lisboa 131 

na grelha ; os vinhos do Porto têeni scintillações 
douradas dentro das garrafas de erystal ; os guar- 
ilanapos a])reni-se como caudas de i)a\-Ões peque- 
nos nos pratos da Vista Aleore ; a familia reune- 
se ])atriarchalniente em redor da niesa posta com 
symetria ; a canella desenha figuras caprichosas 
sobre a tela amarellenta do arroz doce; os sorri- 
sos ])en(hn'am-se nos lábios entreabertos: a bo- 
nhomia ])asseia por todos os rostos, as azeitonas 
parecem bóias lili[)utianas n'um pequeno oceano 
de vinagre, as passas espreguiçam-se pelos pratos 
de sobremesa, as nozes tem estalidos alegres, os 
copos despejam-se e tintilam chocando-se em mo- 
vimento contínuo ; as saúdes que sahem dos lábios 
encontram-se com o Porto que entra ; ha o ex- 
pansi\'o l)em-estar da familia ; o contentamento ho- 
nesto e Ijom do lar ; os estômagos estão cheios de 
manjares sadios e fortes; as consciências cheias 
de tranquillidade descuidosa e suave ; é o dia de 
Todos os Santos — um dos dias em que Lisboa, se 
não despe o vestido Benoiton, pÕe por cima d'elle 
o capote nacional. 

Mas, como nas cêas dos Borgias e na vida 
real, os cantos festi\"os que saudaram o sol ao 
erguer-se no horisonte, e a terrina da sopa ao des- 
pontar na mesa, são depressa cortados por uma 
nota triste, plangente, trágica, como as ronianzas 
de Mafio no banquete de Negroni. E' o mesmo 
Dies ircB terrível que alli troveja na bocca dos 



132 A Comedia de Lisboa 

coristas quando o snr. Reduzzi não hcbe, e que ap- 
parece aqui fatal e implacável, no tanger lúgubre 
(los sinos, quando o sol se apaga no céo, e os can- 
dieiros se accendem na terra. 

Os santos gloriosos que au gr and complet se 
nos apresentam n'esse dia na folhinha, cercados 
da sua aureola beatifica, escondem-se pouco a 
]X)uco, silenciosos e tristes como collegiaes, reco- 
lhendo ao dormitório á voz sinistra d'esse sino que 
parece, pela sua pesada lingua de bronze, fallar 
em nome de todos os mortos que esperam por nós 
na cova, ás reminiscências dolorosas de todos os 
vivos que os choram a elles no mundo. 

E' o seu dia, coitados ! é o dia em que elles se 
impõem fatalmente a todas as recordações, em que 
se vingam dos esquecimentos, dos perjúrios, da 
indifferença. 

Durante todo o anno, dormem nas trevas in- 
defezos, sem poderem luctar com os vivos, que os 
vencem e que os fazem esquecer. Aos sorrisos de 
amor que arrancam as suas imagens d'um cora- 
ção querido, só |X)dem responder com o seu sorriso 
imbecil de caveira. 

D'antes vingavam-se das traições, luctavam 
com os rivaes, amavam e eram amados, tinham 
sympathias e ódios, podiam ferir com um sarcas- 
mo, conquistar com um sorriso, vencer com um 
beijo. 

E agora quem quer os vossos beijos, caveiras? 



A Comedia de Ltsboa 133 

(|ucni se importa com os vossos sorrisos, esquele- 
tos? quem faz caso dos vossos sarcasmos, covas? 

Os teus beijos, Julieta! vai dál-os a Romeu, 
que ainda hontem dormia nos teus braços amo- 
rosos, e que respirava anhelante o teu hálito, que 
era um perfume, e que hoje foge de teus lábios 
escancarados pela morte, do teu seio onde encon- 
trava o amor — a flor da mocidade, onde hoje 
nasce o es(|uecimento — a flor da i^x)dridão ! 

K' n'este dia higul)re em (|ue os theatros se fe- 
cham, e (jue as velhas saudades se abrem, que os 
])()bres mortos resurgem das suas covas e vêem 
viver minutos com aquelles que os amaram. 

Um dia entre 365 ! Não é um grande corte 
nos nossos prazeres mundanos, não ficamos po- 
bres de riso. nem elles ficam ricos de lagrimas. 

Choremos sobre elles, vivamos uns minutos na 
sua companhia que era tão alegre, tiremol-os do 
seu isolamento que é tão triste. 

Vinguemol-os d'essa idiota invencivel, d'essa 
imbecil triumphadora, que anda por ahi toda orgu- 
lhosa do seu poder a apagar sorrisos e a plantar 
cadáveres, ao acaso, sem saber quem mata, sem 
saber quem ha-de matar. 

j\íostrenios-lhe que somos tão fortes como ella. 
— Ella mata, nós resuscitamos ; ella tem a fouce, 
nós temos a memoria, e se ella precisa de 48 ho- 
ras para decomi^ôr um corpo, d'um mez para des- 
pir um esqueleto, a nós basta-nos apenas um se- 



134' A Comedia de Lisboa 

gnndo para. com as opulentas galas da nossa re- 
miniscência n1;errima. arrancarmos nm morto da 
co\a. e \estil-o com o sen invólucro mundano 
para vi\-er comnosco no grande mundo dos 
espíritos. 

Ha uma s<'' cousa que vence a morte — a sau- 
dade. 

E' ella (|ue enluta amanhã todas as almas, c 
ella (jue nos guia. melancolicamente, hoje a penna. 
])ara estes assumptos lúgubres, mas ao mesmo 
tempo cheios de encanto e de suavidade como 
estes curtos dias de outono que vão enxotando as 
aves e despindo os bosques com os seus beijos 
demi^rados e dulcissimos de estação que adivinha 
a morte. 

Foi l)em escolhido para tempo dos mortos o 
outono, o outono que enche a terra de folhas 
seccas. e que deixa ao inverno terrivel as arvores 
em esqueleto. 

Este anuo os seus primeiros sopros arremes- 
saram ao regaço da morte mais uma rosa! á cova 
mais um cadáver! — uma flor que vai desabrochar 
em goivos na terra, fria e farta de carne humani. 
que se desentranha em mausoléos ricos e em cru- 
zes pobres, no occidente da cidade. 

Como é um dia de reminiscências tristes, po- 
demos ir colher essa saudade ao cemitério. 

E' a historia triste d'uns 15 annos ; uma trage- 
dia pungente de lagrimas, trivial e medonha, que 



A Comedia de Lisboa 135 

se passou n'uma pequena loja — mais pequena que 
muitos mausoléos — uns 7 palmos sobre a terra 
que foram morada d'uma formosa criança, que 
bem cedo os trocou por 7 palmos debaixo d'ella. 

Não foi um acontecimento notável em Lisboa. 
Os fundos não desceram, não brilharam á luz do 
sol commendas, não se fizeram discursos, não vie- 
ram relações de nomes nos jornaes. 

Foi a morte d'uma pobre estanqueira : uma ra- 
pariguinha de 15 annos que só tinha uma riqueza 
— a alegre mocidade, o brilho radiante dos seus 
negros olhos de velludo, a honestidade plácida do 
seu coração virginal. 

Era um encanto essa formosa criança ; os pães 
adoravam-na; toda a gente que a conhecia fazia 
o mesmo que os pães. 

Não era uma rapariga, era uma sympathia. 

Havia pela sua franqueza juvenil, pela sua 
alegria expansiva, pela sua honestidade despreoc- 
cupada, um respeito deveras estranho que não 
costuma muito acompanhar estas sympathias pe- 
los olhos negros das estanquei ras. 

Um dia a pequena desappareceu da loja. 

Estava doente. 

D'alli a dias voltava á loja, mas voltava den- 
tro d'um modesto caixão forrado de paninho bran- 
co, com aquelles formosos olhos fechados para 
sempre, vestida de seda, com a pallidez do lirio 
nas faces, com uma coroa de rosas virginaes so- 

II 



136 A Comedia de Lisboa 

bre os cabellos negros e encrespados, com o seu 
véo branco de donzella a envolvel-a toda como 
d'antes a envolvia a alegria descuidosa da sua 
mocidade. 

Parecia uma noiva formosa que dormia para 
acordar na esplendente aurora nupcial. 

E effectivamente cjuasi que assim fora. Um 
dia o noivo viera e ella deixára-se adormecer-lhe 
nos braços ; mas era um triste noivo — o typho. 

Esperava-a á porta um carro lúgubre — o es- 
quife. Abriu-se ante ella um desconsolador leitO 
nupcial — a cova. 

E ella foi, a iK)bre criança, não i>ôde resis- 
tir-lhe. 

E amanhã a natureza com o seu sarcasmo 
terrível fará desabrochar cogumellos n'esse cam- 
po sinistro onde as mãos amigas só colhem sau- 
dades. 



os PASSEIOS AO DOMINGO 



Isto é mais um capitulo de guia do viajante do 
que um folhetim : é como que um menu do que o 
forasteiro encontra, ao domingo de manhã de in- 
verno, servido com toda a regularidade e aceio 
nos principaes passeios públicos de Lisboa. 

A physionomia d'esses passeios muda inteira- 
mente de verão. Não se imagina a revolução que 
causa a musica tocando das 6 ás 8 em vez da i 
ás 3. Esta mudança de horas traz comsigo a mu- 
dança completa de publico, os passeios transfor- 
mam-se e ninguém reconhecerá de certo no pas- 
seio da Estrella, com os seus soldados do 16 de 
mão dada, ou antes de dedo minimo dado, e com 
as suas amas de leite feias com bobys bonitos, o 
Ipasseio das louras miss, e das gordas biblias pro- 
testantes, das manhãs de inverno. 



138 A Comedia de Lisboa 

Mas agora nada temos que vêr com o passeio 
de tarde. 

Os domingos de inverno não têem tardes. 

Os seus grandes acontecimentos são a missa 
e o theatro. 

Em quanto porém a porta do Loreto se fecha 
e a de S. Carlos não se abre, é preciso fazer al- 
guma cousa. 

O que se ha-de fazer? 

Passeia-se. 

Fora da terra é incommodo e caro. Os pas- 
seios públicos são bons e baratos, como os pãesi- 
nhos que d'antes se vendiam pelas ruas. 

Vamos pois aos passeios públicos, em quanto 
o snr. Pequito lhes não arranca as grades. 

E' escusado dizer que não fazemos estylo : hoje 
fazemos historia. 

O passeio do Rocio deve ser o primeiro a occu- 
par as nossas attençÕes. Deix)is d'elle só mais dous 
— o da Estrella e o de S. Pedro de Alcântara. 

Ha mais, ha, por exemplo o da Alfandega 
onde os pães, segundos ofíiciaes das repartições da 
baixa, levam os filhos imberbes e as filhas que an- 
dam na mestra ; o do Campo de Sant'Anna onde a 
visinhança passeia os seus namoros ; o da Patriar- 
chal que é como f(ue a estação do entroncamento 
das cidades baixa e alta. e o da praça das Flores, 
uma jaula que parece uma gaiola de grillos e onde 
em vez de alface devoram olhares de amor os na- 
morados da freguezia das Mercês. 



A CoMíniA nK Ltsroa 139 

Mas vamos aos três passeios principaes. Te- 
mos em primeiro lugar 

O PASSEIO DO ROCIO 

A' I hora começa a chegar a concorrência. 
Vem da missa da meia hora de S. Nicolau. 

N'esse grupo predomina a menina da baixa, 
o amanuense, o caixeiro das lojas que fecham ce- 
do. Deix)is, pouco a pouco vem vindo a elegância 
aristocrática da missa da i hora, o high-lifc do 
commercio e das repartições, o mundo fashionablc 
que vive regaladamente nas cadeiras de palhinha 
do Loreto e nos camarotes de 2.^ ordem em 
S. Carlos. 

Aqui uma nota: A gente da i.^ ordem e das 
frisas, não vai á missa da i hora, nem ao Passeio 
Publico, para se dar ares de mais subida, distin- 
cção — fica em casa e vai á missa cedo. 

Da I e meia para as 2, é que o Passeio está na 
sua hora de grande enchente. 

Na rua do meio as damas alinham-se nas ca- 
deiras do asylo, ostentando com certo donaire os 
seus vestidos de sedas fortes e de velludos macios, 
os seus chapéos carregados de flores, e as suas 
tranças jjostiças banhadas em essências fortemente 
cheirosas. 

No meio da rua, passeiam em alas de 4 e de 
5, os jovens janotas, com gravatas de cores vai- 



140 A Comédia de LisnoA 

dosas, luvas claras, boquilha cheia de feitios, e 
charutos de pataco — o luxo do domingo. 

D'um lado para o outro trocam-se olhares pe- 
netrantes, namora-se. 

As meninas pallidas com as suas grandes ca- 
beças caras — porcjue não se fazem sem dinheiro 
aquelles penteados opulentos — olham para os ra- 
pazes que passam, e pintam a frontaria, phrase 
pitoresca com que os caixeiros de lojas de modas 
designam o quente rubor que assoma cás faces d'es- 
sas franzinas donzellas, quando algum d'elles lhes 
faz pulsar o coração. 

As mães estão caladas e olham, os pães olham 
e estão calados, e levam de vez em quando a mão 
ao chapéo com um sorriso amável, c[uando passa 
um conhecido que os lisonjeia com os seus cum- 
primentos. 

Pelo meio da rua, acotovelando a multidão de 
fraques, passam ás 5 e 6, ranchos de virgens da 
rua dos Fanqueiros, e bairros da Magdalena, to- 
das do mesmo formato, edições pequenas, amarel- 
las como pergaminho, e todas parecidas umas com 
as outras, Avolumes humanos e rachiticos de versos 
de recitar ao piano, e de secretario dos amantes, 
que têem uns risos lymphaticos, as tosses imbecis 
da anemia, e as lunetas de massinha das myopias 
conquistadas por longas horas de janella, defronte 
de paredes brancas pintadas a cal. 

De vez em quando scintillam entre essa mui- 



A CoMKniA DE Lisboa 141 



tidão de raparigas doentias, e de pães amanuenses, 
os formosos olhos negros d'umas judias gentis. 
(|ue desal)rocliam em todo o vigor das sadtas mo- 
cidades n'aquelle jardim estéril, que só dá malme- 
(|ueres e sardinheiras, resplandecem suavemente, 
com toda a serenidade do azul, os olhos cândidos 
d^imas francezas louras, que vivem entre aquella 
gente sem se parecerem com ella, apparecem uns 
rostosinhos formosos de portuguczas, que protes- 
tam^ briosamente contra aquella decadência da sua 
raça ; mas tudo isto é rápido, furtivo, excepcional. 
A maioria triumpha, e, quando ás três horas, as 
trompas ainda suadas do ultimo galope militar re- 
colhem aos seus saccos de chita, a maioria trium- 
pha... e vai jantar. 

Os namorados, que tem estado a bater com a 
sua badine delicada o compasso do Trovodor, se- 
guem as suas bellas com os olhos do corpo fitos 
n'ellas, e os olhos da alma pregados na sopa; os 
pães vão calçar as chinelas bordadas e vestir os 
seus confortáveis chambres ; as mães tiram os chi- 
nos, e em quanto tudo isto engole sofregamente o 
cozido e a carne de porco frita, é que o passeio, 
soltando um suspiro de allivio, por se vêr livre dos 
passeantes e da musica marcial, tem uma meia 
hora de tranquillidade ; sete ou oito mulheres, que 
são menos feias e jantam mais tarde, dez ou doze 
homens, que namoram menos e conversam mais. 

Depois vem os que já jantaram; os palitos os- 



142 A Comedia de Ltsboa 



tentani-se nas lx)ccas saciadas; os passos tem o 
peso dos estômagos fartos ; a noite principia a des- 
embrulhar o seu guardanapo de estrellas, e os guar- 
das a puxar a corda das suas sinetas; depois tudo 
sabe, as portas fecbam-se, e o passeio fica deserto, 
tão deserto como de verão nas noites de illumina- 
ção municipal... 
Agora temos o 

PASSEIO DA ESTRELLA 

E' um passeio pitoresco, cheio de verdura, de 
lagos elegantes, de cysnes pretos e brancos, de co- 
vas e de montanhas ; a cascata, e a montanha russa. 
D'antes tinha um grande attractivo para as crian- 
ças, para os soldados da municipal e para as cria- 
das de servir — o leão. Elle porém, coitado, deu a 
alma a Deus e a pelle ao embalsamador da rua do 
Moinho de Vento, e deixou a jaula que enchia com 
os seus urros colossaes, pela eternidade de palha e 
estopa com que vai encher a sala do snr. Paiva 
Raposo. O publico do passeio da Estrella, raris- 
simo ao dia de semana e composto geralmente de 
pares amorosos, que suspiram por entre as mat- 
tas perfumadas, ao domingo é variado, turbulento, 
numeroso. CompÕem-no especialmente o elemento 
lusitano e o elemento britannico. Santa Isabel, e 
os Cyprestes são quem fornece quasi todo esse 
publico. 



A CoArKniA dk Lisp.oa 143 



Portugal está alli representado pelos emprega- 
dos refomiados, que procuram, em Buenos-Ayres e 
na Lapa, melhores ares e casas mais baratas ; pe- 
los boticários do sitio, pelos amigos dos boticários 
e dos empregados, e pelas famílias respectivas. 

As raparigas têem melhor côr que as da baixa, 
mas tcão boas caras como as d'ellas. Ha menos 
luxo e menos lunetas; mais sorrisos e mais fi- 
delidade. 

Ha alli namoros quasi seculares, e quem vai 
um domingo ao passeio da Estrella fica sabendo o? 
segredos amorosos dos corações ternos das don- 
zellas do sitio. Se volta d'alH a um anno acha 
ainda os mesmos namoros, quando não acha já 
Lindoro feito Almaviva, o que nunca acontece no 
passeio da baixa, onde os amores das Julietas va- 
riam muito mais que as cores das flores barome- 
tricas da loja Minerva. 

A Inglaterra faz-se representar pelas suas mais 
louras filhas, que seguem, com uma regularidade 
toda britannica, os officios divinos da igreja dos 
Cyprestes, que acordam ás noites os echos solitá- 
rios das ruas de Buenos-Ayres, com os seus plan- 
gentes cantos religiosos, e que atravessam o pas- 
seio como um raio de sol atravessa as nebrinas 
teimosas dos cerrados dias de outono. 

O passeio tem um as^^ecto alegre e familiar. 
Toda a gente se conhece muito e falia uma com 
a outra. 



144 A Comedia de Lisboa 



A conversação é perfeitamente local, gira sem- 
pre sobre os mesmos assnmptos, como o passeio 
gira sempre sobre o m.esmo circulo. Tem o sen 
qnê de nora tudo aquillo — os giros e as conver- 
sações. E' monótono para os estranhos mas agra- 
dável para os da casa. 

De vez em quando segredam-se palavras mys- 
teriosas sob as ramagens dos chorões ao pé dos la- 
gos. A's vezes sente-se o murmúrio lascivo d'um 
beijo ; os cysnes grasnam e o cornetim chia. A. 
moralidade fica incólume ; as meninas coram, os 
rapazes empallidecem, os pães olham para as mães, 
e continua tudo a andar á roda. Lá para os cantos, 
ao pé das estufas, debaixo dos pinheiros, em cima 
da montanha ha diálogos apaixonados, e Daphnis 
e Chlo^ murmuram idyllios suaves... 

Vamos porém a 

S. PEDRO D'ALCANTARA 

que estamos no fim do folhetim. 

Ha tempos, em quanto o snr. Fonseca, o Hero- 
des d'aquellas arvores innocentes, não empunhara 
a enxada arboricida de camarista, escondiam-se 
sob as ramagens vetustas os amores criminosos 
da terra. Agora já lá não estão as arvores, e os 
amores desappareceram. Não era só já o peccado 
que os faria negros — era o sol ; e elles, os aman- 



A Cn\ii:i)i.\ DK 1,im;i).\ 143 

tes culpados, tiveram mais medo (Feste que (Va- 
qnelle. 

Em quanto a noite não vem emljrulhar aquel- 
les bancos no seu cochc-ncz de trevas, não se sen- 
tam n'elles os Lovelaces envergonhados. 

De manhã o passeio está todo entregue ás cou- 
sas Hcitas e francas. Aquella calvicia não admitte 
hypocrisia nem esconderijos. 

A gente do sitio gosta mais d'isso e vai para 
lá aos domingos, quando sahe da missa de S. Ro- 
que : casaes velhos d'esposos. que talvez tivessem 
alli arrulhado, quando as arvores hoje arrancadas 
começavam a rebentar; damas octogenárias com 
as suas criadas-mumias, collegios de meninas que 
parecem bandos de pombas, guardadas por patas. 

E' o passeio mais alegre da capital — ao aprcs 
niidi dos domingos. 

Os pássaros não chilreiam nas arvores que já 
não ha, mas riem as rajíariguitas dos collegios com 
as suas francas gargalhadas juvenis nos jogos ale- 
gres da mocidade. Parece um boíiqiiet de botões 
de rosas, que se espalhou por aquelle jardim. Ha 
alli perfumes e encantos. 

Os homens, os velhos satyros legeiídarios, es- 
preitam cá de cima, encostados ás grades, aquel- 
les brinquedos despreoccupados das nymphas. 

Elias riem como crianças, com os seus lábios 
frescos e os seus dentes alvissimos e brilhantes, 
correm airosas umas atraz das outras, dando gri- 



T46 A Comedia de Lisboa 



tos estridentes, cortados pela respiração cançada 
que lhes agita os collos virginaes, em ondulações 
aphrodisiacas ; as suas vozes têem inflexões estra- 
nhas, sensuaes, picantes ; a voz da criança que co- 
meça a ser mulher! depois cahem, e riem-se como 
doudas, e as gargalhadas estouram alegres, como 
as notas festivas do grande hynino risonho da mo- 
cidade. 

As mestras espreitam-nas invejosas e severas 
por detraz dos seus óculos de velha, e depois a 
dadas horas arrebanham aquelle jovial bando con- 
fiado á sua guarda, e encerram-no no fechado col- 
legio, n'esse ninho que é viveiro, cujas paredes, 
como panos de fundo das magicas, se abrem em 
esplendidas visões ante aquelles olhos ávidos de 
luz a quererem adivinhar o mundo. 

E um dia, mais tarde, essas formosas aves que 
emplumam, vêem abrir-se-lhes as portas da prisão 
e levantam contentes e todas tremulas de commo- 
ção, hesitantes e perplexas, o seu garrido vôo. 

E cá fora, á porta d'essa gaiola de virgens, o 
pellicano abre extremoso as suas grandes azas be- 
néficas, e a um canto o estúpido sapo escancara a 
sua enorme bocca immunda... 



A CHUVA 



O inverno começa já a chorar as suas estro- 
phes plangentes nos vidros luzidios das nossas ja- 
nellas. Principiam os grandes poemas das chuvas, 
uns poemas tristes e alegres como a vida, em que 
os murmúrios dos bailes se casam com os gemidos 
da miséria, em que as árias das primas donas, bem 
vestidas, se enlaçam com o tiritar de frio dos es- 
farrapados, em que a nota do violoncello afina pela 
voz do trovão, em que o champagne se espre- 
guiça fora das taças como os rios trasbordam fora 
dos leitos, em que as mulheres redemoinham nas 
valsas, estreitadas pelos seus pares, como as arvo- 
res revoluteiam nos campos abraçadas pelo tufão. 

E' uma estação cheia de contrastes pungentes 
o inverno ; é um poema dos mais complexos, o 
poema da chuva. 



148 A Comedia de Lisboa 

As suas estrophes, que não tem conto, n'essas 
compridas noites molhadas em que só se vêem, nas 
ruas escuras e alagadas, as patrulhas frias como 
cadáveres debaixo dos seus capotes lustrosos, e os 
cães vadios a esconderem-se pelas escadas e a fa- 
rejarem os barris do lixo, arrastam -se pelas salas 
luxuosas dos palácios, e pelas aguas-furtadas nuas. 
pelos botequins cheios de luz e de ruidos. e pelos 
subterrâneos cheios de humidade e de trevas, pe- 
los theatros onde resplandecem o luxo e a belleza, 
e pelos hospitaes onde imperam a febre e a dór. 

E' profundamente humano esse poema gigante 
e trivial que apparece todos os annos no mundo, 
como o snr. Reduzzi apparece todos os annos em 
S. Carlos, e quasi pelo mesmo tem^x), trazendo, 
na sua bagagem de touristc, a pneumonia e o bai- 
le, o frio dos gelos e o calor do fogão, a inunda. 
ção e o figurino de dezembro, os cyclones e os ca- 
sacos de abafar. 

Agora que no horisonte as nuvens negras se 
acotovelam e se engalfinham como os garotos ao 
sahir da escola, agora que o candieiro de gaz co- 
meça a ter vivo predominio sobre o velho sol, ago- 
ra que as grossas bátegas d'agua fazem desabro- 
char na terra a flor de laranjeira e o chapéo de 
chuva, e que as noites começam quasi quando co- 
meçam os dias, vamos por ahi fora, por essas ruas 
onde corre a enxurrada e o vento brinca com os 
paus das taboinhas e com as sombras dos candiei- 



A CoMKuiA DE Lisboa 149 

ros, escutar os segredos das noites invernosas em 
Lisboa, d'essas noites em que os relógios parece 
que não andam e a chu\a que não pára. 

Aqui ha risadas alegres e gritos estridentes. A 
um canto uma mesa de polimento com o seu pano 
\erde e as suas duas velas de estearina postas em 
diagonal, aguenta corajosamente com os murros 
de indignação de dous velhos que perdem um sem 
numero de abonos. 

— Passo, snr.^ D. Mcjuica. 

— Vou á casca, snr. Sebastião Raposo. 

— Isso é demais, snr. Costa. Isso é sacrificar 
os parceiros. 

— Quem não sabe não joga, snr. Raposo. 

— Ah ! ah ! ah ! — ri D. Mónica. 

— A senhora ri porí(|u,è está ganhando ; se 
estivesse no meu lugar... 

— Eu deixo-me d'isto : não sabem pegar nas 
cartas e estão sempre a dar sentenças. 

— Quem é que não sabe pegar nas cartas ? — 
murro na messa. 

— Xão se zangue, snr. Costa. Oh ! oh ! oh ! 

— Eu é que não estou para isto, não estou para 
aturar más creações... Passo... 

— Vou á casca, snr.a D. Mónica. 

No meio da sala um bando de rapazes e de ra- 
parigas jogam o jogo das prendas : 

— Eu estava em casa do cravo ! 

— Mentes tu. 



150 A Comedia de Lisboa 

— Porque, onde estavas tu? 

— Em casa da ama. 

Silencio, depois grande gritaria. 

— Prenda ! prenda ! pague prenda ! 

A AMA (que tinha ouvido muito bem, mas que 
fingia Jtão dar por isso para lisonjear o primo 
D. Álvaro que a namora). — Mentes tu. 

Todos. — Pague ! pague ! 

Uma prima vKlha. — Quem joga não guarda 
cabras. 

A ama (dando um annel). — Aqui está. (Para 
o primo) Estava distrahida a olhar para ti. 

O PADRE CURA. — Eu estava em casa do me- 
lão. 

O PRIMO (que era o melão, correspondendo á 
amabilidade da ama). — Mentes tu. 

Todos. — Prenda ! Prenda! E' «mente vossa 
senhoria». 

O MKivÃo dá uma boquilha de cigarro, e olha 
ternamente para a prima, offerecendo-lhe o sacri- 
fício. 

D'alli a pedaço vem o chá, em fatias com pou- 
ca manteiga e bolachinhas finas de muitos feitios. 
O MELÃO dá uma pomba á prima que a mastiga 
com grandes estalidos entre os seus dentinhos 
brancos e afiados, e lhe dá em troca um coração 
com um R, que elle guarda religiosamente na al- 
gibeira do peito. 

O voltarete interrompe-se e o Ra^wso faz as 



A Co.MKDiA \)\', T.isr.oA 151 

pazes com o Costa, offercccndo-lhe delicadamente 
as falias, e iim elogio ás prendas das meninas, que 
\ã() muito adiantadas no piano. 

A' meia noite D. Mónica levanta-se e vai á ja- 
nella. A chuva cahe a potes nas ruas com grande 
estrondo. 

— Parece-me que chove menos... Assim en- 
tretidos, passa-se a noite n'um momento; é já 
meia noite... " 

Os convidados não se mexem. 

— D'aqui a sua casa ainda é um bocadinho, 
snr. Costa. Não sei para que mora tão longe... 
Olhe. agora ha uma aberta... Veni lá ao longe 
um negro... 

As meninas arregaçam as saias com garridice, 
os cavalheiros arregaçam as calças e lá vai tudo 
jiara a rua, uns alegres, outros com somno, ellas a 
pensarem nos namoros, elles a fazerem as contas 
do jogo, lá atravessam os passeios encharcados 
mettendo os pés nas ]ioças, e tendo arripios ga- 
lhofeiros, quando lhes cahe no pescoço um pingo 
d'agua fria como gelo. 

Quando entram para casa, ouvem vozes fes- 
li\'as de instrumentos. 

E' um theatro popular. Os l)ancos estão cheios 
e ouvem-se grandes gargalhadas sonoras. Quem 
tem seis vinténs não pode empregal-os melhor 
aquillo vale por uma cêa. Não é só a fada verde, 
com a sua varinha, os amores do principe Izaim 

12 



A Comedia dE Lisboa 



e da princeza Zelimina. as partidas de Sataniel e 
as facécias do rei Trambolho 42.0 que alli se vê; 
o que alli se vê mais que tudo isso, é a comprida 
noite passada. O que se compra não é o espectá- 
culo, são três horas de esquecimento do trabalho 
de todo o dia, três horas de despreoccupação do 
trabalho de amanha. 

Nos outros theatros, nos theatros de luxo, é 
differente. 

Ordinariamente não é a despreoccupação que 
lá nos chama, é a despreoccupação cjue lá nos leva. 

A vida alli é farta. Em casa ha um fogão para 
o frio, fofos cobertores pesados para a cama, ta- 
petes que aquecem os pés, reposteiros que enxo- 
tam as correntes de ar. 

Nos camarotes ha conversas animadas. O que 
menos importa alli é o esi^ectaculo : o grande fim 
é a pose. 

Os cavallos rincham á porta, quentes debaixo 
das suas mantas, e as carruagens são tépidas e 
confortáveis. Correm por sobre a lama como 
traincaiix, e os olhares descuidosos d'aquelles ros- 
tos brancos que se encostam aos estofos molles 
da carruagem, e espreitam para a rua menos bri- 
lhantes do que os ^diamantes que scintillam nas 
orelhas pequenas e vermelhas, encontram ás vezes 
uns vultos que se arrastam pesadamente junto das 
paredes, para aproveitarem o abrigo da telha, e 
que desempenham o perigoso encargo de represen- 



A Comedia de Lisboa 153 

tarem a niendicidade publica nas noites d'inver- 
no : c de (iiiem ellas, as formosas indi ff crentes, 
não suspeitam a vida. 

Pois são uns tristes personagens esses embai- 
xadores da dama Miséria : as noites passam-na a 
tiritar de frio por essas ruas húmidas, e emquanto 
ellas andam jjelos theatros e j^elos bailes, elles ge- 
lam as mãos a estendel-as aos ricos, que passam 
enrolados nos seus prussianos fortes, o que quer 
dizer no seu confortável egoísmo. 

O inverno tem isto, é terrivelmente egoista. 
Quando se está agasalhado, a caridade custa muito 
a passar através do estofo até ao coração. 

Xo verão é-se expansivo : ás noites anda-se de- 
vagar ; é até uma distracção dar esmola : sabe 
bem, gosta-se d'isso. 

Xo inverno, para se dar um vintém, apanha-se 
uma constipação. Entre a saúde e o paraiso o ho- 
mem decide-se sempre pela saúde. 

E quando chegam ás suas espeluncas som- 
brias, esses grotescos da miséria, que nós adivi- 
nhamos á luz tremula dos candieiros açoitada pelo 
vento nas noites tempestuosas, que differença ha- 
verá entre essas casas frias e immundas, e as co- 
vas escuras para que ellas adiantam o caminho, 
senão uma que é toda contra esses desgraçados 
— o elles estarem vivos ! 

Seria uma lúgubre i)eregrinação através do 
paiz da miséria o soletrarmos aqui todas as estro- 



154 A Comedia de Lisboa 

phes negras dos tristes poemas da chuva. Este 
unisono de lagrimas e de gargalhadas é o que 
constitue a harmonia da vida humana. 

As leis da harmonia têem d'estes mysterios 
extravagantes. Uma orchestra não pôde prescin- 
dir do bombo, mas não é isso razão para nós nos 
pormos a tocar um solo de bombo aos nossos 
leitores. 



o THEATRO DE S. CARLOS 



Estamos no inverno. 

O outono fecha as portas quando S. Carlos 
abre as suas. 

As andorinhas fogem por aquellas e a socie- 
dade elegante entra por estas. 

Ante-hontem lá estava toda nos camarotes ca- 
ros, que estão para ser forrados de novo, e nas 
cadeiras novas que fazem saudades das velhas. 

D'antes a gente ia para S. Carlos, deitava-se 
dentro de uma cadeira que tinha accommodaçÕes 
para tudo e deixava-se lá estar muito bem a ou- 
\ir a musica e a/ vêr as mulheres fonnosas que 
enchiam os camarotes — perdoem a" exuberância 
da phantasia meridional — voltando a cabeça com 
gestos de caracol. 

Agora as cadeiras são graves, sérias, direitas. 



156 A Comedia de Lisboa 



obrigam-nos a estar ceremoniosamente sentados 
como um saloio quando vem pela primeira vez á 
cidade. 

Tem mais polimento do que commodidade e a 
gente mais direitura, que é o nosso polimento, do 
que bem-estar, que é a nossa commodidade e a das 
cadeiras. 

As andorinhas fôram-se, dissemos nós. e esta 
phrase traz comsigo a velha banalidade applicada 
aos cantores juntamente com a Dulcamara para 
lhes aclarar a voz — e vieram os rouxinoes. 

E' verdade que á snr.a Varezi póde-se chamar 
bem rouxinol sem que elles nada tenham a 
perder. 

Tomaram os rouxinoes ter aquella voz limpida 
como gotas d'agua, as arvores ter aquelles rouxi- 
noes e nós termos essas arvores ! 

Faziamo-nos com toda a certeza mais bucóli- 
cos do que os próprios amantes da Soinnavibiilo, 
que andam toda a opera a dar e a tirar anneis c 
flores um ao outro com uma alegria idyllica, que 
é como o bom cheiro saudável de feno, que nos 
faz pensar nos amores lyricos das éclogas senti- 
mentaes e das pastoras de opera cómica. 

Estas musicas francamente melódicas que são 
hymnos d'amor, contrastam singularmente com as 
conversas realistas das donzellas das cadeiras, das 
elegantes dos camarotes e dos entendedores de 
todo o theatro. 



A Comedia de Lisboa 157 

O theatro de S. Carlos ! Não ha nenhum mais 
original, mais característico do que elle. O que 
alli ha menos são amadores de musica. 

Esses, coitados, escondem-se pelas ultimas or- 
dens, e arrastam as sua calças coçadas e baratas 
pelos bancos duros das galerias modestas onde 
não subiu ainda a reforma, que anda cá por baixo 
a polir as cadeiras de carvalho. 

O carvalho que nos perdoe se não deu nada 
para ellas. 

Lá em cima, sim, lá em cima, encarapitados 
sobre a coroa real portugueza, e na visinhança 
quente do lustre, é que estão os bons amadores 
da grande arte. os filhos dilectos de Santa Cecilia, 
que dão dezoito vinténs para ouvirem a musica 
que seus tios — os irmãos da mesma Santa — to- 
cam cá em baixo a dous mil reis por noite. 

Mal sal)em os cantores, que ao entrar em sce- 
na vêem a sala cheia de luz e de fumo do tabaco, 
os hombfos nús das mulheres que ostentam em 
todo o esplendor a sua plástica d'osso, que en- 
contram logo nas primeiras cadeiras os olhos ne- 
gros e intelligentes de Júlio Machado, as suiça'"'- 
irreprehensiveis de Thomaz de Carvalho, as lu- 
netas escuras como fumo de fabrica do dr. Al- 
varenga, os bigodes pretos do José Horta, e de- 
pois um oceano de cabeças calvas, de chinos lus- 
trosos e de cabellos empastados em essências, que 
o grande publico, o publico que os ouve no seu 



158 A Comedia de Lisboa 



religioso silencio d'agua-furtada, que os julga no 
seu afiado critério a trezentos e sessenta reis por 
noite, está escondido n'aquellas galerias que pa- 
recem ninhos de andorinlias á beira do tecto ve- 
tusto do theatro, onde o calor é tanto que as notas 
chegam suadas como os collos das bailarinas, can- 
gadas como o Paccini quando sobe ao guarda- 
roupa, e onde o enthusiasmo e altura causam 
doudas vertigens. Mal sabem elles, esses bons ita- 
lianos que vêem para Lisboa com as suas reputa- 
ções feitas e as suas cabelleiras penteadas, que 
alli, n'aquellas alturas onde floresce a torrinha, é 
que estão os seus criticos e os seus juizes. 

Cá em baixo, nos camarotes commodos e nas 
bancadas correctas, estão os espectadores de luxo. 

Elles não vão alli por vós, ó cantores suaves, 
vão alli. para se mirarem toda a noite no binócu- 
lo polido das grandes damas da i.^ ordem, para 
espreitarem zelosos os olhares surrateiros das suas 
manolas queridas que lhes merecem o sacrifício 
(rum quartinho por noite, e que em quanto elles 
se constipam na geral, trocam amabilidades com 
os l)razileiros que se sustentam a carnes assadas 
c a feijão preto, nos boteis da baixa ; vão alli fi- 
nalmente para se sentarem com toda a arrogância 
de sete tostões n'aquelles lugares que são o enlevo 
cubiçoso dos habitantes do paraiso. 

-\quellas damas elegantes que estão nos ca- 
marotes disrpendiosos, nVsses ])rimeiros andares 



A CoMEniA DE Lisboa 159 



(lo grande hotel de luxo, que consomem em horas 
o sustento de milhares de famílias, — i^erdão! que 
Íamos caminhando para um communísmo mais 
vermelho que as orelhas d'um tenor quando des- 
afina, ou a crista d'um gallo quando canta — não 
se importam nada comvosco, ó forasteiros íllus- 
tres que andaes de terra em terra. Ashaverus da 
gloria com a vossa mala e a vossa melodia, im- 
portam-se apenas com os vestidos novos da vi- 
sinha do lado. com o namoro descarado da íilha 
do conselheiro, com as estroinices d'um Lovelace 
da Havaneza, com as luvas do snr. Pino que não 
sahiram de boa pellica e custaram mais d'um quar- 
tinho, com o decote do vestido que as não despe 
bastante, com o velludo velho dos camarotes que 
as não faz brilhar tanto como os ecrins parisienses 
das vitrines da loja do snr. Leitão. 

Elias confundem-vos com o primeiro pelotí- 
queiro que viram no circo ; Blondín e Fancelli. a 
Spelterini e a Vitali são para ellas uma e a mesma 
cousa. 

Uns fazem equilíbrios na corda, outros na voz. 
(|ue ás vezes é mais delgada que um cordel. 

As operas dos grandes maestros dançam nos 
seus craneos pequenos, cobertos de cabellos posti- 
ços penteados pela mulata, um can-can vertigi- 
noso com os spartitos de Offenbach e do snr. Al- 
varenga. 

A austera Valentína canta-lhe aos ouvidos os 



i6o A Comedia de Lisboa 



couplets obscenos de Dites uioi, J\vuts, qiiel plai- 
sir troiives tu, e ellas acham que a virtude da 
amante de Raul cascada no grande duo de Meyer- 
beer, tanto como a da esposa de Menelau na entre- 
vista com Paris. 

O que menos lhes importa em S. Carlos é a 
musica, dão mais attenção ás visitas que aos can- 
tores. E os pães. os severos negociantes, os hon- 
rados negreiros, os impollutos fidalgos que com 
as suas gravatas brancas enchem os fundos dos 
camarotes, dão por bem empregados os seus di- 
nheiros — é um bom reclamo ao seu commercio 
ao seu titulo, e sobretudo ás suas filhas. 

O theatro de S. Carlos não é para elles um di- 
vertimento, é uma vaidade. 

Os governos não comprehenderam ainda isto 
e persistem na teimosia de -não deixar augmentar 
os preços. 

E' uma ingenuidade indesculpável que o pu- 
blico não lhes perdoa. 

E tem razão. 

Xão porque os preços augmentados permittis- 
sem ás empresas trazer melhores artistas, isso é 
uma questão secundaria para o frequentadores de 
S. Carlos, mas pela única razão de lhes permittir 
o pagar mais. 

E' exactamente isso que elles querem. 

Xinguem assigna um camarote de S. Carlos 
para ouvir musica : assigna-o para mostrar que 



A Comedia de Lisboa i6i 



pôde gastar 500 on 600 mil reis por anno, somen- 
te em theatro. 

E' um luxo como os brilhantes, os ouros, e a~ 
sedas ricas. 

Não ha nada que fique melhor a uma pessoa 
do que ter uma frisa em S. Carlos. 

Falla-se n'ella com certo respeito; liga-se-lhe 
profunda consideração e até muito mais estima. 

Equivale a ter o titulo de visconde e dá mui- 
tas mais garantias. 

O titulo de visconde não se vê e elles não hão- 
de andar pelo meio da rua de coroa na cal^eça 
como Bobeche por sua casa. 

O camarote todos o vêem ; todos, porque toda 
a gente para quem vale a pena fazer figura vai a 
S. Carlos. 

E depois o camarote é outra cousa, paga-se. 
E' uma prova eloquente de que se tem dinheiro ou 
quem o empreste, ou d'onde se subtraia ; em quan- 
tia que o titulo nem sempre se paga. 

Nem sempre, é uma grande deferência nossa 
pelos senhores viscondes. 

E' por isto que a assignatura de S. Carlos está 
sempre cheia. 

Quem não andar mettido pelos bastidores da 
nossa sociedade, ha-de imaginar que a nossa gente 
tem uma grande bossa artistica e que morre pela 
musica. 

Que injuria que lhe fazem, pobre gente, im- 



102 A Comédia de I^isboa 



portar-se com a musica! ella que não diff crença 
um tenor d'um baixo e que ouviu ainda ante-hon- 
tem enlevada a snr.^ Grasi na primeira scena da 
Sonniainbula, achando que a Varezi cantava mui- 
to bem. 

Mas aquella cara era-lhe conhecida, começou 
a vasculhar o cérebro com a reminiscência e por 
fim descobriu que era a Grassi ; não pela voz, — 
pela cara. 

E aqui têem o que é, em assumptos musicaes, 
a maioria do publico de S. Carlos, esse publico 
que se julga o juiz dos artistas por ser o seu ter- 
ror, por ter mais prompta a bengala do que a cri- 
tica, por se servir com muito mais habilidade dos' 
pés do que do cérebro. 



A ARVORE DO NATAL 



A casa está niysteriosaincnie fechada coiiu) niii 
l)alaci() encantado. De vez em quando abre-se uma 
i^reta da porta e entram lá para dentro cestos, cai- 
xas, embrulhos exquisitos. A ^limi, o Lulu e o 
IJébé, põem-se nos bicos dos {íés, espreitam pela 
fechadura, interrogam cheios de curiosidade, com 
a sua voz entaramelada, a mãi que anda alegre 
e atarefada, as criadas que sorriem, as amas que 
lhe dizem symbolicamente : «Logo verás». 

Pela greta da porta vêem ás vezes seu pai em 
chinelas vermelhas andar d'um lado para o outro, 
com o andar de quem está a fazer alguma cousa 
im])ortante. ]Mimi não faz caso da sua boneca. 
r>ébé já não l)rinca com o seu theatro de papelão. 
Lulu não pede historias de fadas á ama e aml.-t 
l)ensativo. 



i(")4 A Comedia de Lisi!t)A 



O jantar distrahe-os um pouco das suas co- 
gitações. 

— Dá cá pastel ! Quer pastel ! grita Bebé. 

— Sopas para a boneca ! pede a Mimi. 

— Quer mais vinho! quer mais vinho! clama 
Bebé. 

Mas no meio do seu alegre banquete a curio- 
sidade domina o estômago, ao apanharem no ar 
algumas palavras mysteriosas trocadas entre o 
papá e a mamã. 

Depois do jantar, o pai torna-se a fechar no 
quarto encantado, a mãi vai fazer a novena do na- 
tal, e elles, os pequenos, vão ainda a lamberem 
gulodices, pôr-se de joelhos no oratório, com as 
suas mãosinhas pequenas erguidas e os seus gran- 
des olhos espantados fitos no presépio, na muli- 
nha, nos reis pretos, no Jesus pequenino, que sorri 
d 'entre as palhas. Batem á porta, é o menino 
Quim que vem todo vestido de velludo como para 
uma festa, pela mão da criada. D'alli a pedaço, 
vem a Mimi, a Titina, com os seus ares de se- 
nhora pequena, as suas pellesinhas ao pescoço e 
o nariz e as faces vermelhas do frio, como que se 
o sangue estivesse a rebentar por ellas. Vem a Lo- 
tinhas pela mão de sua mãi, uma senhora já velha, 
cheia de signaes e de filhos ; vem o Jucá, um pe- 
queno que tem todo o feitio e a côr d'um macaco, 
e é filho do brazileiro do i.o andar, que se parece 
até á illusão com um orangotango do museu. 



A Comedia de Lisroa 165 

Bebé uma vez, indo vêr a Historia natural, á 
Pol}tcclinica, depara com esta extraordinária se- 
melhança. Ia também Jucá, o papá, a mamã, e 
umas visitas. 

— O' Jucá, Jucá, queres vêr o teu papá? ber- 
rou Bebé defronte da gaiola dos pães primitivos 
da humanidade. 

Littré ficou contente, mas o brazileiro fez-se 
corado e não voltou ao museu. Desde esse dia da 
zoologia, as relações entre as duas familias es- 
friaram. 

A mãi do Bebé riu muito em casa com o pai, 
mas sempre disse ao ixqueno em tom reprehen- 
sivel : 

— O menino não se faça abelhudo ! Faça fa- 
vor de nunca mais fazer comparações, guarde-as 
para si. 

— Nem todas as verdades se dizem ! acrescen- 
tou o pai sorrindo com bonhomia, e batendo pal- 
madinhas na cara do Bebé. 

Bebé ficou muito serio, e d'alli em diante quan- 
do passava algum realejo com macaco, batia para 
baixo ás escondidas da familia. 

A reapparição do Jucá foi um verdadeiro suc- 
cesso entre a pequenada, todos lhe fizeram muitas 
festas. Mimi deu-lhe broas. Lulu andou a puxar 
por elle, a mostrar-lhe os bonitos, e Bebé queria 
á mão de Deus Padre que o rapaz batesse choco- 
late em cima d'uma mesa, apesar dos beliscões 
que a mãi lhe dava. 



i66 A. Comedia de Lisboa 

Por fim quando elles já não pensavam na 
casa mysteriosa, o pai veio chamal-os ao cor- 
redor. 

— Andem cá, entrem todos juntos. Vamos. 
Todos juntos! 

E as portas abriram-se-lhes. 

Era um encanto, um sonho maravilhoso de 
poeta oriental. 

A casa estava toda cheia de luzes como as igre- 
jas em dias de festa, e no meio, no meio, uma 
grande aní^ore carregada d'esses fructos maravi- 
lhosos, que só se encontram nas montras do Sei- 
xas, uma arvore estrellada com pequenas e innu- 
meras luzinhas brilhantes, como um céo em noi- 
tes límpidas de outono, com as suas constellações 
de polichinellos grotescos, de bonecas com cara 
de cera, olhos de vidro e falias de manivella, de 
gaitas ruidosas, de espadas reluzentes, de tam- 
bores gigantes, de cavallos formosos, de embru 
lhos multicolores, de tanjerinas colossaes, de ani- 
maes de todas as cores, feitios e tamanhos, com 
a sua bandeira azul e branca a fluctuar no topo, 
como no Gymnasio fluctuava nas mãos da cozi- 
nheira do Primeiro de Dezembro. 

Os pequenos invadiram a casa como uma im- 
mensa onda alegre. Ouviu-se de repente, como 
uma estrondosa salva festiva, estourarem as notas 
ruidosas d'um hymno maravilhoso. Era uma or- 
chestra estranha composta de gargalhadas expan- 



A Comedia de Lisboa 167 



sivas. de guinchos de enthusiasmo, de exclamações 
de jubilo, de gritos de admiração. 

Os tambores, as cornetas, os pratos, as gaitas, 
cahiram como que por encanto dos troncos verdes 
da arvore nas mãosinhas brancas das crianças. 
Foi uma algazarra infernal. Os pequenos passa- 
ram tocando por baixo da arvore luminosa. 

Os pães e as mães riam-se para os seus filhos, 
e faziam festas aos outros, achando-os interior- 
mente muito insípidos. A Mimi agatanhava a um 
canto a Lotinhas por causa d'uma boneca. Lulu 
estava pegado com o Quim, por amor d'uma es- 
pada, o Jucá comia uma laranja ao collo do pai, e 
Bebé foi-se pôr defronte d'elle a tocar um reale- 
josinho pequeno e a cantarolar com um ar infan- 
til cheio de malicia : 

— Nem todas as verdades se dizem! Nem to- 
das as verdades se dizem ! 

Passado o primeiro instante de espanto, um 
rapaz magro, pallido, e louro, que era empregado 
na alfandega, primo do dono da casa, e collabo- 
rador do Trovador da Beira, pediu silencio. 

Os pequenos, com esse grande instincto pri- 
vilegiado das crianças, fizeram ouvidos de mer- 
cador. 

— Calem-se. meninos ! gritou a mãi de Bébc, 
aos seus filhos, que eram os únicos que estavam 
calados, vai o primo Jayme recitar uma poesia. 

Os outros pães amordaç?'-am os pequenos. 



i68 A Comedia de Lisboa 



Faz hoje muitos annos 
N'uma gruta de Belém, 



começou o primo a recitar em voz cavernosa e 
convicta. 

E continuou jxDr alli fora até á quinta estrophe. 

Então os pequenos, não iX)dendo mais, rompe- 
ram n'uma assuada terrível e justiceira, fazendo 
calar o recitador e acordar a gente grande que 
começava a adormecer. 

Passou-se ao sorteio dos prémios. 

O dono da casa, para desde pequeno ensinar 
os filhos a não se fiarem na sorte, e a imporem a 
sua vontade aos arcanos do destino, fez batota. 

Os pequenos ficaram muito contentes com os 
bonitos que a sorte assim temperada pelo amor e 
economia dos seus pães, lhes destinou, e como em 
quasi todas as rifas e sorteios, os prémios grandej-- 
sahiram á casa. 

Bebé teve os dous milhões de pesetas d'aquell i 
loteria, a sorte , grande, um theatro de papelão, 
que estava escondido no meio d'aquella ancore vis- 
tosa, como os vermes se escondem no interior das 
flores mais mimosas e a tisica no seio das mais 
formosas mulheres. 

Bebé teve o theatro. Era a sua grande vo- 
cação. 

A mãi tinha medos vagos com esta incUnaçãc 
da criança. 



A Comedia de Lisboa 169 

— Se elle em sendo homem lhe dá para isto ! 
dizia ella ás vezes. 

— Oxalá ([ue nunca passe dos de papelão, di- 
zia o pai com certo bom senso. 

E a niãi assustava-se e o publico pensava como 
o ])ai. 

D'alli a pouco a festa acabou. Os sinos da fre- 
guezia repicavam alegres para a missa do gallo : 
as canjas fumegavam ao lume, e os pequenos re- 
sonavam de mansinho nas suas camas pequeninai- 
e quentes, á mesma hora em que na estrebaria de 
Bethlem sorria nos lábios d'uma criança núa o al- 
\orecer d'uma grande religião. 



A PENSÃO AO ACTOR SANTOS 



Na morte como na vida, ha modestos e orgu- 
lhosos. 

Uns desçipparecem subitamente, quando estão 
em plena luz, como Victor Manoel e Thiers, en- 
chendo o mundo de assombros e de trevas, impon • 
do-se, mais do que ao luto, á surpreza universal — 
são os grandes vaidosos do tumulo. Quando ca- 
bem, as sociedades abalam-se, os espiritos ame- 
drontam-se, os ânimos entibiam-se ante os im- 
placáveis caprichos fogosos d'essa cocottc sinis- 
tra, que tem todas as seducçÕes dos atavios lu- 
xuosos para os ricos e para os grandes da terra, 
a quem os seus beijos fataes tornam em cadave- 
res-acontecimentos. 

Outros desapparecem pouco a pouco, passam 
de Austerlitz a Waterloo, como do meio dia ao 
anoitecer, mettem-se pelos atalhos do exilio, que 



A CoMKniA DK Lisboa 171 



conduzem direito ás grandes estradas do esqueci- 
mento, e um dia afogam-se silenciosamente no 
tranquillo Lethes, dando apenas uma noticia cu- 
riosa ás necrologias il lustres, e um curto telegram- 
ma á agencia Havas. 

Encheram o mundo na vida, na morte enchem 
a]:)enas um caixão de chumbo. 

As conversações alegres deixam-os passar em 
silencio das casas modestas do exilio paria as 
l)aginas gloriosas da historia. 

E são essas paginas brilhantes, que tanto nos 
faliam em Roscio como em Júlio César, em Mo- 
lière como em Luiz xiv, em Talma como em Na- 
jioleão, em Kean como em Cromwell, em Rachel 
da França como em Catharina da Rússia, que 
nos ensinam a fallar ao lado dos grandes heroes 
da guerra e do throno, dos grandes heroes da 
arte e do palco. 

Xa historia todas as realezas se confundem, 
todas as heroicidades fulguram, todas as glorias 
scintillam. 

Quantos reis serão escpiecidos por ella, a olym- 
])ica im]:)arcial, e fpiantos actores serão lembrados? 

O génio inscreveu já o nome de Santos no seu 
glorioso registo ; a desventura fel-o cedo figurar 
na tradição. 

«Passei depressa a monumento», disse-nos 
elk, ainda ha dias, apertando a nossa mão nas 
suas mãos tremulas e inquietas de cego. 



A Comedia ni; Lisboa 



Hontem era um actor, hoje é nm nome. 

Desappareceii fio palco como o sol desappa- 
rece do céo. Teve a modéstia fatal das terríveis 
agonias lentas no sen desapparecimento. 

A noite não veio cortar subitamente com as 
suas trevas o dia na sua luminosa plenitude. 

Tem tido um occaso demorado. Escondeu-se 
pouco a ix)uco, atraz das nuvens douradas do cre- 
púsculo. E sem ruído, sem as transições bruscas 
das concepções meyerbeereanas. aquella voz pos- 
sante, que na scena agitava as fortes commoçÕes 
e arrancava os loucos enthusíasmos, foi esvaecen- 
do-se pouco a pouco, siuorj^ondo n'um suspiro, 
como um canto de Bellini, até se perder nos ho- 
risontes serenos e longínquos, onde paira a sau- 
dade e onde a reminiscência é a única luz. 

Se n'aquellas noites de ardentes commoçÕes, 
em que Luiz xvi chorava as lagrimas do génio na 
prisão do Templo e na platéa havia em todos os 
olhos as lagrimas das rudes dores moraes, o pu- 
blico soubesse que aquella porta se abria ao rei da 
França para a guilhotina, em vez de se abrir ao 
rei da scena, para o camarim alegre e illíiminado, 
se abria para as escuridões implacáveis da ce- 
gueira, só illuminadas pelos sinistros clarões doen- 
tios, que vem da atrophia e da nevrose, e que vão 
])ara o mundo doloroso do delirio e da loucura; 
se quando gritava febril pelo homem, que fizera 
reviver um cadáver, em vez do actor radiante de 



A CoMRDiA DE Lisboa 173 



ííloria. visse apparecer n'aqiielle palco, cheio de 
Inzes, um homem cheio de trevas, que tragedia 
mais cruel, que drama mais pungente, que mar- 
tyrio mais lancinante poderia despertar dôr igual 
n'a(|uelles corações electrisados pelo sopro do gé- 
nio, e atirados \-iolentamente do alto do bello ideal 
para o fundo das tristes realidades monstruosas 
da vida? 

Mas nada d'isso aconteceu. 

A doença do homem matou lentamente o actor, 
como aquelles demorados venenos italianos. 

Um dia Santos desappareceu do palco, mas 
não desappareceu do theatro. O publico não o via 
em scena, mas via-o cá fora. 

Estava doente. aScismas!)) diziam muitos sor- 
rindo. Não se acredita nas catastrophes senão de- 
pois d'ellas acontecidas. 

O duque d' Alegria, cego, como uma avó cache- 
tica ! Era lá possivel ! 

D'alli a pouco o duque d'Aleria tornou a appa- 
recer deslumbrante de elegância fidalga, de espi- 
riio parisiense, cVeiitraiii de leão. 

Elle já não via bem através das suas lunetas 
fumadas, mas o publico via-o bem a elle, através 
dos seus binóculos, e sentia-se tão alegre que não 
l)0(lia acreditar em tristezas. 

As luzes da ribalta enfraqueceram ; mas o seu 
talento estava cada vez mais luminoso. Deitava 
tantos raios para fora, que não se jxjdia conceber 



T74 A Comedia de Lisboa 

qne estivesse lá dentro cheio de trevas. Depois 
tornou a desapparecer. P'esta vez a demora foi 
maior. 

O pulílico que se esquece de tudo não se es- 
queceu d'elle. Esi^erava a cada momento tornar a 
vêl-o : e essa esperança diminuia-lhe a anciedade. 
Por fim appareceu a recitar uns \ersos n'uma das 
festas mais santas a que Portugal tem assistido. 
Não foi o actor que appareceu. foi o homem. O 
publico estremeceu. Teve de recorrer á memoria 
para poder vêr n'elle o elegante Richelieu. o fa- 
moso De Jalin, o Alberto de Magalhães, e todas 
essas figuras deliciosas que aquelle cego, que alli 
estava magro e tremulo, tinha immortalisado com 
o seu talento creador. 

D'alli em diante. Santos appareceu raras ve- 
zes, e quando apparecia não era a dar primores 
do seu talento, era a receber os applausos que o 
outro Santos ganhara, transformados agora em 
sympathia: era depois da larga safra de louros, a 
despedaçadora colheita das migalhas do passado. 

Como é triste tudo isto ! 

Viver do passado sem futuro, é morrer. 

E' peor ainda. 

A vida resume-se em duas funcçÕes do espirito, 
uma amarga, cruel, desconsoladora. pungente, ain- 
da mesmo, ou antes principalmente quando é sua- 
ve: — recordar; a outra risonha, radiante, vivifi- 
cadora, sublime : — esperar. 



A CoMKDiA DK Lisboa 



Arrancar (ruma alma a esi)erança arrancando- 
llie (los olhos a luz, é mais do (jue atirar um corpo 
á cova. é atiral-o á tortura. 

li todas as torturas tem aggravantes. A glo- 
ria da vida passada, os ruidos alegres, as noites 
triumphantes, as realisações felizes das grandes 
conceiK-ões da Arte — a maior, a indizível alegria 
do artista — fazem das torturas um martyrologio. 

\i é o que Santos é hoje — um martyr; o mar- 
tyr da sua pro])ria gloria, as trevas da sua pro- 
])ria luz. 

X'elle o actor centuplica o soffrimento do ho- 
mem, se — triste com])ensação ! — acima da ce- 
gueira ha nia.vinio possivel. 

E. na nossa dôr por elle. ha um grande senti- 
mento cregoismo que a torna mais cruel. 

Na communidade de sentimentos, d'alegri;is, 
de ])ezares. ([ue ha entre o actor e o puhlico. a 
sua cegueira reflecte-se em nós. 

X'aqnelle cérebro sem luz \eceja omnipotente 
a saudade. Essa saudade também nos punge atro'/.- 
mente. 

O seu passado, que é a sua gloria, era o nosso 
cnthusiasmo. Elle nunca mais ouvirá, senão em 
recordações, esses liNinnos trium])hantes que hoje 
lhe soam aos ouvidos como unia musica sinis- 
tra; mas nós também tão cedo não os tornaremos 
a cantar. 

A Arte tem isso de grande: une. nas immen- 



ijó A Comedia nE Lisboa 

sas alegrias immaculadas do enthiisiasmo, o glo- 
rificado e os glorificadores. 

E no nosso espirito, como no seu, não sorri a 
esperança, porque olhando em torno de nós vemos 
o campo ermo de gigantes como esse que a adver- 
sidade pouco a pouco derrubou. 

E atraz cFesse cortejo de catastrophes vem. 
como sempre, essa amiga terrivelmente fiel das 
grandes desgraças — a miséria. 

Essa porém podemos nós enxotal-a. Podemos 
e devemos. Se a caridade não o aconselhasse, se 
a gratidão não o recommendasse, a dignidade 
impunha-o. 

Se não é por elle é ^^or nós. 

Seria uma vergonha infame se o não fizésse- 
mos. 

Portugal poderia fazer a sua trouxa e sahir 
da Europa. 

No parlamento trata-se a questão, que não é 
uma simples questão d'esmola a um comediante, 
como pensaria alguém, mas uma questão de di- 
gnidade nacional e de civilisação moderna. 

A camará dos deputados honrou o paiz votan- 
do quasi por unanimidade uma pensão — para que 
no fim de tudo o Estado concorre com pequenís- 
sima quantia — a essa gloria artística que tão 
cedo a fatalidade collocou na galeria das reliquia-, 
nacionaes. 

Falta á camará dos pares dar o seu voto, mas 
dal-o-ha de certo. 



A Comedia de Lisboa 



Não se dirá que, no Portiig-al do século xix, 
um homem que deixa o seu nome á historia, lega 
o seu cadáver ao hospital. 

A respeito da pensão a Santos fallou-se, não 
sabemos bem porque, em generaes. 

Sem queremios de forma alguma menospre- 
zar as glorias militares e prestando homenagem ao 
numerosissimo corpo de generaes com (jue Por- 
tugal se enfeita, não comprehendemos bem o que 
vêem os generaes fazer a esta questão d'artistas. 
Se é peio mérito dos senãços. provamos com a 
historia na mão, que é muito mais fácil comman- 
dar um regimento do que representar bem um pa- 
pel. A lista dos bons generaes excede espantosa- 
mente a dos bons artistas, o que diz com toda a 
eloquência das estatísticas, que é preciso muito 
mais merecimento para matar Adélia do que para 
commandar manobras. 

E no fim de contas, ainda que assim não fos- 
se, nós, com a mão na consciência, confessamos 
ingenuamente que preferíamos n'um casits bel li 
vêr o actor Santos a commandar um corpo de 
voluntários ou Lucinda Simões á testa d'um ban- 
do d 'amazonas, do que nas taboas d'um palco o 
snr. Rego a suspirar os amores de Romeu, ou o 
snr. visconde de Sagres ter os desesperos fataes 
de Antony. 



BAILES, SOIRÉES, PARTIDAS 



Oiieriamos ter a impassibilidade fria do liis- 
toriador para escrever este folhetim. 

Desejávamos tratar d'alto o assumpto, g'ene- 
ralisal-o, sem ceder a influencias individnaes ; mas 
não podemos. 

Somos frágil, e temos ainda na memoria, a 
adormecer-nos, a recordação fastidiosa do Ijaile 
de terça-feira, e nas barbas, a dar-nos reminis- 
cências alegres, o perfume vario das aguas chei- 
rosas com que nos borrifaram mãos gentis na par- 
tida de ante-hontèm. 

Duas recordações differentes; uma que nos 
faz bocejar, outra que nos faz sorrir. 

E somos tão francos, tão leaes, que confessa- 
mos ingenuamente as nossas impressões intimas 
antes de entrarmos solemnemente no assumpto do 
folhetim. 



A Comedia de Lisboa 179 

Ha um provérbio popular que diz na sua lin- 
guagem simples «muita gente junta não se salva». 

Alteremos-lhe um pouco a forma sem lhe al- 
terar a verdade: — «Muita gente junta não se 
diverte». 

Os bailes são um divertimento essencialmente 
externo. 

A g-ente do baile diverte-se por fora. 

E' tudo postiço, as tranças das senhoras, o es- 
pirito dos homens, o riso das contradanças, os de- 
lirios da walsa, o enthusiasmo das conversas, os 
appellidos dos vinhos que apparecem nas cêas. 

E para continuarmos a ser sinceros, confesse- 
mos que falíamos de^xjis d'uma cêa em que nos 
appareceram apenas pseudonymos. 

Imagine-se um jornal collaborado por Jaymes 
Josés, e firmado pelos nomes de Mery, de Du- 
mas, de Sandeau, de Janin. 

A cêa do tal baile foi isso : o azedo do estô- 
mago engendrou o azedo do espirito. 

E' a grande lei fatal das relações da psycho- 
logia com a physiologia. 

Que nos atire a primeira pedra aquelle que 
nunca foi logrado pelo menu d'um baile. 

O logro da cêa estende-se invariavelmente por 
toda a festa. 

Tudo aquillo é para figurar nos high-lifes; o 
nicini e a animação. 

Xinguem que se quer divertir dá em sua casa 
um baile. 



i8o A Comedia de Lisboa 

E' por isso que elles vão passando de moda. 

Os bailes não são um divertimento, são uma 
ostentação. 

As mulheres contorcem os pés dentro d'uns 
sapatos, muitas vezes cheios de callos e de calotes, 
contorcem o corpo dentro d'um espartilho, contor- 
cem o espirito dentro do Manual do bom tom. 

Os homens apresentam peitilhos e conversas 
eng(jmmados pelo ferro d'engommar e pelo bronze 
da rhetorica, velho como um pataco de D. João v i . 
e estão todos alH a trabalhar para os que não vão. 

Os bailes são espectáculos para quem fica em 
casa. Quem os dá o que quer é uma longa lista de 
nomes illustres ; quem os concorre o que ambicio- 
na é figurar n'essa lista. 

E' uma dupla pose que se estende por inter- 
mináveis horas, bordadas de bocejos, como uma 
\elha mala-posta pelas extensas estradas antigas. 

As mulheres vão lá para se mostrar, os ho- 
mens para vêr e ser vistos. 

A alegria é falsa como a brancura dos hom- 
bros nús. Pós de arroz sobre a cútis, pós de rhe- 
torica sobre os espíritos. 

Não ha nada mais cómico do que uma contra- 
dança. Desde a primeira phrase mais ou menos 
temperada de grammatica com que se pede uma 
senhora para dançar, até ao post-scriptum com 
que se lhe agradece a honra, é uma comedia cheia 
de gargalhadas. 



A Comedia de Lisboa " i8i 



Os sorrisos engatilhados durante as marcas es- 
túpidas, acompanhadas pela orchestra ruidosa, que 
contende com os ner\os, as phrases feitas sobre os 
assumptos actuaes, as amabilidades que a tradi- 
ção transmittiu de geração em geração, são tudr) 
o que ha de mais cómico no mundo. 

A Aida, a bella opera de Verdi, tem sido ago- 
ra esphacelada em todas as danças graves que se 
teem passeado pelas salas luxuosas. 

Os bailes principiam por ter sempre uma casa 
própria, uma casa especial que se abre só para is- 
so, como um templo se abre para a missa ou uma 
tina para o banho. 

E' uma casa que se abre apenas para o acon- 
tecimento e que tem uns ares de bafio e de solem • 
nidade que gelam as alegrias mais joviaes. 

Deix)is é tudo regrado, pautado, como uma 
ceremonia litúrgica. 

A capa d'asperges é a casaca preta ; as esto • 
las, os collos nús. A' meia noite ha vontade de 
walsar. — Não, senhor, dança-se uns lanceiros que 
é o que está marcado em letras de cartaz na or- 
chestra, que urra como as feras do circo de Price 
antes da sua refeição nocturna. 

Os pares são regulados por canicfs escriptos a 
lápis, por ordem d'inscripção, como os lugares de 
secretario de embaixada. 

A's vezes, por uma raridade, está-se n'uma 
conversa deliciosa: o cornetim guincha, um sujeito 



i82 A Comedia de Lisboa 



engravatado e ceremonioso aproxima-se da nossa 
interlocutora e ella lá vai pendurada ao braço 
d'elle. com a vontade com que um lugar importan- 
te vai cahir ás mãos d'um idiota, pela ordem da 
antiguidade. 

Acha-se um par alegre, encantador, que tem 
uma conversação que nos agrada, um espirito que 
nos prende. 

A etiqueta manda expressamente que não se 
dance senão uma vez com ella : que dancemos com 
todas excepto com aquella que nos alegra ; que a 
deixemos dansar com todos, excepto comnosco 
que a comprehendemos. Se se é noivo póde-se 
dançar duas ou três vezes, se se é marido, nem 
uma por causa do ridículo. 

Oh! abençoadas partidas intimas, em que a 
gente pode dançar uma noite toda com quem 
quer sem ter de olhar para o compendio de civi- 
lidade, e para as más linguas estúpidas que for- 
mam essa cousa monstruosamente imbecil, que se 
chama conveniências sociaes. 

As soirées são bailes pequenos com a única 
differença de que nos ix)upam a audição das or- 
chestras desafinadas, e a vista dos ossos descar- 
nados dos pescoços das damas lisboetas. Nas 
soirées, as gazes escondem os ossos e os Macarios 
substituem as orchestras. 

São miniaturas dos bailes e teem d'elles os ri- 
dículos sem ter a ostentação. 



A Co mi; DIA DK Lisr.oA 183 

Mas as partidas intimas, as partidas! é que 
são a nnica forma possivel dos divertimentos sãos. 
francos, alegres. 

Xão ha salas especiaes para ellas : ha as casas 
onde se está sempre, umas casas confortáveis, riso 
nhãs, cheias da vida de todos os dias. da vida 
fácil, despretenciosa, honesta e boa. 

Xão ha ceremonias imbecis, ha alegria expan- 
siva. 

Não se vê a carapinha i>enteada do Macário 
ao piano; alli, como na vida real, são todos maca- 
rios uns dos outros 

Dança-se o que se quer e quando se quer ; não 
se fazem phrases. não se está a poser ante a socie- 
dade ; está-se francamente para se passar uma noi 
te bem, contente, commodamente. 

A^as contradanças não ha o pautado estupid-) 
da dança ceremoniosa. Não se vê pendurado em 
cada olhar grave o Justino Soares com a sua ha- 
dinc e os seus sapatos engraxados. A dança não 
é alli um sacerdócio, é um divertimento ; falla-se 
d'um lado para o outro, ri-se. palra-se. dizem-se 
cousas joviaes. sinceras, divertidas. Não ha a 
l)reoccupação dos que estão em casa e dos que 
lêem o jornal. 

Nos bailes a gente di\erte-se por fnra ; nas 
l)artidas diverte-se por fora e por dentro. 

Quando se sahe de lá está-se alegre, bem, sau- 

IJ. 



184 A Comedia de Lisboa 

(lavei como quando se acaba de lêr um bom livro 
honesto. 

A vida parece-nos uma cousa excellente. ador- 
mecemos felizes, e temos sonhos côr de rosa no 
nosso somno tranquillo. 

No dia immediato não se procura no jornal a 
descrií^ção da festa, procura-se em casa a repeti- 
ção d'ella. 

Os bailes dão-nos a immortalidade nos noticiá- 
rios, ellas, as despretenciosas, dãxD-nos a alegria 
na familia. 

Elles dão-nos a popularidade estéril das salas, 
ellas, a felicidade tranquilla do lar. 

Os bailes são paginas de Gavarni, as partidas 
intimas capítulos de Júlio Diniz. 

Que este meu folhetim vá cahir como uma 
maldição sobre o baile de terça-feira. e estender- 
se como um humilde l^ilhete de visita sob a porta 
que se me abriu ante-hontem ! 

29 de fevereiro de 1878. 



SEQUNbfl PARTE 



o NAMORO 



llsqueleto permanente da t.'" comedia d'essa trilogia fatal 
da familia, no ultimo quartel do século xTx, em Por- 
tuaal — O namoro — Casainetito — Divorcio. 



Prologo. — A' missa do dia n'iim dos tem- 
plos caiados de Lisboa. 

Ell.\. no corpo da igreja, encontra fitos em 
si os olhos amorosos d'KLLK, que. encostado á 
poria da sacristia, ])ratíca ao mesmo tempo a re- 
ligião do amor e o amor da religião. Tornam-se 
a olhar, e outra vez, e outra, e outra. O sacer- 
dote murmura o Ite missa est. 

Rll.v fecha o livro. Elle lustra com a man- 
ga o chapéo alto de pello luzidio. A' [X)rta encon- 
tram-se e coram. Kt.t.k segue-a. KivI,.k vem á ja- 
nella. Eivi^K passa, olha. volta-se para traz, torna 



i88 A Comedia de L,isboa 



a olhar, pára á esquina, e vai jantar. Está come- 
çado o drama. 

i.o ACTO 

Três dias depois (notas tomadas pelo Zephyro 
e por nm policia civil). A' meia noite. EiyivE passa 
vagarosamente como uma patrulha. Ella abre de 
mansinho a janella. 

EivivA. — Hum ! hum ! 

EivivK. — Muito boas noites, como está ? 

EiyivA. — Muito lioa noite. (Pausa). 

ElIvE (para dizer alguma cousa) . — Já não 
esperava ter o gosto de a vêr ! 

EivivA. — Porque, está ahi ha muito tempo ? 

EeIvE. — Não. Cheguei agora mesmo. 
■ Eeea. — Ah! (Pausa). 

EeeE. — Está uma noite lindissima. 

Elea. — Hein? 

EleE (elevando a 7'o^j. — Que está uma noi- 
te lindissima! 

Eeea. — 'Está.... (Pausa) Com licença. (Re- 
íira-se da janella e elle acccnde mu cigarro. D'alli 
a segundos) Era que tinha ouvido mexer no quar- 
to do papá. 

EeeE. — São essas duas janellas ao lado? 

Eeea. — Não, é lá para dentro ao pé da casa 
de jantar. , 

EeeE. — Ah ! 



A CoMiíoiA DE Lisboa 

Ella (depois de nirto silencio). — Estas duas 
janellas são a sala. 

Ei.i,K. — Mora aqui ha muito tem^x)? 

Ella. — Vai para três annos. 

ElIvE (qiic nunca passara por aquella rua). —- 
Admiro-me de nunca a ter visto á janella. 

Ella. — E' que eu estou sempre lá para den- 
tro. (Pausa). 

EllE. — Onde morava d'antes ? 

Ella. — Na rua dos Fanqueiros. 

EllE. — Que rua tão soturna! 

Ella. — Não acho. Gostava mais d'ella do 
que d'esta. 

EllE (a pedir fineca). — Agora também? 

Ella. — Agora não... está vossa senhoria 
aqui. 

EllE (contente e coiuiuovido). — Sente isso? 

Ella. — Como ? 

EllE. — Se sente... (Pára porque vai passan- 
do a patrtdha de cavallaria) Se sente isso? 

Ella. — Com licença. (Torna a desappare- 
cer, mas volta breve; cm i'oa muito baixa). — Até 
ámanhá. O papá ainda anda a pé ! 

EllE (afastando-se). — A' mesma hora? 

Ella (muito baixinho, fechando a janella) 
— Mais tarde! mais tarde! 



igo A Comedia de Lisboa 



NA NOITE SEGUINTE 



Eeea. — Veio mais tarde hoje ! 
EleE. — Não foi isso o que me disse ? 
Eeea. — Foi. 

Eele (ternamente). — Diz-me nma cousa? 
Eeea. — Se souber, digo. 
Eele. — Como se chama ? 
Eeea. — Theodolinda. 

Eeee (couio iiiii ecJw). — Linda. Foi muito 
bem posto. 

Eeea. — - E vossa senhoria, como é a sua 



graça ? 



Eeee. — Álvaro. 

Eeea. — Tem graça. E' o nome d'um sujeito 
que apparece n'um romance que estou lendo. 

Eeee. — Gosta de lêr? 

Eeea. — Muito. A's vezes quando o livro é 
interessante perco a noite até lhe chegar ao fim. — 
Olhe. ainda outro dia passei toda a noite a lêr A 
Castellã Sanguinária. Nunca leu? 

Eeee. — Nunca. 

Eeea. — Hei-de-lh'o emprestar. Quer? E' 
muito triste mas muito lindo. 

Eeee. — Eu agora estou a lêr também um 
muito bonito — O Regabofe. Tenho-o no escri- 
ptorio. 

Eeea. — Ah ! é empregado ? 

Eeee. — Sou. Na companhia das aguas. 



A Comedia de Ltsboa 191 

ElTvA (fazendo espirito) . — Então não passa 
sede. 

Elltí (galanfeador). — Se passo... sede de 
amor. 

E1.LA. — Como ? 

ElIvE (grifando). — S>èáe d'amor! 

Ella. — E' muito lisonjeiro. Falia verda- 
de?... Ai! lá anda o papá outra vez de pé. Com 
licença. (Desapparece). 

EllE (sem dar pelo desapparecimento ) . — 
Então não crê no meu affecto? Se soubesse como 
eu a amo, não é amor, é delirio, é... 

Elea (reapparecendo) . — E' o papá que está 
incommodado. Não me posso demorar. Até ama- 
nhã. (Fecho a janella). 

EivivE. — Então já?... 

TRINTA DIAS DEPOIS 

Scenario : — O Passeio Publico. Accessorios : 
— No céo a pallida confidente dos amantes, na 
terra o pallido empresário do Passeio : — ■ o snr. 
José Torres e a Lua. — (Ao pé do Douro: n'um 
jjanco Tbeodolinda com as suas amigas as meni- 
nas Guerreiros: no outro Álvaro, vendo dormir 
os cysnes. Periodo agudo. Lyrismos d'um banco 
para o outro). 

Theodoi^inda. - — Em que pensas? 



102 A Comedia de Lisboa 



AivVARO. — Que são bem felizes os cysnes em 
estarem dormindo ! 

Theodolinda. — Porque? tens somno? 

Álvaro. — Não motejes. Se elles estivessem 
acordados tinham de te invejar a alvura do teu 
collo. Pareço-me n'isso com elles. 

A MENINA Guerreiro. — N'isso e em mais 
cousas! O snr. Álvaro, como os cysnes, lida sem- 
pre com agua. Não é empregado no escriptorio 
da companhia? 

Theodolinda (escandalisada, baixo á ami- 
ga). — Cala-te. Vê lá se elle desconfia. (A Ál- 
varo) Não faças caso, a minha amiga está sem- 
pre a gracejar. 

Álvaro (of fendido). — Parece-me que se pô- 
de estar na companhia das aguas e ter coração. 

x\ AMIGA. — E sempre fresco. Bom para este 
tempo. 

Theodolinda (a Álvaro). — Quando arran- 
jas a transferencia? 

Álvaro. — Tomára-a já por ti. A tua tia' 
f aliou ao papá? 

Theodolinda. — FalloíL mas o papá diz que 
não se mette n'isso. 

Álvaro. — Deixal-o. Trabalharei sósinho. O 
teu amor dar-me-ha forças para A-encer. Depois 
c|uem me ha-de disputar a tua nião ! 

Theodolinda. — O papá não quer que eu 
case comtigo. A mamã ainda hoje me fez um 



A CoMKDiA DK Lisboa 193 



sermão, que a vida estava muito cara, que ia bus- 
car trabalhos por minhas mãos, que o tempo não 
estava para casamentos sem dinheiro, que éramos 
(Kias crianças, que pensasse bem no que fazia; eu 
sei lá. a lenga-lenga de todos os dias : eu só o que 
lhe respondi foi. que d'aqui a 4 mezes faço 21 an- 
nos, sou maior i^elo Código, e então que me pe- 
gassem com um trapo quente. 

Álvaro (com vo,': cava c estendendo-Uic a 
iJião).- — Obrigado... Vamos ouvir os guitar- 
ristas. 

Theodolinda a Álvaro 

Orido do meu curasão. 

Cá in casa sóberão tudo Un amigo du papá 
viunus a converçar-mos no paçeio. 

Ou\-eram musquitos por cordas, u papá ralho 
com a mamã i diçele cjue não qria que eu çaiçe 
mais CO as minhas amigas Guerreiros. Diçe tão- 
bem (jue tu eras un valdevinhos que não tinhas 
onde (juair morto, queras lui pilintra e a minha 
disgracia. Sei lá foi un lavarinto que çe me ferra- 
ram umas dores de cabesa imfernaes. tem do de 
mi meu qrido Álvaro, alembrate que és toda ami- 
nha fiecidade. Stou disposta a çufrer tudo por ti : 
mas agora hé preciso mais muderasão. stão todos 
á spreita. U que xale é que não adem venser. e 



104 A Comedia de Lisboa 

que isto está pro pouco, tumára jaca os 21. Se 
faltaçe mais tempo fugeria comtigo, pra me vêr 
livre dos mens tiranns. Não olvides a tua 

Thiodolinda. 

Al^VARO A ThEODOIvINDA 

Meu anjo adorado. 

Soffro por te vêr soffrer. D'aqui a quatro 
mezes, parará uma carruagem á tua porta, apeiar- 
se-ha d'ella um homem, subirá a escada, baterá 
á porta e irá arrancár-te legalmente, com o Có- 
digo na mão, aos teus tyrannos e arremessar-te 
para o thalamo que nos espera. vSe te amava até 
liontem. a coroa do martyrio, pobre anjo, dá-te 
uma aureola divina, hoje idolatro-te. Has-de ser 
minha, juro-te, apesar de tudo e de todos. Tenho 
por mim a vontade, a intelligencia com que Deus 
não me faltou, e o amor que tu fizeste desabro- 
char no meu coração. Até lá resignação. Tenho 
fé, esperança. Coragem. Teu para a vida e para 
a morte 

Álvaro. 

o DIA DA MAIORIDADE 

Foi um dia de festa triste. Até então os annos 
de Theodolinda, para os pães, eram uma alegria; 



A Co.Ml.lllA J)l-; LlSBUA I'J5 

iTesse dia foi um desespero. Houve o arroz doce 
de todos os annos. mas não houve os sorrisos. 
Quando se estava á sobremesa bateram á porta: 
era o Código. 

Sua exc.a entrou de casaca e gravata preta, 
solemne, grave, como quem vai fazer uma asneira 
eterna. 

O pai de Theodolinda recebeu-o seccamente, 
disse-lhe que não dava o seu consentimento, por 
sua filha e o pretendido noivo só se conhecerem 
das conversas nocturnas, por ambos serem crian- 
ças, por elle não ter com que sustentar a familia. 
etc, mas que o seu consentimento não vaHa de 
nada em face da lei que alli estava de casaca, <" 
que sua filha casaria querendo, mas que o noivo 
só entraria em casa na véspera do casamento. No 
meio do seu discurso, o pai ausentou-se por mo- 
mentos, porque estava incommodado. Findo elle, 
o homem de casaca retirou-se ; a filha chorava e 
sorria ao mesmo tempo, o pai ficou triste e a boa 
mãi chorava sem sorrir. 

Álvaro estava contente como os russos depois 
de passarem os Balckans ; tinha sete tostões por 
dia e uma noiva. O caso não era para menos. 



D'alli a dias o noivo entrava em casa. Houve 
lagrimas, scenas de familia, e á noite jogou-se o 
loto. Xo dia immediato casaram e foram passar 



iijG .V Comedia de Lisboa 

o dia a Queluz. O pai de Theodolinda, vendo que 
não podia ser dique, foi jangada. 

Álvaro conhecia sua mulher pelas cartas e pe- 
los diálogos nocturnos ; ella vira sempre seu ma- 
rido d'um segundo andar e através d'uns sonetos 
(Tum jornal litterario. 

E' este o padrão, com ligeiras variantes, de 
todo o namoro burguez. E' assim que se vai á 
igreja e mais tarde da igreja para a Boa-Hora. 
O casamento assente n'estas bases começa no guia 
dos namorados e acaba no Código civil. 

E' por isso que no fim d'um anno tantos mari- 
dos pedem o divorcio, sem contar a infinidade 
d'ac[uelles qíic o não pedem. 



o CASAMENTO 



Hymeneu ! Hymeneu ! Hymeneu ! 
Cantata 2-]. 



NO QUARTO DE THEODOLINDA 

(A um canto a pobre cama de ferro abandona- 
da. Os lençoes abrem-se em desalinho triste e cho- 
ram rojando-se pelo chão, melancólicos como uma 
casa com escriptos. Por todos os lados grande 
confusão. O linho alveja sobre as cadeiras com 
as suas grandes letras marcadas a cores salientes, 
com as suas rendas caprichosas e os seus borda- 
dos cheios de phantasia e de abertos. No ar an- 
dam milhares de aromas confusos, o do sabonete 
d'ambar que enche de espuma a bacia, o do opo- 
ponax que assombreia de ligeiras nódoas ama- 
relladas os lenços e as roupas do dia, a violeta 
do pó d'arroz que cobre os hombros e os braços 



IijS A COilHUIA DE LiSUOA 

(la noiva como a poeira microscópica das azas 
das borboletas, o almíscar das velbas gavetas que 
não conbeciam até esse dia acjuelles aromas ca- 
ros! Sobre uma cadeira está aberto, como a cau- 
da d'um grande pavão negro, o vestido de seda 
vindo na véspera da modista e que. quando se 
lhe toca, tem ainda todos os frémitos da seda 
nova : além, sobre um cabide de papelão, um cba- 
péo, ultimo modelo, todo branco e guarnecido dos 
ramos symbolicos de flor de laranjeira. Em fren- 
te do toucador Theodolinda, embrulhada n'um 
grande penteador branco, já toda preparada para 
a ceremonia, só espera que a cabelleireira lhe dè 
alta para envergar o vestido preto). 

Theodolinda (toda nervosa c impaciente): 
— Ainda falta muito, snr.^^ Clara? Parece-me que 
lá parou uma carruagem... 

Clara. — Não tenha pressa que elle não 
foge... 

A MENINA Guerreiro. — I)eixa-o esperar, 
os homjns quanto mais esperam mais gostam. 

Theodolinda. — Não é por isso, mas é já 
tarde. O' menina, dá-me d'alli a trança nova. 

Clara. — Ainda quer pôr mais outra? 

A :\iENiNA Pimenta. — Credo. Ficas com 
uma cabeça enorme. 

Theodolinda. — E' para assentar melhor o 
chapéo. 



A Comedia de Lisboa 199 

A MENINA Guerreiro (com a trança). — O' 
íilha, onde a compraste, foi no Godfroid? Estes 
cabellos duram pouco... 

ThEodolinda. — E' do Baron, tinha lá com- 
prado a cuia... 

A MENINA Pimenta (deixando desenrolar o 
cabcllo por acaso para mostrar que não é postiço). 
— Dás-me um gancho ? Quem me dera ser como 
as meninas... incommoda-me tanto o cabello! 

Clara. — Sim, mas este sahe mais caro. Uma 
trança d'estas não custa menos de três quartinhos. 

A menina Pimenta. — Mas quando faz calor 
tira-se e é um allivio. 

A mãi de ThEodolinda (entrando já de pon- 
to em branco). — O' menina, olha que já lá está 
o trem. 

Theodoeinda. — Já vai, mama, eu não me 
posso vestir pelo ar. 

A menina Guerreiro, t— Al viçaras ! Alviça- 
ras! Ahi está o noivo e o padrinho, é ainda um 
rapaz e não é feio. 

Clara (limpando as mãos). — ■ Prompto! (Le- 
vantamento geral). 

O PAI DE Theodolinda (entrando afoguea- 
do com o habito de Christo mi mão). — O' me- 
nina! O' menina, põe-me aqui o habito na ca- 
saca. 



15 



A Comedia de Lisboa 



A PORTA DA RUA 



Todos OS garotos do sitio estacam embebeci- 
dos ante as rosetas dos cavallos do cotipé dos noi- 
vos ; ante as luvas de meia e o coUete encarnado 
do trintanario da companhia. Nas janellas todo 
o mulherio da visinhança espera com anciedade e 
inveja a sabida da boda. E' uma festa na rua. 

Uma visinha do 2.0 andar (para a do S-^\) 
— Ao menos agora acabaram os gargarejos. 

A DO 3.0 ANDAR (que não podia atirar pedras, 
segundo o Bvangelho). — Acabaram não, inter- 
romperam-se. 

A VISINHA DO 2.0 — ^Ah! ah! ah! 

A DO 3.0 — As anginas são doenças muito 
teimosas. 

O ESTANQUEIRO DA ESQUINA (para a visinha 
do lado) . — Lá cahe mais um no laço. 

A VISINHA. — Casa a sede com a fome. EHe 
não tem nada, o meu homem conheceo-o. 

O BARBEiÇ-O. — Eu não sei porque ella lhe pe- 
gou. Elle é uma fraca figiu-a... Não tem nem 
ponta de barba... 

A ENGOMMADEIRA DA LOCALIDADE- E ella 

é também uma lambisgóia : não tem senão fiducias. 

O ESTANQUEIRO. — Isso é de familia. O pai 
também tem uma proa... 

A VISINHA DO 3.0 — Lá vão sahir! lá vão sa~ 
hir! 



A Comedia de Lisboa 201 



O ESTANQUEIRO. — Bem dizia vossemecê, sr.?» 
Eiigracia. a madrinha é a tia d'ella. 

O BARBEIRO. — O padrinho é figurão — vai 
todo cheio de fitas. 

A DO 3.0 — E' como os cavallos do trem. 

O BARBEIRO. — Olhem, olhem. Ella vai bem 
Nem parece a mesma. 

A DO 2.0 ANDAR. — Que chapéo tão exquisito ! 
aquillo será moda agora?... 

O ESTANQUEIRO. — Mesmo assim vai muita 
gente, sete trens com convidados... 

A DO 2.0 — E aquillo não se faz com pala- 
vras... Quem puxará j>ela bolsa? 

A DO 3.0 — O pai não é... onde não ha... 

O ESTANQUEIRO. — El-rei o perde... Os meus 
((patriotas» que o digam. 

A ENGOMMADEiRA. — E as saias que por lá 
me andam. 

A DO 2.0 — A mãi vai a chorar, não viu ? 

A DO 3.0 — Por um olho ervilhas, por outro 
lentilhas. 

O ESTANQUEIRO. — Aquillo é para se dar 
ares... E o pai com o pindro.calho... forte pas- 
palhão ! . . . 

E os noivos partem para a igreja levando com- 
sigo as bênçãos de toda a visinhança. 



A Comedia dE Lisboa 



NA IGREJA 



Um primo do noivo, colla1x)rador obsequioso 
dos jornaes de lo reis, anda a perguntar a toda a 
gente os nomes para pespegar com elles no high- 
life, em quanto na sacristia se assignam os regis- 
tros. — A noiva olha ternamente para o noivo ; 
aproxima-se e diz-lhe baixinho : 

— Ainda me parece um sonho. 

ElIvE (cm confidencia). — E' verdade. 

A menina Guerreiro não tira os olhos do padri- 
nho. — O primo noticiarista e sceptico diz graças 
ás mulheres, faz ditos sobre o ceremonial religioso. 
A mãi de Theodolinda chora sinceramente ; Theo- 
dblinda faz beicinho quando diz : Recebo a vós por 
meu legitimo marido. Álvaro embatuca. O pai 
rompe o choro em forte, as meninas Guerreiros e 
Pimentas acompanham -no em oitava alta. — O 
primo sorri, o sacristão commove-se e pede grati- 
ficação. Roma está satisfeita e sahem todos da 
igreja presa de vários sentimentos, mas d'um pen- 
samento único — o Innch. 

Aevaro (ao scnfar-se tio coupc ao lado de 
Theodolinda, apcrta-lhc a mão com uma ternura 
que lhe arrebenta a luva e niurmura-lhe commo- 
vido ao ouvido como que n'unt beijo): — Ainda 
me parece um sonho! 

Ella (toda vermelha e em voz baixinha). — 
E' verdade. 



A Comedia dr Lisboa 203 



O COPO D AGUA 



A' chegada da igreja repete-se na visinhança 
a mesma scena com pequenas variantes. Os con- 
vidados saltam ligeiros dos seus carros para assis- 
tirem ao apear dos noivos. As meninas Guerrei- 
ros e Pimentas fazem grupo, conversam em voz 
baixa, por meias palavras, têm sorrisos e olha- 
res onde a malicia se cruza com a inveja. 

Theodolinda aj^êa-se da carruagem nupcial 
muito corada, recebe os comprimentos de todos, 
os olhares impertinentes das amigas que buscam 
através da \ermelhidão das faces o signal do pri- 
meiro osculo conjugal, ouve um segredo que a faz 
corar mais ainda, da sua amiga intima, a menina 
Guerreiro, e corre ao seu (juarto a trocar o seu 
vestido solemne i>elo vestido fresco e alegre do 
passeio ao campo. 

Na sala aninham-se todos com as suas casacas 
de varias épocas e differentes estylos. Os criados 
do snr. Mathias Ferrari passeiam pela casa umas 
montanhas portáteis de trouxas d'ovos, pastilhas e 
tlôres de papel, tendo no centro, a fluctuar, uma 
bandeira portugueza de papelão nas mãos d'um 
anjo de massinha. — Outros offerecem vinhos de 
diversas cpialidades : Arintho, Carcavellos, Porto 
de 1850. Desapparece tudo n'um momento, vi- 
nhos, trouxas d'ovos, pastilhas, flores, até os an- 
jos de massinha com a l)andeira de papelão. Ha 
estômagos ferozes. 



204 A Comedia nt Lisboa 

A menina Guerreiro tem feito já amplo conhe- 
cimento com o padrinho commendador, e riem, 
a bandeiras despregadas, cochichando baixinho e 
analysando os versos das pastilhas. O primo noti- 
ciarista começa a entrar pelos vinhos, e a massar 
o pai da noiva sobre a solemnidade do dia. 

Theodolinda entra triumphante com a sua foi- 
Icttc de campo. Traz mais pó d'arroz e menos ca- 
l)ello. Álvaro, habituado nos theatros particulares 
a mudar depressa de fato, troca n'um momento as 
calças e a casaca preta por um costume de linho 
novo e engommado com ás dobras profundamente 
accentuadas. Os padrinhos e convidados correm 
todos ás casas próprias a vesti rem-se para a partie 
de plaisir, dando-se rcnd.ez-vons na Porcalhota 
para depois seguirem debaixo de forma para 
Queluz. 

Theodolinda e Álvaro entram risonhos para o 
coiipc tradicional dos noivos, um coiipé que faz 
lembrar os oaixÕes baratos, que envelhecem no la- 
borioso mister de levar cadáveres para o cemitério. 
Atraz do coupc segue a carruagem com o pai, a 
mãi, e as meninas Guerreiros. Os carros rodam, c 
o barbeiro que vem de casa crum freguez, tem n:i 
rua um sorriso malicioso ao encontrar o coupc com 
as cortinas verdes corridas... 



\ Co\rT:niA DK LíSHOA 



EM QUKI,UZ 

Xa Porcalhola lia unia demora de \iiilc minu- 
tos. Ouem SC faz esperar é o primo, cjue por iim 
a])i)arcce sósinho n"uma victoria de batedor, apa- 
nhando todo o Sí>] para se mostrar l)em a (jueni 
passa. A iiocc tem-se apeado toda; os homens l^e- 
l)em agna com jn-enel)ra e assucar, e as senhoras 
sangTias. 

O noivo e a noiwa distingucm-sc do resto por 
bel)erem pelo mesmo copo. 

O PRTM(~» (entrando c indo de grupo a grupo). 
— Esper.aram ])or mim? Foi o carro (jue atropel- 
lou no Chiado um aguadeiro. (Felizmente para o 
aguadeiro era mentira...) Venha genebra, gene- 
bra só... Ha um mez que estive acjui. .. mas n'esse 
dia n<ão \inha S('>sinho como hoje. 

O cocHKiRo DOS NOIVOS (quc cstavã dando 
pão aos cavaUos). — Vim eu com v. s.^, lembra- 
me perfeitamente. N'esse tempo ainda eu era co- 
cheiro dos omnibus do Ezequiel. 

C) primo engole a genebra. 

Segue tudo para ()ueluz''alinhado como n'um 
enterro. Assaltam o hotel da Malveira, onde o 
pai de Theodolinda mandara fazer, com oito dias 
de antecedência, um jantar todo delineado por elle, 
para ser bem servido. Antes de jantar passeio á 
Quinta Real. 

Theodolinda e Álvaro de braço dado, correm, 



2o6 A Comedia de Lisboa 



como dons pastores de egloga, pelas compridas 
ruas de buxo. As nymphas mutiladas e negras fa- 
zem-lhes caretas do alto dos seus pedestaes envol- 
tos em hera. Theodolinda arranja oráculos nas 
margaridas que atapetam o chão, e Álvaro furta- 
Ihe beijos e diz-lhe graças. 

Os convidados andam todos arrebanhados a ve- 
rem a quinta. O primo faz g}'mnastica nos tron- 
cos das arvores, e quando passa por algum bosque 
mais solitário diz com ar triumphante : 

— Que saudades que tenho d'aquelle banco ! 

A menina Pimenta não faz senão procurar a 
noiva. A menina Guerreiro vai melancólica ao 
lado do padrinho commendador. Falia na lingua- 
gem das flores, na poesia do campo, na briza que 
murmura segredos por entre as verdes folhas das 
arvores, na lympha que susurra, no sol que brinca 
como uma criança douda com as aguas dos lagos 
e com as azas douradas das borboletas. 

As mães vêem mais atraz cançadas e procu- 
lando bancos. A' falta d'elles a madrinha, que é 
de feição, levanta a saia do vestido e senta-se so- 
bre a relva em frente da cascata. Todos a imitam. 
O pai de Theodolinda conferenceia com os an- 
ciãos para mandar deitar agua da cascata. Re- 
solve-se a surpreza e de repente a cascata encharca 
todas as damas sentadas mais próximas. Muitas 
gargalhadas, protestos e amuos das victimas. Vai- 
se jantar, mas antes é preciso visitar o palácio, a 
sala do throno, e a cama do imperador. 



A Comedia nR Lisboa 207 



A' mesa ficam os homens todos d'um lado, as 
(lamas do outro ; as duas alas ligam-se 110 alto da 
mesa por Álvaro e Theodolinda, e do lado oppos- 
to |)ela menina Guerreiro que teve a habilidade de 
ficar ao pé do padrinho. 

A sopa, d'estrellinha, corre silenciosa. Os cro- 
(|uetes começam a despertar um murmúrio. As 
damas mais idosas começam a beber o vinho de 
Collares pelas taças de champagne, e acham aquel- 
les copos mais commodos. Cada conviva começa 
a conversar com o seu visinho. Entre a lingua gui- 
sada e os frangões de fricassé, Álvaro diz a Theo- 
dolinda ai)ertando-lhe a mão por debaixo da mesa : 

— Ainda me parece um sonho ! 

— E' verdade ! responde-lhe ella avançando 
para uma perna de frangão. 

A animação torna-se geral ao apparecer a sa- 
lada de lagosta: os ditos cruzam-se d'um para ou- 
tro lado da mesa. 

— Lagosta, Álvaro ! grita do meio da mesa o 
primo. 

Grandes risadas : as garrafas vão estando des- 
pejadas e os estômagos cheios : a menina Guerrei- 
ro faz uma. subscripção entre todos os frangãos 
para arranjar corações para o padrinho commen- 
dador, que, segundo ella affirma, parece não ter 
coração. 

— Dê-lhe antes lingua, grita como um possesso 
o primo noticiarista. 



2o8 A Comedia de Lisboa 

Theodolinda come triumphalmente de tudo e 
Álvaro imita-a com vantagem. 

Os ditos picantes, as allusÕes pouco vendadas, 
as graças gaulezas atravessam a mesa em todas 
as direcções como girandolas de foguetes. O peru 
recheado apparece altivo sobre a sua immensa tra- 
vessa. 

As rolhas do champagne estouram, o vinho 
ferve nas taças. 

— Este vinho parece-me azedo, faz tanta es- 
puma ! observa ingénua e judiciosamente a ma- 
drinha... 

Depois o arroz doce, o leite creme, as saúdes 
sem fim. e os discursos sem fim nem principio, as 
fructas, tudo isso se mistura com uma vozeria e 
gargalhada indescriptiveis; por fim o café e o co- 
gnac. O primo vai ao piano e arranha um fado ; 
a menina Guerreiro pede ao padrinho para recitar 
uma poesia : a maioria reclama uma walsa ; tudo 
dança : o noivo aperta com anciã a cintura da 
noiva : a menina Guerreiro dependura-se no com- 
mendador : os pães e as mães também dançam ; 
o primo vai á cozinha tomar soda : ás dez horas 
retira tudo para a cidade, tudo alegre, farto e coni 
som no. 

O primo quer por força guiar o trem dos noi- 
vos e tral-os aos SS pela estrada fora como se 
viessem a pé. 



A Comedia di; Lisboa 20q 



A DESPEDIDA 

I{m casa do ]iai de 'Pheodolinda apca-sc tudo: 
ahraçani-se todos. I)eiiani-sc c ha grande abun- 
dância de licor de rosas e de las^rimas. 

A menina Guerreiro despede-se do padrinlio 
commendador dizendo que ás quatro horas espera 
sempre á janella cpie o papá venha da repartição. 
Os noivos partem sós para a sua casa com o cora- 
ção a trasbordar d'amor e o estoma^-o a trasbordar 
de fran^ão e de lagosta: e (juando Theodolinda. 
ao a])ear-se em casa, murmura ao ouvido do noivo : 

— Ainda me parece um sonho! 
Álvaro rcs])onde-lhc : 

— Kntra tu (|ue eu vou alli á botica buscar 
soda ! 

o ACORDAR 

Xo dia immediato. quando lá para o meio dia 
a criada entrou no quarto a levar-lhes o almoço, 
encontrou ambos abatidos, desfeitos, cadavéricos. 
Theodolinda estava branca como a cal e tinha dous 
s^randes círculos negros em redor dos olhos amor- 
tecidos. Álvaro tinha os olhos brilhantes, as faces 
incendidas — as rosetas da febre. 

A criada ao vcl-os ia a sorrir mas estacou. 

Aquellas olheiras profundas não as cavara o 
amor, desenhára-as a indigestão. 

Os papeis azues e brancos das sodas estavam 



A Comedia de Lisboa 



abertos e vazios ao pé dos copos mal despejados. 
Em cima do toucador, a um canto, o ramo de 
flor de laranjeira, de Theodolinda, parecia sorrir 
ironicamente cheio de desdém! 



o DESQUITE 



A NUVEM 
O 1'RIMEIRO ANNIVERSARIO DO CASAMENTO 

Jantar de festa em casa do pai de Theodolinda. 

A mesa abre o mais que pôde as suas abas 
para receber o extraordinário numero de convivas, 
que n'esse dia lhe cahe em cima. 

As toalhas de barra escarlate empregam toda 
a sua boa vontade em crescer para poderem abran- 
ger a mesa, mas no fim de tudo têm que reconhe- 
cer que, se é verdade que «a união faz a força», 
não o é menos que «a união faz o comprimento». 

A mãi de Theodolinda, as meninas Pimentas, 
as madrinhas e as criadas respectivas, que tem 
acompanhado, de chalé e chapelinho, as suas pa- 
troas, lidam com azáfama em pôr a mesa. 

Um relógio dos que se vendem na rua Nova 
do Carmo e que tem cuco e dão horas, tudo pelo 



A Comedia de Lisboa 



módico preço de dons mil e quinhentos, marca 
três e meia, pendurado por cima d'um aparador. 
Os guarda-louças de estylo antigo escancaram as 
suas portas de vidro em xadresinho, pondo á dis- 
posição do jantar os seus thesouros da Vista 
Alegre. 

As madrinhas, com os vestidos de seda arrega- 
çados e presos com alfinetes á cintura, andam com 
as suas saias engommadas e lustrosas dum lado 
para o outro a dispor as fructas. 

As meninas Pimentas, com uma despreoccu- 
pação elegante pelo fato, fazem letras de canella 
em cima do arroz doce. corações bicudos e gra- 
ciosas allusÕes symbolicas á festividade. 

As criadas vão e vêem dos quartos de dormir 
dos donos da casa, carregadas com as bandejas de 
bolos, os pratos de pasteis e as tortas de maçã. A 
mãi de Theodolinda grita-lhes regularmente de 
cinco em cinco minutos : — «Fechem as portas, 
não vá o gato aos chapéos». 

Na cozinha a cozinheira com a cara esgazeada 
até cá raiz dos cabellos e as mangas arregaçadas 
até aos sovacos pÕe em linha de combate as ter- 
rinas, pratos cobertos e travessas e passa a ul- 
tima vista d'olhos e de colher aos guisados fu- 
megantes. 

Três ou quatro pequenos endiabrados, andam 
cheios de gulodice pela chaminé a farejar os pi- 
téos, cjue ó estômago já lhes reclama, 



A Comedia de Lisboa 213 

Na sala Theodolinda toca á primeira vista 
n'nm piano de armário um pot-poiírri da Traviata, 
que vem na Grande soirce de que é assignante o 
papá. A menina Guerreiro está á janella com o 
Diário de Noticias na mão, olhando impaciente 
para a esquina á espera de vêr surdir aquelle pa- 
drinho condecorado, que viu pela primeira vez ha 
um anno. e que desde então para cá lhe tem cus- 
tado já algumas lagrimas e muitas estampilhas. 
O pai de Theodolinda conversa em politica estran- 
geira com o pai das meninas Pimentas que é rea- 
lista e surdo. 

De repente batem á porta. Grande alvoroço. 

— Naturalmente é teu marido ? — diz o pai 
de Theodolinda. 

— Será ellef — pensa anciosa a menina Guer- 
reiro. 

— Vão vêr quem é ! — berra a mãi de Theo- 
dolinda ás criadas. 

E' o primo noticiarista, seguido (Fum gallego 
com um grande embrulho á cabeça. 

Esse embrulho é a nuvem. 

O primo entra rapidamente para a casa de 
jantar: chama a mãi de Theodolinda ao quarto, 
tirando o embrulho da cabeça do gallego. 

Faliam em voz baixa; a mãi sorri, o gallego 
vai-se embora, e o ]irimo vem dar o toque de mes- 
tre á mesa posta e vai á cozinha delinear a ordem 
do jantar, muito contente çomsigo por vêr a in- 



_'i4 A Comedia de Lisboa 



fluência da imprensa no seio ou antes no estômago 
da familia. 

— Ahi vem elle ! ahi vem elle ! — grita n'um 
brado espontâneo a menina Guerreiro. 

— Ah ! é o Álvaro ? já era tempo ! — diz o pai 
de Theodolinda, bocejando com fome. 

A menina Guerreiro faz-se muito corada e re- 
tira-se da janella. 

A ix)rta abre-se e entra o snr. Silva, o padri- 
nho condecorado. Falia a todos com cara de ho- 
mem superior e senta-se ao lado da menina Guer- 
reiro, sympathico, mas silencioso. 

— O Álvaro vai-se demorando, são já perto 
de quatro horas! — diz o pai de Theodolinda. 

A MÃi (qiic vem entrando). — O jantar já está 
prompto; é só pôl-o na mesa. 

Theodolinda toca com fúria de mais e notas 
de menos o Addio dei passato. 

A menina Guerreiro faz perguntas em voz res- 
mungada ao senhor Silva, arrancando-lhe de vez 
em quando um monosyllabo risonho. As meni- 
nas Pimentas e as madrinhas vem tudo para a 
sala. 

O primo noticiarista entra na sala alegre como 
uma alvorada de maio, ri para todos, senta-se ao 
pé do piano, cantarola a Tramata e accende um 
charuto. 

Theodolinda sorri-lhe, e a mãi pÕe-lhe ao pé 
um escarrador. 



\ COMKDIA DlC LlSUOA 215 



Finalmente a|)parece Álvaro. Vem cançado do 
tra])alh() do escriptorio e da correria em que veio 
para che^L^^ar cedo. 

— Vieste tão tarde! — diz-lhe 'Plieodolinda 
com \oz áspera. 

— Peço perdão, ])eÇ() ])erdão — diz elle desfa- 
zendo-se em sorrisos humildes — mas que querem, 
aquelle demónio do Alviella dá-nos um tralja- 
Ihão... 

— K quando nos dará ai^ua ? — pei-^unta o pri- 
mo noticiarista não resistindo, mesmo em frente 
d 'um ])rato de sopa, a fazer espirito. 

— Voamos vér se nos dão a^'ora o jantar — 
ajunta o pai de Theodolinda im|)aciente. — O Ál- 
varo já cá está, já não ixnle ser\ir de desculpa. 

A M.u Dl'; Tiii;()])()i,iNOA. — Já \ai. ilibo, já 
\ai. Ivstá-se a tirar a sôi)a. 

A C()Zi.\iii;iRA ( iiri Unido Já de dentro). — lis- 
ta o jantar na mesa ! 

o JAN'I'AR 

I^^oram todos p'ara a mesa. As madrinhas ata- 
ram os guardanapos brancos e eno-ommados a>) 
jjcscoço dos pe(|uenos. 'Hieodolinda tlcou ao pé 
de Aharo, e a menina (uierreiro ao pé do snr. 
Silva. 

— Aycr y Iloy, disse com certa erudição do 
reportoiáo do theatro da rua dos Condes o primo 

t6 



2i6 A Comedia dE Lisboa 



noticiarista, ao vêr sentarem-se os dons casaes : o 
dos noivos d"nm anno, e o dos namorados do mes- 
mo tempo. 

O jantar começou. 

O primo tinha pensado em pnblicar-lhe o iiicmi 
no liigh-Vifc do sen jornal, mas recuou espavorido 
diante da lista : 

SOPA DE JULIANA 

COZIDO 

ARROZ DE PATO CORADO NO FORNO 

EMPADINHAS DE CARNE, DA CONFEITARIA DO SNR. COSTA 

ERANGÃOS DE ERIÇASSE 

LÍNGUA' DE ERIÇASSE 

CARNE DE PORCO FRITA 

CARNE DE PORCO ASSADA 

VITELLA ASSADA 

PERU ASSADO, COM RECHEIO NO PEITO 

PARGO ASSADO 

SOBREMESAS 

Leite creme, arroz doce, sopa dourada, pasteis 
de nata, tortas de fructa, quartos de marmelo, 
fructas verdes e seccas, queijo flamengo e amên- 
doas torradas. 

VINHOS 
TORRES, PORTO E MARASQUINO 

O jantar correu muito calado até ao meio. 
Estavam todos com fome, e só de vez em quando 
a menina Guerreiro despregava os olhos do prato 



A CoMKDiA Dií Lisboa 217 

para os fitar no snr. Silva, e Álvaro arrancava-os 
(lo garfo para vèr no seu relógio de prata dourada 
que horas eram. 

Pelas alturas da carne de porco frita começini 
a conversar-se. Disseram-se ditos engraçados a 
respeito da solemnidade do dia; lembraram-se sce- 
nas de ha um anno ; episódios do casamento, ca- 
sos da passeata a Queluz, recordações d'esse dia 
memorável. As únicas pessoas que não se recor- 
daram foram Theodolinda e Álvaro. Ella comia 
com um api^etite devorador' e ria, com os beiços 
aljofrados de fricassé. dos gracejos dos convida- 
dos ; Álvaro via o relógio e pensava no Alviella. 

As meninas Pimentas murmuravam graçolas 
picantes á sua amiga Guerreiro, e o snr. Silva 
solta\-a de vez em quando uns monosyllabos gor- 
durosos. 

O pai Pimenta contava historias do seu tem- 
po, com voz muito baixinha; o primo noticiarista 
conversava sobre theatros e litteratura ; o pai de 
Theodolinda pensava no brinde que havia de. fa- 
zer a sua filha e a seu genro, e que seria o comple- 
mento indispensável do obsequioso jantar. 

Quando elle, chegados ao pargo, ia a começar 
com \''oz importante e lenta : 

((A familia é a arca santa...» 

interrompeu-o um nuninurio de admiração enthu- 
siastica. 



-íiB A Comedia de Lisboa 



A criada punha no meio da mesa, passando por 
cima da cabeça dos noivos, um prato imnienso que 
tremia como um andor em procissão. 

Era o prato de sensação do jantar, o embrulho 
do gallego. 

— Bravo, bravo! — gritaram os pequenos ba- 
tendo as pahnas. 

— Ai, que lindo é ! — disseram em coro as ma- 
drinhas e as meninas Pimentas. 

— O que vem a ser isto ? — j^erguntou o pai 
de Theodolinda. 

— E' um presente d'este senhor a tua filha ; 
quer estar sempre com incommodos — disse a mãi 
apontando com gesto de reconhecimento sympa- 
thico para o primo noticiarista. 

— E' apenas uma lembrança que eu peço li- 
cença para offerecer — disse o primo com uma 
modéstia orgulhosa. 

Os olhares de todos precederam os dentes a 
devorar o prato. Era um bolo monte: um id3dlio 
em doce d'ovos e chila ; era uma mulher de alcorce 
sentada n'um banco de amêndoa, a lêr um livr.) 
de hóstia, ao pé d'um lago de gelêa de marmelo, 
onde brinca^■am dous cysnes de assucar em ponto, 
com uma grande folha de cidrão que tinha escripto 
em pingos d'ovos — Souvenir d'atnour. 

Theodolinda fez-se muito corada e Álvaro a > 
lêr o letreiro ia atravessando uma espinha de pargo 
na garganta. 



A Comedia de Lisboa 219 

— Cest trop fort! — disse a menina Guerreiro 
rindo muito e deitando um olhar maldoso para 
Theodolinda. 

— Perdão — disse o primo noticiarista todo 
vermelho — não havia outro feito e por isso 
trouxe esse i)or me parecer o pensamento muito 
delicado. 

— Essa é boa ! — tornou apressada a mãi de 
Theodolinda — muito obrigada, é até uma idéa 
muito mimosa. 

O PAI. — Mimosíssima. A familia é a arca 
santa... 

— Que tal achou o f ricassé, snr. Silva ? — 
])erguntou a cozinheira ao padrinho condecorado, 
sahindo da cozinha, limpando o suor com o 
avental. 

— Delicioso, delicioso. 

O PAI. — A familia é a arca santa... 

O PAI Pimenta (pensando que era já a saudc 
e despejando o copo do Porto). — A' saúde dos 
noivos ! 

Álvaro (em voz baixa a Theodolinda que ia 
a nietter no bocca a folha do souvenir coui o dís- 
tico de ovos) . — Não comas isso. 

Theodolinda. — ■ Porque? 

Aevaro (enleiado). — Porque parece mal. . 

Theodolinda. — Ora não sejas tolo! (Bn- 
gole a folha). 

Álvaro faz-se muito encarnado, vê furioso o 
relógio e põe-se em pé intempestivamente. 



A Comedia dE Lisboa 



— O que é isso? tem alguma cousa? — per- 
guntam todos. 

— Nada ! não tenho nada ! — responde elle se- 
renando — tenho d'ir para o escriptorio por causa 
do Alviella. 

O PAI DE Theodolinda. — Então até logo, 
primeiro que tudo o dever. Veja se vem cedo ao 
chá... Então continuemos o jantar: peço um hrin- 
de. A familia é a arca santa... 

A MÃi DE TheodoIvINDA. — Vão alumiar ao 
snr. Álvaro. 

A SOIRÉE 

Álvaro sahiu como um raio. Tinha o bolo do 
primo no cérebro e no estômago. Sentia-se fu- 
rioso ao ter de concordar que o bolo seria mal 
dado, mas era bem feito. No escriptorio das aguas 
não fez senão escrever e emendar. 

A's 9 horas e meia estava de novo na sala do 
seu sogfo. Theodolinda dançava uma contradança 
com o primo noticiarista e ria com muita sa- 
tisfação. 

Fazia-lhe 'c'is-a-7'is o Silva, e a menina Guer- 
reiro. 

No intervallo d^uma marca, ou^•iu ella dizer 
ao seu par : 

— Quem nos havia de dizer ha um anno que 
havíamos de estar aqui hoje a dançar um coni 
o outro ! 



A Comedia de Lisboa 



— E' verdade — respondeu o padrinho conde- 
corado — ainda me parece um sonho. 

Álvaro teve um accesso de fúria. O piano to- 
cou a ultima marca da contradança, o coro da 
((Bella Helena»: Pars pour Cythérc. 

Le\-antou-se e foi ter com Theodolinda. Es- 
tava mal com elle por causa da folha do jantar. 

— O senhor é ridiculo ! — disse-lhe ella — es- 
tou farta de o aturar! 

— ■ Também eu — respondeu elle afastando-se 
colérico. 

— Muitos e muitos parabéns pelo dia de hoje, 
e estimo que sejam sempre tão felizes como hoje 
os- vejo — disse-lhes o velho Pimenta com um 
g-rande aperto de mão de despedida. 

— E" um bonito par — ajuntou uma das fi- 
lhas. 

Álvaro foi ter com Theodolinda que estava a 
lêr uma quadra que o primo noticiarista lhe escre- 
\'era n'uma vareta do leque : 



Minha formosa priminha, 
Conheço-a faz hoje um anno 
E inda que eu seja seu primo, 
Amo-a como se fosse seu mano. 



— Queres vêr os versos que me fez teu primo ? 
— disse-lhe ella meigamente como querendo fa- 
zer pazes. 

— Não quero ver versos, quero ir para casa. 



A Comedia de Lisboa 

— Pois vamos, filho. 

E foi pôr o chapéo e a capa. 

— Vão para casa já? — perguntou o j^rimo a 
Álvaro. — Acompanho-os até á porta. 

O relógio da casa de jantar dava 1 1 horas com 
o seu terrível cuco. 

■D'alli a momentos, Álvaro entrava em casa, e, 
sem se despedir c)e sua mulher, adormecia, tendo 
a dançar-lhe no cérebro o can-can da «Bella He- 
lena», as três phrases: «Ainda me parece um so- 
nho», Souvenir d'aniour, «A familia é a arca 
santa». 



II 



A CATASTROPHE 

Uma bella manhã appareceu em alguns jornaes 
de Lisboa a seguinte noticia : 



THKATROS 

((Faz hoje beneficio no theatro das Variedades, 
o distincto actor Francisco Lopes, artista de mui- 
to talento, muito festejado pelo jmblico e um dos 
nossos mais notáveis actores. Representa-se, pela 
primeira vez, o drama em 5 actos e 8 quadros — 
. / fidalguia desmascarada pelas glorias do traba- 



A Comedia de Lisboa 223 



lho, traducção do nosso amigo o snr. Affons) 
Henriques da Costa, mancebo de muito talento e 
esperanças, que com esta producção se estreia 
na espinhosa senda do theatro. Benefícios d'estes 
não se recommendam. e desde já agouramos 
áquella sala de espectáculos uma enchente á cu- 
nha, e aos distinctos actor e escriptor uma noite 
de festa». 

Esta noticia apparentemente inoffensiva cau- 
sou uma verdadeira revolução em casa de Álvaro. 
Aquelle Affonso Henriques da Costa, era seu pri- 
mo, o noticiarista, o author d'aquelle Souvcnir 
d'ainour, que Theodolinda engulira no jantar de 
annos de casados, mas que estava atravessado 
ainda, pungentemente, na garganta de Álvaro. 

Logo pela manhãsinha. quando Álvaro estava 
a tomar o seu café com leite, apressado para ir 
l^ara o escriptorio, Theodolinda appareceu-lhe to- 
da esguedelhada, com a cabeça crivada de gan- 
chos para frisar o cabello, e embrulhada no seu 
chalé da manhã, cheio de quadrados pretos e de 
liodoas de todas as côre^, a gritar-lhe : 

— Não sabes, Álvaro? vai hoje a peça de teu 
primo. 

Álvaro fez-se da côr do leite que estava des- 
pejando no café. 

— Que tenho eu com isso? Deixal-a ir. 

— Tinha tanta vontade de ir vêl-a... 

— E eu nenhuma. 



J24 A Comedia de Lisboa 



— Mas elle pôde reparar. E' a sua estreia... 

— Deixal-o ser... 

— Elle é tão obseqniador para nós... pôde es- 
candalisar-se... 

— Que se escandalise... não tenho dinheiro 
para gastar em theatros. 

TheodoIvInda (já de mau humor). — Quem 
te ouvir ha-de dizer que vamos lá todas as noites. 

Álvaro. — Ainda outro dia fomos vêr a Gi- 
roflé... 

Theodolinda. — Outro dia ? Ha dous me- 
zes. Foi no dia dos annos da mamã. E quem pa- 
gou foi o papá, com isso não tiveste tu nada... 

AivVARO (pondo-sc cm pé). — Nem com isso 
nem com isto... Adeus... vou para o escriptorio... 

Theodolinda. — Também sempre me tratas 
com uns modos... Não me fazes nada do que eu 
te peço. 

Álvaro. — Tu pedes tudo. 

ThEodolinda. — Anda, dize que sou exigen- 
te... E' o que falta. 

Álvaro. — Não estou para te aturar. Tenho 
mais que fazer. Adeus. 

Theodolinda (clwramingaiuío). — Bem di- 
ziam os meus pães... sempre fui muito tola em 
não seguir os seus conselhos. Estar aqui a ser 
tratada como uma escrava... Em casa d'elles nun- 
ca me faltou nada... 

Álvaro (furioso). — Olha. então volta para 
lá... 



A Comedia de Lisboa 225 



ThEodounda. — Põe-me fora de casa? 
Desavergonha... Vá lá a gente sacrificar-se por 
um homem! 

Álvaro. — Não me faças perder a paciên- 
cia... 

. Theodolinda. — ■■ Pois já te disse que quero 
ir hoje ao theatro, e que hei-de ir. 

Aevaro. — Isso afianço-te cjue não vaes... 

Theodolinda. — Ora veremos. 

Álvaro. — Pois veremos. (Sahc furioso pela 
porta fora). 



theodolinda a sua mai 

Aíinlia crida main 

Çou a Mais ifehs das Mulheres, tenho trosido 
a Urelha i não me deita çange Por nao ter cegi- 
do us céus concelhus meu Marido é i berduguo i 
ralanie com Disgosttos parese Apustado emme 
contrariar em tudo aqquilo em q'eu fazo gosto i 
Dize-me a tudo qe não teim dinheiru Beemme dis- 
siam vossemeces q"elle era um mau home. Hora 
q er vosemese caber u qe acaba de çuseder Caiu 
todo frioso comiguo pur q'eu cria ir oge au tiatru 
ver a pessa du primu Afonço que mando-me un 
camrote cem elle caber nada i Eu nada le dise, 
lingaa A mamai n qe o camrote he çeu hi vahe a 



2JÓ A Comedia de Lisboa 

xave i Mandio convidar a ele qe a çi nau dis q 
nau. Çim? facamisto. 



Çua filha mninto 
obrigada 

Theodolinda 



No escriptoiio das aguas, Álvaro, que tinha di- 
minuido o seu mau humor, diminuindo quantias, 
recebeu uma carta muito secca de sua sogra, par- 
ticipando-lhe que sua mulher estava lá a jantar, o 
que fosse também para á noite irem ao theatro. 

Álvaro ficou damnado. Esteve para romper 
com tudo e fazer valer os seus direitos de dono 
de casa : mas como as submissões estão em moda, 
submetteu-se ; jantou e foi ás Variedades com a 
familia. 

No theatro abafava-se com calor. 

Álvaro esteve toda a noite em pé no camaro- 
te, que trasbordava de gente: as meninas Guer- 
reiros, as meninas Pimentas, , o padrinho Silva, 
que do 2.0 acto em diante ficou também no ca- 
marote, porque a menina Guerreiro tinha ciúmes 
de que elle estivesse na platéa, e por ultimo o 
primo, o traductor da peça, que andava n'um cor- 
repio do camarote para a caixa e da caixa para o 
camarote, a vêr como corria a peça cá fora, como 



A Comedia de Lisboa. 

corria a jxíça lá dentro, azaf amado, ancioso, co- 
berto de gloria e de suor. 

Xo fim do 3.0 acto chamaram o aiithor. O pri - 
mo Affonso Henriques appareceu logo. Foi uni 
delirio. No camarote todos choravam menos a 
menina Guerreiro, que estava de burro com o 
snr. Silva, Álvaro que estava de burro com toda a 
gente, e o pai Pimenta que resonava como um 
surdo. 

O beneficiado, quando o enthusiasmo estava 
no seu zenith, abraçou em scena Affonso Henri- 
ques, deu-lhe um beijo e um ramo de flores, dos 
muitos que lhe atapctavain a senda espinhosa da 
arte, como lhe diziam n'uns versos, que choveram 
das ultimas ordens. 

Affonso Henriques, tão depressa o panno ca- 
hiu sobre o seu triumpho, voou ao camarote e, no 
meio (las ovações enthusiasticas da familia, offe- 
receu o ramo da gloria a Theodolinda que o abra- 
çou, radiante. 

Álvaro fez-se verde como as folhas do ramo e 
foi beber um capilé ao botequim. 

A peça acabou cás duas e meia da noite. Ál- 
varo estava a cahir de somno e de desespero. 

No dia immediato Theodolinda não fez outra 
cousa senão fallar nas ovações do primo, no ta- 
lento do primo, e repetir ditos da peça. Sabia-a 
quasi de cór, 5 actos e 8 quadros! Álvaro estava 
assombrado. 



_'_'8 A Comedia de Lisboa 



D'alli a dias sahiu mais cedo do escriptorio, e 
quando ia para casa encontrou na rua o primo. 
Theodolinda estava a janella. 

Affonso Henriques disse-lhe: 

— Comprimentei agora mesmo a prima ! Está 
á janella á tua espera. 

Álvaro teve um sorriso amarello. 
Ao chegar a casa, perguntou á criada com 
uma naturalidade de hábil comediante : 

— Ainda cá não veio o meu primo ? 

A criada f ez-se escarlate, e respondeu : 

— Sahiu agora mesmo. 

Álvaro ia cahindo pela escada abaixo. Domi- 
nou-se e entrou. 

Theodolinda estava vermelha e enleada. 

Álvaro, por um esforço supremo e heróico, es- 
boçou um sorriso. 

— Então o Affonso esteve cá? Porque não 
jantou? — perguntou elle á mulher. 

— ■ Eu offereci-lhe, mas elle disse que tinhi 
pressa... 

— Mentes ! — bradou colérico Álvaro, ergueu • 
do-se com toda a sua magestade de caixeiro da 
companhia das aguas. — Sei tudo ! E's uma in- 
fame ! 

Theodolinda ainda quiz negar. 

— Pois tu atreves-te a duvidar de mim ? — 
exclamou ella fingindo a santa indignação dos 
innocentes. 



A Comedia de Lisboa 2jy 



E retirou-se nobremente para o seu quarto. 

Álvaro seguiu-a tremulo. 

Aias ó vergonha ! ó dôr ! Em cima da comnio- 
(la conjugal estava um charuto meio fumado. Era 
sexta-feira. Álvaro só fumava charutos ao do- 
mingo, e nunca na sua vida deixara um charuto 
em meio. 

Theodolinda perdeu todo o sangue frio e des- 
atou a chorar cahindo n'uma cadeira. 

Álvaro correu á cozinha. A cozinheira por 
dez tostões contou-lhe tudo. 

— Ah ! infame ! — bradou Álvaro voltando á 
sala e vendo a mulher banhada em lagrimas. — 
Vou chamar o tendeiro cá de baixo e o estan- 
queiro alli defronte para servirem de testemunhas. 
Prohibo-lhe que toque no charuto. 

E sahiu furioso, cego, como um touro quando 
vai em veloz carreira. 

O tendeiro e o estanqueiro ouviram com o ar 
importante de juizes a narrativa da cozinheira e 
foram examinar minuciosamente o charuto. 

— Bom ! Ijom ! — gritava Álvaro — agora para 
os tribunaes! Elles farão justiça! 

Entretanto Theodolinda levantára-se sinistra 
e. pegando na toalha das mãos, lançára-a ao pes- 
coço como um cache-nez e puxava por ella como 
uma desesperada. 

— Ai ! a minha senhora que se mata ! — gri- 
tou afliicta a cozinheira. 



230 A Comedia de Lisboa 



Álvaro ia a sahir. A este grito parou, voltou 
atraz e. dirigindo-se a sua mulher, grande e ma- 
gestoso como um heroe, tirou-lhe do pescoço a 
toalha e disse-lhe lentamente em tom solemne e 
profundo: 

— Não, isso não, Theodolinda. Só Deus dá a 
vida. só Deus a pôde tirar! 



III 



o DESENLACE 

Vistamos um guarda-pó que vamos entrar na 
Boa-Hora. 

Álvaro já lá está desde as 9 horas da manhã 
todo vestido de preto, com o seu fato bom da se- 
mana santa e das visitas graves. Anda atarefado 
de um lado para o outro. Um, procurador alto, 
gordo, velho e sujo, embrulhado n'um cache-nez 
sebento, anda atraz d'elle a pedir-lhe dez tostões 
para uma certidão, quinze para o escrivão, cinco 
para o official de diligencias... um nunca acabar 
de dar dinheiro. 

Álvaro está furioso. 

Por cima de todos os desgostos do coração, 
estas semsaborias d'algibeira. 

— Vá-se lá ser honrado ! — diz elle, cheio de 
desconsolo sceptico e com um nadinha de arrepen- 



A Comedia de Lisboa 231 

dimento tardio, a um cavalheiro baixo, bem ves- 
tido e com rosto sensato, que era um dos mem- 
bros do seu conselho de família, e que estava sen- 
tado no corredor. — No fim de tudo, isto não re- 
medeia nada e gasta-se um dinheirão... 

— Não, snr. Álvaro, isso não. O senhor fez 
muito bem. E' bonito ter bons sentimentos e poder 
a gente andar com a sua cabeça levantada — ■ disse 
em tom sentencioso o cavalheiro baixo, levantan- 
do-se todo caiado de branco da cal da parede. 

— Eu não me arrependo, snr. conselheiro, mas 
é que no fim de tudo, isto custa muito caro — tor- 
nou x\lvaro, limpando-lhe amavelmente as costas. 

— Pois sim, mas a consciência fica tranquilla. 

— Perdão, que vai alli o advogado — murmu- 
rou Álvaro deitando a correr pelo corredor, e es- 
barrando em toda a gente, atraz d'um rapaz louro 
de óculos azues, que atravessava apressado com 
um molho de papeis debaixo do braço. 

— O' snr. doutor! snr. doutor! — gritava Ál- 
varo pelo caminho. 

O doutor parou. 

— O que me quer ? 

— Minha mulher não tarda ahi!... 

— Quem é sua mulher ? 

x\lvaro (aterrado). — Então v. s.a não me 
(Conhece?... sou o seu constituinte. 

— Ah I sim, sim ! . . . Vá lá para baixo, que eu 
já vou... 

7 



22,2 A Comedia dE Lisboa 



AivVARO (admirado) . — Lá para baixo ? 

Doutor. — Não é uma correcional? 

Álvaro (indignado e com certo orgulho). — 
Não, senhor, é um desquite... 

Doutor (desapontado) . — Perdão ! perdão ! 
já sei o que é. Eu vou aqui á 5.^ vara e 
já volto. 

E desappareceu deixando Álvaro boquiaberto 
no meio do corredor. 

— Ora não ha ! Apanha-me cinco libras, e 
não me conhece. Pois eu íico-o conhecendo — 
murmura elle enfadado, \'oltando para junto do 
conselheiro. 

N'isto entrou de tropel pela escada acima um 
grupo de homens com caras dos feitios mais ex- 
travagantes e palefots das cores mais variegadas. 

Eram as testemunhas da parte d'elle, o mer- 
cieiro, o estanqueiro, dous collegas da companhia 
das aguas, e um sujeito de idade, magro, secco, 
palaciano, de casaca e commenda de Christo, um 
tio magestoso de Álvaro, que era também mem- 
bro do conselho de família. 

— Ahi vem sua mulher — disseram em coro 
as testemunhas' — se a não quer vêr esconda-se. 

Álvaro (fascndo-sc mivito corado de comuio- 
ção) . — Esconder-me ? essa é boa ! Se alguém se 
deve esconder é ella! (Beija a mão ao tio). 

O CONSELHEIRO. — Diz muito bem, snr. Al- 
^•aro, diz muito bem. Quem tem a consciência 



A Comedia de Lisboa 233 



tranqiiilla... (Aperta a mão cerenionioso ao com- 
iiioidador). 

N"isto onvc-se nm riigc-ntge de seda nas es- 
cadas. E' Theodolinda, toda vestida de preto, 
com o vestido com que ia á confissão no dia da 
Senhora das Dores. Pava o braço ao pai Pimenta. 
Seg-uiam-n'a as meninas Guerreiros, as meninas 
Pimentas, o snr. Silva, o i)adrinlio condecorado, e 
o pai de Theodolinda dando o braço á mãi. 

Álvaro (voltando ligciraiiientc as costas para 
o rancho qnc -.'inha entrando, e faltando em z'oc 
alta aos amigos, que o cercavam, fa::.cndo de es- 
pirito forte). — Hontem á noite estive na Trin- 
dade a vêr Os sinos de Corne... 

INTas a commoção esmag'on-lhe a \oz na gar- 
ganta, e não conseguiu, por mais esforços que 
fizesse. iM-onunciar as ultimas s3dlabas. 

O p.\i Pimenta (a quem a surde::; /V.c' intc- 
pretar mal as palaz'ras tiiul)eantes de Álvaro, dei- 
lando-llie uni olluir irado). — Patife! E' preciso 
ser muito descarado ! 

Theodolinda fez-se muito branca, e quando 
chegou á saleta da audiência pediu logo agua. 

O official de diligencias ficou estupefacto. Na 
Boa Hora. agua é uma palavra vã e um elemento 
desconhecido. 



234 -^ Comedia dE Lisboa 



D'alli a minutos abriíi-se a audiência. 

Theodolinda estava já sentada entre a mãi e 
o pai, ao lado do seu advogado. As testemunlias 
estavam nas suas cadeiras i-os membros do conse- 
lho de familia nos seus lugares, serenos e graves 
como cjuem vai fazer uma cousa muito séria. 

Álvaro entrou com muita dignidade, atraves- 
sou a sala fazendo um gracioso comprimento ao 
juiz, e sentou-se no seu lugar sem olhar para sua 
mulher. 

O tio commendador seguiu Álvaro e sentou-se 
juntamente com o conselheiro e com um dos col- 
legas de Álvaro, da companhia das aguas, no lu- 
gar dos membros do conselho de familia. A com- 
menda de Christo produziu certa sensação entre 
as testemunhas. 

Feita a chamada, a que todos res^x^nderam 
com vozes de di ff crentes timbres, agitadas por 
differentes commoçÕes, o juiz mandou lêr o pro- 
cesso. 

O escrivão leu-o com toda a lenta correcção de 
uma pessoa que não tem intimas relações com o 
alphabeto manuscripto. 

Durante a leitura, a noiva fez-se, por vezes, 
vermelha como uma cereja, o noivo pallido como 
uma folha de papel almasso branco, e o pai Pi-' 



A CoMHUiA DE Lisboa 



menta conservou sempre a nicão em concha encos- 
tada á orelha direita. 

N'uma busca dada ás gavetas de sua mulher 
encontrara Álvaro o rascunho de uma carta, que, 
devidamente authenticado e sellado, íigurou nos 
autos e foi lido pelo escrivão com um terrivel 
azar de pontuação verbal. 

Theodolinda tinha querido inutilisar a carta, 
íjuando Álvaro, triumphante e colérico, lh'a mos- 
trara. Houve lucta e a carta ficara rota em vá- 
rios sítios, que foram concertados, sendo as pala- 
\ras inutilisadas substituidas com reticencias. 

O escrivão leu assim a carta, no meio do' es- 
panto do tribunal : 

«Meu amor. Não podes imaginar quanto te- 
nho, so ff rido desde, que te não, vejo meu. Mari- 
do é, pontinhos, ranno feroz e impla, cavei tem- 
me, torturado, jX)ntinhos. a tua bonita, peça esta 
furioso, pontinhos, que horror de vida é, a minha 
espero, o momento, pontinhos, só, quando estou 
ao ])fc\ de ti é que, esqueço, me das des, venturas, 
])()ntinh()s, da vida terrivel que, passo. Morre, 
porti, tua para, sempre. Fiel pensativa. The, pon- 
tinhos linda. Sello de sessenta reis inutilisado, 
está conforme etc.» 

A indignação dos assistentes estava no seu 
auge. 

As meninas Guerreiros diziam : 

— Estas cartas não se lêem assim. 



236 A Comedia de Lisboa 

Os membros do conselho de familia, do lado 
de Álvaro, diziam, em tercetto : 

— Isto não se escreve. 

O pai de Theodolinda fazia caretas. . 
O pai Pimenta perguntava, sem nino-uem lhe 
dar resposta: 

— Isso é o requerimento d'ella ? 

A menina Guerreiro olhava, sorrindo, para o 
snr. Silva, que se conservava pensativo. 

O advogado de Álvaro olhava com certa in- 
sistência galante para Theodolinda. cpie estava 
com os olhos no chão, pudicamente; Álvaro olha- 
va de vez em quando de soslaio para a ingrata, a 
pérfida, que o atraiçoara e lhe fizera gastar já 
tanto dinheiro. 

Em seguida passou-se á inquirição das teste- 
munhas. 

Primeiro veio o estanqueiro. 

Sahiu esbaforido lá de dentro como se viesse 
para uma execução. 

Era um homem sanguineo, que occupára por 
vezes o cargo de regedor, um homem bem fallan 
te, prognostico, que gozava no sitio da reputação 
de homem illustrado que sabia juntar duas pala- 
vras, e de um bom chefe de familia muito amigo 
de sua mulher, que se dava com as melhores fa- 
milias da rua, de seus filhos, uma ranchada de pe- 
quenos muito prendados. 

O estan(|ueiro poz a mão nos Evangelhos, ccn 



A CoMKniA Dv: Lisboa 23; 



O ar magestoso do rei ([iie jura uma constitui- 
ção. 

— •Como se chama? — ■ perguntou o juiz. 

— Thacleu José Seabra. 

Juiz. — Que posição tem ? 

ThadEu (hesitante). — Negociante cie taba- 
cos... (com dignidade) e por varias vezes auth(^- 
ridade administrativa. 

Juiz. — E' casado ou solteiro ? 

ThadEu (faijendo-se côr de pimentão e com 
7'r).cr trcuuda). — ■ Solteiro. 

Grito de admiração indignada no conselho de 
familia, e entre as meninas Pimentas e Guer- 
reiros. 

Juiz. — O que sal^e do acontçcido ? 

Thadku. — Entre cônjuges ninguém se deve 
intrometter; o casamento é um sacramento au- 
gusto... 

Juiz. — Dispensamos considerações, queremos 
factos. 

ThadEu (rubro como os archotes da comniíi- 
na). — Sim, senhor. Aquelle senhor, o snr. Ál- 
varo, e aquella menina, eram meus visinhos. As- 
sisti-lhes ao enlace. O casamento é um sacramen... 

Advogado (interrompendo-o) . — Não é d'is- 
so Cjue se trata. Diga-me, sabe alguma cousa a 
respeito do comportamento d'aquella senhora? Di- 
zem que recebia a miúdo as visitas de um sujeito, 
quando o marido lá não estava... 



238 A Comedia de Lisboa 



ThadEu. — Dizem que sim, senhor. 
Advogado. — E viii-o para lá entrar algumas 



vezes 



ThadEu. — Vi, sim, senhor. 

Advogado. — E o que se dizia na visinhança 
a esse respeito ? 

ThadEu. — Muita cousa. Eu nunca me metti 
n'isso, porque para mim o casamento... 

Advogado. — Bem sei, é um sacramento au- 
gusto. Mas o que ouviu dizer? 

ThadEu. — Uns diziam que era para fins ail- 
lisos))... 

Juiz. — Bom. Mande vir outra testemunha. 

E Thadeu foi para o seu lugar, tendo perdido 
n'aque]les minutos o discurso que estudara ha um 
mez, e a reputação de homem honesto que ganha- 
ra em três annos. 

Seguiram-se as outras testemunhas. 

Emquanto ellas fallaram, Theodolinda e Álva- 
ro olharam-se como n'aquella missa em que se 
tinham visto pela primeira xez. 

Do andamento da audiência, estava provado 
que Theodolinda recebia visitas de um homem ás 
escondidas do marido. 

Quando os dons interessados fallaram, os olha- 
res de ternura transformaram-se em torrentes de 
impropérios. 

— O que eu lhe não posso perdoar, snr. juiz 
— l^radava Álvaro cheio de santa indignação — é 



a parra ([iic el!a comeu contra minha vontade com 
o soitc/euir cfainonr. 

O juiz olhou-o admirado. 

Theodolinda contou a historia da parra. 

Por fim. os membros do conselho de famiHa 
encerraram-se. O pai Pimenta queria (|ue se lhe 
tornasse a lér o i)rocesso todo, porque não tinha 
ouvido muito bem. O conselheiro oppoz-se termi- 
nantemente bradando : 

— Snr. juiz, o facto está provado á evidencia. 
Muito prudente foi o esposo. Ku ponho o caso 
em mim... 

— K pôde pôr — ^ murmurou o advogado ao 
ouvido do juiz. 

— Eu, snr. juiz, li Dumas, filho, comprehen- 
di-o e executal-o-hia... 

— 'Ha quantos annos estaria elle viuvo? — 
per£i"untou rindo em voz baixa o juiz ao advogado. 

— Opino pela separação perpetua. 

— Para todo o sem])re — ajuntou gravemente 
o commendador. 

— Amen ! — resmungou o pai Pimenta acor- 
dando estremunhado. 

O conselho de família decretou o desquite. . 
sendo Álvaro obrigado a dar metade do seu orde- 
nado a sua mulher, pov proposta do conselheiro. 

Ah-aro ficou fulminado. 

— Agradeça-me, snr. Álvaro — disse-lhe o 
conselheiro ao sahir do tribunal. — Eu quiz que o 



240 A Comedia de Lisboa 

senhor fizesse boa figura. E' bonito o marido 
sustentar sua mulher, ainda mesmo quando está 
mal com ella... Agora veja como se porta... Nada 
de criancices. Olhe que o senhor também teve 
muita culpa. 

O COMMENDADOR ( friaiuciite) . — Tem razão, 
os únicos culpados pelos desvarios das mulheres 
são os maridos. Se Álvaro não fosse um tolo... 

CoNSELHiRO (sentcncioso) — Talvez nada 
d'isso tivesse acontecido. 

Álvaro sahiu furioso. A' porta encontrou o 
procurador a pedir-lhe mais dinheiro. O processo 
importara em quinze libras. 

Fora de si, subia a rua do Almada, quando 
levou uma grande palmada nas costas. Era Tha- 
deu, o estanqueiro infeliz. 

— Então correu tudo a seu gosto, hein? — dis- 
se-lhe o estanqueiro. — Aquelle juiz é muito mal- 
criado ! . . . Agora está o senhor como quer ! O se- 
nhor não tinha vocação para casar ! Gostam da 
vida ai rada, e dejwis então queixam-se das mulhe- 
res. Olhe,' meu amigo, o casamento é um sacra- 
mento augusto... 

E xAlvaro teve de ouvir todo o discurso, a que 
õ iuiz se furtara. 



A Co^rKnTA nK Ijsf.oa 241 



EPILOGO 



l)'a]li a oito mczcs. a menina Guerreiro casava 
com o snr. Silva, em Santos o Velho. Foram pa- 
drinhos, por g-raciosa snrpreza dos noivos, Theo- 
dohnda e .Vlvaro. Ao encontrarem-se os dous, que 
já de ha muito se namoravam de long-e, fingiram- 
se zangados. Quando se tratou de irem todos 
para P)ellas, uma conspiração geral deixara ambos 
sósinhos defronte do único coui)é vazio. 

Não liaviam de ir a \)c. Coraram e entraram 
ambos. 

Ouando se apearam na (juinta fio ATaríiuez, 
Theodolinda disse melancolicamente, encostando- 
se ao braço de seu marido: 

— 'Ainda me ])arece um sonho! 

— Infelizmente não foi! — disse Álvaro sec - 
camente. 

Tinham-lhe passado pelo espirito as quinze H- 
l)ras embrulhadas no soiivcuir d'aiiwur. E foram 
para a (|uinta, e a boda seguiu, e a eterna his- 
toria continua, hoje como hontem. .-'imanhã com.) 
hoje. 



A ROLETA 



N'iim gabinete reservado do Rcsfoiírant Sou- 
sa. São 7 e meia. Um Porto, d'iima côr torrada, 
marca três copos bebidos, n'iima garrafa de vidro 
com escala numérica. 

— Bernardino ! grita Af fonso Henriques da 
Costa, o primo noticiarista, já muito vermelho e to- 
cando no botão da campainha. Bernardino ! Que 
dial)o ! estão todos surdos n'esta casa. 

— Rala-te, fazes bem, toca á tua vontade. 
Has-de ganhar muito com isso, grita rindo D. 
Achilles Forneirola. Hontem estive aqui a cear 
com a Pepa, eram 3 horas, e para apparecer al- 
gum criado era preciso quebrar um prato no 
corredor. 

AivVARO (muito corado e com. os olhos mais 
pequenos e muito brilhantes^ enchendo outro copo 



A Comedia de Lisboa 243 



dc Porto c Icvando-o á hocca). — Ora lá vai á 
saiide do menino nascido! 

D. AcHiLLES. — O que? Fazes annos \\o'y% 
Affonso? pois também fazes d'isso, animal? 

Aefonso. — O que queres ! são maus hábitos 
que nos ficam de pequeno. 

Álvaro (a D. Achilles). — V. exc.a não viu 
liontem os jornaes? Lá vinham os annos d'elle. 

D. AcHiLivES. — Eu nunca leio os jornaes. 
Fartei-me de lêr em quanto era petiz no collegio. 
Fiquei lido. Dei por acabadas as leituras. 

Affonso (com um desdém superior e ao mes- 
mo tempo com fundo despeito contra a imprensa 
que não lhe pusera a noticia dos annos que ell.e 
mandara e que dizia assim: «Faz hoje annos o 
nosso bom amigo e estimado collega, o snr. Af- 
fonso Henriques da Costa, escriptor festejado, e 
mancebo talentoso já muito distincto nas lides do 
theatro», e que apenas se limitara a inserir-lhe o 
nome na lista da turba que faz annos, que vem 
nas folhas). — E no fim de tudo fazes bem, ho- 
mem. Olha. isto de jornaes é tudo uma cambada. 
Eu não devia dizer isto porque sou da corpora- 
ção, mas a verdade é esta, hoje não se vê senãq 
o elogio mutuo... 

Álvaro. — Pois eu (piem me tira um bocadi- 
nho de leitura depois de jantar tira-me tudo... 

Bernardino (entrando). — Os senhores cha- 
maram ? 



244 A Comedia de Lisboa 

D. AcHiivivKS. — Foi lia tanto tempo, que já 
não nos lembramos. 

Affonso. — Traze café e charutos... e jor- 
naes para este senhor. 

AivVARO (despejando outro co/^oj . -^ Quando 
janto assim em boa companhia como hoje dispenso 
os jornaes. A' saúde d'este cavalheiro, que não 
tinha o gosto de conhecer. 

D. AcHiivi.ES. — Viva! (Rindo innifo). Ah! 
ah! está já pio, seu pãosinho! 

Affonso. — Ah! ah! ah! u pãosinho é uma 
esponja... vai-se pelo Porto. 

Álvaro. — Se o Alviella trouxesse d'isto... 
Lá vai á saúde do menino nascido ! 

Affonso. ' — Outra vez? Vá!... 

A1.VAR0. — Agora á minha Theodolinda. 

D. AcHiivivES. — Ah ! vossê também tem uma 
Theodolinda? então isso é dos primos. 

A1.VAR0 (a Affonso). — Para que me estás tu 
a pisar ? Eu posso beber á saúde de minha mulher, 
que não está mal a ninguém. 

D. Achilles quasi que se engasga com as gar- 
galhadas e o Porto. 

Bernardino (entrando). — Aqui está o café 
e os charutos... jornaes não ha senão este: a 
Crença Liberal. 

AIvVAro. — Eu hoje dispenso os jornaes, o 
que quero é cavaco. 

D. AcniLivES. — E cognac, não era mau. 



A Comedia de Lisboa 245 



Affonso. — Onde ha-de a gente ir esta noi- 
te ! Tu voltas para o escriptorio ? 

Álvaro. — Nada, hoje fiz sueto : não ponho 
lá mais o pé... Annos do meu primo... 

D. AcHiLLES. — Eu vou para casa da Lola. 

Af^fonso. — Nada, vamos todos ao theatro: 
vê lá que theatros ha... 

Álvaro (pega na Crença). — Ha todos... 

AfJPONSO. — Vê lá se vem ahi os meus annos ! 

Álvaro (correndo o jornal). — Nada... não 
vejo... Ah! cá está. BpJicnierides históricas. 

Affonso. — Em que estado tu estás, desgra- 
çado ! 

Álvaro. — Ah! não é... ^las que coincidên- 
cia, olha : ((Faz hoje annos que Af fonso Henri- 
ques deu á costa.» 

Af fonso mordeu os l)ei(;os e enfiou. Os typo- 
graphos tinham-lhe entendido mal a letra e pas- 
sado os annos para as Bphcnicridcs. 

Bernardino (com uma carta e um ramo). — 
Isto é para algum dos senhores? 

Álvaro (vendo o sobrescripto). — E' para 
mim. 

D. AcHiLLES. — Seu brejeiro, é aventura, 
hein? 

Álvaro (a Affonso). — Nada: é minha mu- 
lher que te manda este ramo para veres que se não 
esqueceu dos teus annos e que me manda pedir 
para irmos tomar chá a casa. 



246 A Comedia de Lisboa 



Affonso (sorrindo a D. Achilles que lhe /«- 
signaes com o joelho). — Então em vista d'isso 
não vale a pena ir ao theatro. 

D. AcHiLi.ES. — Olhem, vamos um pedaço á 
roleta. 

Álvaro. — A' roleta... E a policia? 

Affonso (rindo). — A policia está lá a jogar. 

D. Achilles. — Tem medo de ser preso, me- 
nino? Venha, que ninguém lhe faz mal. 

Álvaro (pondo-se em pé c cambaleando íun 
pouco). — Vamos lá... E' bom saber de tudo... 

Aefonso (pondo-se em pé). — Assim como 
assim o melhor é bebermos lá o cognac, é mais 
barato... Olha, ó Álvaro, leva-me tu o ramo, que 
eu não tenho geito de andar com flores. 

E pagou-se a conta dos três jantares, e sahi- 
ram todos três, quentes e bem bebidos, D. Achilles 
pelo braço de Affonso Henriques, e Álvaro só- 
sinho e aos bordos pequenos carregado com o 
ramo que sua mulher mandara ao primo noti 
ciarista. 

Do Restaurant Sousa á roleta é perto e bom 
caminho. 

Álvaro percorreu-o sem dar palavra, absorto 
em fundo scismar. Os outros dous iam muito ale- 
gres, dando grandes risadas, parando de vez em 
quando, fallando muito e quasi ao mesmo tempo, 
dizendo adeus a um, uma g-raça a outro, um dito 
áquelle, um aperto de mão áqueiroutro. 



A CoMiíDiA DE Lisboa 247 

Álvaro não, não via ninguém : via muitas lu- 
zes nos candieiros e lá ao fundo n'uma rua pe- 
quena, escura e inimunda, uma casa mysteriosa. 
negra, espelunca com uma porta pequena, uma 
escada Íngreme e lá em cima um casarão grande, 
vasto, mal alumiado, com uma mesa ao meio e 
um tapete verde cheio de reflexos do candieiro 
cVazeite e de scintillações do ouro. Em redor de- 
bruçavam-se sobre a mesa, magros e doentios, pal- 
lidos, com os olhos a sahirem-lhe das orbitas, os 
jogadores, ávidos, anhelantes, roídos pela paixão, 
devorados pela fome d'ouro, phantasmas do vi- 
cio, quasi cadáveres se não fossem os olhos que 
tinham as scintillações das libras. x\quelles ho- 
mens tinham a vida presa n'uma parada, o futuro 
suspenso no girar da roda, sabiam d'alli para pa- 
lácios fabulosos com as algibeiras cheias de ouro 
ganho no lance, ou para a Misericórdia com uma 
bala mettida nos miolos. 

E a roda, a maldita roda, andava sempre com 
um ruido lúgubre : elle. Álvaro, via-se já preso na 
engrenagem, era arrastado como um suppliciado 
antigo, deixava nos dentes de aço, o casaco novo. 
o ramo de flores, Theodolinda e o Alviella, que 
corria em ondas de prata, em catadupas de libras. 

— Vamos lá, cá está o antro do vicio ! disse-lhe 
rindo e fazendo-o parar, o primo noticiarista. 

Estavam defronte d'uma'casa elegante d'um 
só andar com uma bella escada illuminada am- 

t8 



24^ A Comedia dE Liscoa 



piamente a gaz claro e brilhante, e com um guar- 
da-portão fardado como os das boas casas novas 
dos burgiiezes ricos. 

— O que ! é aqui ? perguntou Álvaro como 
que despertando d'um sonho, e olhando para o 
guarda-portão que lhe tirava o boné prateado sor- 
rindo com amabilidade servil. 

D. AcHiivi.ES. — E', sim, homem ! então onde 
havia de ser ! Entre ! 

Subiram a escada, uma escada muito limpa, 
clara, e muito bem estucada. Ouvia-se tinir o di- 
nheiro lá dentro, e a bola girar sobre o taboleiro. 
Álvaro olhou para a parede a vêr se via em al- 
gum canto o O voi clientrate... Affonso tocou a 
campainha. Entraram no covil. 

Era uma salasinha muito aceada, com uma 
grande mesa com dous tahlcaiix verdes com nú- 
meros pretos e encarnados e ao centro uma rodela 
com 36 números e um zero, confundidos ao acaso 
como as idéas no cérebro de um bêbedo. 

Os candieiros de azeite com a sua luz mortiça, 
eram numerosos bicos de gaz, que davam uma luz 
alegre, confortável, quasi honesta. 

Álvaro está deslumbrado, mas ao mesmo tem- 
po triste. Mais uma illusão perdida ! Lá se ia a 
espelunca, os jogadores esquálidos, as paredes cus- 
pidas com miolos humanos, as caras patibulares, 
o medonho covil do' negro vicio ! 

Os jogadores eram homens alegres que con- 



A C(nii:i)i.\ Dl", LisiioA 249 

versavam com intimidade, como que em familin. 
des])reoccupados. risonhos, de bom humor. 

(Jue serie de espantos! A l)ola corria sol)re ■.'. 
caUia pohda, e precipitava-se com a doudice fe- 
bril do acaso sobre um dos números, sem que a 
sei^nissem olhos ávidos, sem (jue a acompanhas- 
sem ru,^'idos de alc£;ria ou os gemidos supremos 
do desespero. 

O homem que dava á jjola. um rapaz bem pa- 
. recido. 1)cm \-estido, c de maneiras muito distin- 
ctas,-(hzia com voz sonora e pegando um pouco 
no r : Trrinta c trrcz. 

Xo fim dos fableaii.v, de um lado, um homem- 
zinlio muito baixo, empoleirado n'unia cadeira 
muito alta, no outro um sujeito de fartas suiças á 
galaica. estendiam uma pá com um cabo muito 
comprido e recolhiam o dinheiro que esta\'a sobre 
n ]íann(). e ])aga\am as paradas, e empilhavam os 
tostões e as meias coroas com uma rapidez de 
prestidigitador. 

Os parceiros recolhem as suas ])aradas, con- 
versando sempre, e uns que estão sentados, gra- 
\es e sérios, escrevem o numero num papel. 

Todos os pontos tem a sua folha de papel e o 
seu la])is. 

Xão parece uma casa do vicio, parece um es- 
criptorio de commercio. 

Álvaro relanceia a vista pelos jogadores e nos 
seus olhares espantados scintillam alternadamente 



J50 A Comedia dê Lisboa 



todas as interjeições qne ha na etymologia do doiv 
tor Macedo. A cada nma d'ellas corresponde nma 
pessoa, que nem em sonhos imaginaria nunca en- 
contrar a jog^ar a roleta : um dos seus chefes no 
escriptorio das aguas, um deputado velho, que 
elle venerava como um Catão, o pai Pimenta, o 
surdo, e o snr. Sih-a, o padrinho silencioso e con- 
decorado. 

Álvaro, com certa hesitação, acerca-se do ta- 
bleau. 

— Troca-me isto em petizes, diz D. Achilles. 
atirando meia libra para o homem de suiças. que 
fazia a paga. 

Recebe o dinheiro e vai para o outro tablcau. 
O snr. Silva assenta o numero que sabe, e es- 
tuda a escripturação. 

— Tem aqui uma escripturação completa, to- 
dos os números que tem sabido esta noite : o 29 
já sete vezes, diz a Álvaro um sujeito que ellc 
nunca viu, offerecendo-lhe um papel com toda a 
amabilidade. 

— Muito obrigado, diz elle, pegando no p:i- 
l)el, pensando que é costume da casa. 

— Quer fazer uma vacca de tostão ? 

— Pois não ! 

O homem recebe o tostão e vai para o outro 
tableau. 

Álvaro não vai por ceremonia. 

Um at^t^eriís (que tem. os bigodes brancos e (t 



A Comedia de Lisboa 251 

cara d' uni general reformado — a Álvaro). — O 
meu amigo empresta-me um tostãosinho? Agora 
aposto que vem o treze. 

Lá vai outro tostão. 

O HOMEM QUE DÁ A BOEA. — Trrreze. 

O AI.FERES. — Trinta e seis. 

Recebe e passa para o outro tahlcau, mettendo 
o dinlieiro na algibeira. 

O PRIMO NOTICIARISTA (viiido lá de dentro 
a cheirar muito a cognac). — Vamos lá levar essa 
I)anca á gloria (atira um tostão para as dmaias). 
— Primeira e segunda contra terceira. 

O SNR. Si EVA (levantando-se grave e fazendo 
gesto de suspender ao íiouiem da bola). — Jogo... 
(consulta a cscripturação). Um tostão ao preto. 

Sabe encarnado. 

O-snr. Silva torna a sentar-se e continua a 
escrever. 

D. AcHiLEES (atirando 22 tostões para o ho- 
mem pequenino que faz as pagas). — Dá cá meia 
lilira. (Mette-a na algibeira e vai para o outro 
tablean). 

O HOMEM DA VACCA (a Alvoro). — Já vai 
n'um quartinho. 

■ O ALEERES (ao primo noticiarista), — Em- 
presta-me um tostãosinbo? Agora vem o 34. 

O HOMEM QUE DEITA A BOEA. — TrrHnta c 
quatrrnx 

— Trinta e seis. diz o alferes mettendo o di- 



A Comedia de Lisboa 



nheiro na algibeira, e voltando ao outro tableau. 

— Jogo, diz o snr. Silva, levantando-se outra 
vez, e consultando a escripturação. Um tostão 
no preto. 

Torna a sahir o encarnado. 
O snr. Silva senta-se e escreve. 

— Venha lá isso em miúdos, diz D. Achille-, 
ao sujeito de barl)as que faz pagas no outro fa- 
blcou. 

— E mette na algil)eira vinte e três tostões. 

— Lá se foi a vacca, pois já estava gordinha, 
diz ao ouvido d'Alvaro o homem amável, cjue 
n'esse momento recebera 7$200 no outro fablcan: 
quer outra? Agora de cinco tostões, hein? 

Lá vão mais 500 reis. 

Álvaro tem perdido perto de oito mil reis a 
teimar no 22. por ser o dia do seu casamento. 
Restam-lhe apenas dez tostões. Furioso atira-os 
para cima do 22. 

— Acinte e dous, diz a voz sonora do homeni 
da bola. 

Álvaro tem um deslumbramento. 

— Trinta e seis mil reis, diz um homem alto, 
gordo, de grandes barbas pretas, que appareceri 
alli como que por encanto, 6 libras e o restei em 
miúdos. 

Álvaro espera pela p^iga. Tem vergonha de 
])edir. Vem outro golpe e nada. Desacanha-se. 

— Então os meus dez tostões do 22 ? 



A CoMRniA DK Lisboa 253 



— Nada, o que saliiu foi 017. 

— Sim, mas, da ontra vez ? 

— Pagiiei-os áqnelle senhor. 

— Alas eram mens ! 

O homem das harhas impassível joga sem se 
importar com o que se passa. 

— Isso é com aquellle senhor. 

— Eu não tenho nada com isso. 

D. AcHiLivKS (atirando zintc e dons tostões 
ao hoiiicni bai.vínJw que /í/^/í/ as pagas, c inter- 
rompendo o dialogo). — Dá-me meia hbra. (Met- 
te-a na algibeira). 

— Mas isto não pode ser, os dez tostões eram 
meus ! grita Álvaro. 

— Falle mais baixo. 

— Qual mais baixo, (|uero o meu dinheiro, 
isto é... 

O homem de barbas deita-lhe um olhar feroz 
e aproxima-se d'elle. 

— Este senhor, diz-lhe o homem que faz as 
pagas, insiste em que aquella parada de oito libras 
era d'elle. 

O HOMEM DAS BARBAS (delieodo, unis amea- 
çador). — Perdão, era minha, o senhor está equi- 
vocado. 

ÁLVARO. — Não estou, não senhor... 

O HOMEM (em 7'oc alta). — Saiba que nunca 
admitti a ninguém que suspeitasse de mim... en- 
tenda-me bem. 



254 -^ Comedia de Lisboa 

D. AcHiLLES (ao ouvido de Álvaro). — Não 
se metta com elle qne não é para graças. Dá uns 
soccos de matar. 

Alv'aro (uiuito pallido). — Perdão! perdão! 
eu pensei... (B afasfa-se do jogo). 

O HOMEM DA VACCA. — Lá se foi a vacca. Es- 
tava também gordinha. Vamos a outra de cinco? 

Ae\'Aro. — Vá; mas é para o inferno. 

O HOMEM AMÁVEL. — Veja como falia e com 
c[uem falia. 

O CRIADO (approximando-se de Álvaro). — 
Tem a bondade de sahir... Aqui não são permitti- 
das as altercações. Isso é bom para a rua. 

Uma voz. — Isto aqui não é taberna. 

— Troca-me isto em miúdos, diz Achilles dan- 
do meia libra ao homem de suíças e recebendo 23 
tostões. 

D. AcHiELES (ao criado). — Não faça caso. 
Este senhor está com uma pinguita. 

O criado (desfazendo-se em cortesias). — 
Pois não, snr. D. Achilles ! 

Álvaro sahe furioso. 

O primo noticiarista diz do alto da escada : 

— Espera ahi, que eu vou comtigo. 

E vem cahir-lhe ás costas, transformado em 
frasco de cognac. 

Álvaro tem de o levar a casa n'uma tipóia no- 
cturna. 

A' porta um policia levava preso arrastado pela 



A CoMEniA DE Lisboa 255 



rua nm rapazinho que ii'unia taberna defronte es- 
tava a jog'ar a bisca a dinlieiro. 

E cá fora ouvia-sc ainda o tinir da prata e a 
\-oz sonora do snr. Silva dizendo gravemente : 

— Um tostão ao preto ! 



A PROCISSÃO DOS PASSOS 



As meninas Guerreiros tem uma casa deliciosa 
para estas solemnidades christãs, uma casa de duas 
janellas de sacada e uma de peitos, na rua dos 
Cavalleiros. 

E" um segundo andar, mas isto de procissões 
(juanto de mais alto melhor, mais se desfruta. 

As meninas Guerreiros estão agora reduzidas 
á menina Guerreiro no singular. A outra é já a se- 
nhora Silva. A solteira ficou triste ao achar-Si' 
na gaiola sem a outra, como os periquitos quando 
ficam sósinhos. 

A mana vai lá ás vezes ; mas é já uma senho- 
ra séria; tem as suas preoccupaçÕes de dona de 
casa, a sua respeitabilidade de esix)sa, e de esposa 
de homem condecorado, trata-a com muita amiza- 
de, mas uma amizade protectora e como que ma- 
ternal. ' 



A Comedia de Lisboa 

Entre ellas já ha ceremonias. 

Xo (lia da procissão foi lá jantar com o ma- 
rido: iim jantarinho leve, rápido, de fácil diges- 
tcão, por causa das visitas que não tardam e da 
procissão que vem ahi. 

Ao trinchar a pescada cozida, ouve-se uma 
grande campainhada á jwrta. 

— Naturalmente é a Theodolinda, diz a snr.'i 
Silva. 

— Xada, pelo bater parece-me o Pimenta, 
emenda o pai Guerreiro, que tem applicado os seus 
ócios de empregado reformado em apurar o ou- 
vido. 

— O' menina, é o snr. Pimenta e as meninas, 
confirma a criada chegando ao pé da porta da casa 
de jantar. 

O p.\i GuERRKiRO. — Eu não dizia? Que mas- 
sada. nem jantar nos deixam. 

A SNR. a Si IA' A. — -V que horas jantaria esta 
gente ? 

A :\iENiXA Guerreiro. — Que entrem, que 
entrem! 

O PAI Guerreiro (pondo-sc cm pc). — Po- 
dem entrar, olhem que não cahem no prato. 

As meninas Pimentas invadem a sala seguidas 
pelo pai que vem com uma medalha da guerra da 
liberdade e uma casaca do tempo d'ella. 

Abraços, beijos, aj^ertos de mão, ruidos de ca- 
deiras (|ue se arrastam, de conq^rimcntos {|ue se 
trocam, de vozes fallando ao mesmo tempo. 



2s8 A Comedia de Lisboa 



As meninas miram-se curiosas, examinando as 
toilcttes, os penteados. 

— Então, não são servidos, não comem nada ? 
offerecem em duetto o pai e a menina Guerreiro, 
fazendo lugar ás visitas. 

— Nada! ainda temos o jantar aqui! diz uma 
das meninas Pimentas fazendo o gesto. 

O PAI Pimenta. — Sem ceremonia, conti • 
nuem, continuem, que o nosso já cá está! 

— O que tens tu feito ? Já ninguém te vê ! per- 
gunta a menina Pimenta á snr.^ Silva. 

— Oh ! filha ! Não tenho sahido, tenho tido 
muito que fazer em casa. E hoje mesmo, vim por 
causa do Silva.- Elle estava com vontade de vir. 

E o jantar continua, entremeado com as phra- 
ses soltas d'uma conversa que principia e com as 
risadinhas forçadas das graças mais forçadas 
ainda. 

— Agora uma colherinha de doce, diz o pai 
Guerreiro, a isto é que não pôde dizer que não. 

— E não, porque sou muito gulosa, responde 
uma das meninas Pimentas estendendo toda cheia 
de gulodice o pires para o boião do doce. 

Na rua o ruido ia crescendo, havia o susurro 
de muitas vozes, conversando alegremente como 
em todas as procissões de penitencia, o froii-frou 
da seda preta que se arrasta pela areia encarnada, 
dos passos precipitados que correm, das carrua- 
gens que se cruzam, e por cima de todo este bor- 



A CoMKDiA nií Lisboa 259 

lioriíiho os gritos dos vendedores d'agiia e das 
mulheres das arrufadas e dos pasteis de nata 
com pó. 

Trilimtimtim á porta. 

A familia levanta-se em tropel e vai . para a 
sala palitando os dentes e arranjndo o penteado. 

A criada abre e dá entrada a um sujeito alto, 
magro, muito rosadinho, com os cabellos engom- 
mados em popa no alto da cabeça, com um gran- 
de peitilho bordado e cheio de lavores phantasti- 
cos a descoberto, gravata branca atada n'um laço 
de symetria irreprehensivel. e um pequeno ramo 
de violetas de panno na casa da casaca. 

O sujeito entrou muito risonho, muito affa- 
vel, espectáculos© e delicado, desfazendo-se em 
cortezias graciosas mas sem nunca desmanchar a 
solemnidade dos seus gestos esculpturaes. 

— Ah ! é o snr. Barata ! exclamam as meninas 
Cnierreiros. 

— Como está ? então vem só ? pergunta-lhe ' ^ 
l)ai Guerreiro indo ao seu encontro e apertando- 
Ihe a luva gris-perle. 

— A minha madama já vem : ficou a vestir um 
anjinho. Tem sido uma azáfama, que vossas sho- 
rias não podem imaginar. Estive todo o dia .1 
pregar azas. 

— Mas a sua senhora vem ? 

— Vem, sim, minhas senhoras, até lhe man- 
dei já um vehiculo para a, conduzir aqui. Eu vim 



200 A Comedia de Lisboa 



primeiro ix)rque tive de ir a casa do conselheiro 
Gaspar levar pessoalmente nm chapéo, que a mi- 
nha niadama acabou agora mesmo. Ainda ia quen- 
te ; ah ! ah ! ah ! 

— Quer tomar um copinho de licor, snr. Bara- 
ta? pergunta affectuosamente o pai Guerreiro 
cheio de generosidade cavalheiresca. 

— Só se fôr de rosas, os outros sóbem-me á 
intclligencia. 

Emquanto a menina Guerreiro prepara o li- 
cor, o Silva aproxima-se silencioso da janella, tira 
da algibeira um lenço branco de barra azul muito 
bem dobrado, abre-o, pÕe-o delicadamente no pa- 
rapeito e encosta-se. 

— Já anda ahi muita gente? perguntou a snr.^ 
Silva correndo á janella, deitando familiarmente 
o braço sobre as costas bem escovadas do marido 
c l)rincando-lhe com as orelhas. Ih ! que poder 
do mundo! 

A MENINA Pimenta (chegando á janella). — 
E' verdade ! parece uma revolução. Não ha onde 
cahir um alfinete. 

O SNR. Barata (sugando com os beiços o 
bigode impregnado da bandoUna do licor). — Es- 
ta procissão é sempre muito concorrida, é uma 
festividade a que vem toda a fidalguia. Lá a mi- 
nha madama fartou-se de fazer vestidos para ella. 

A SNR. a SiEVA (di::endo muitos adeus). — 
Olha ! ahi vem a Theodolinda ! Vem bem bonita ! 



A ^.'ll.M l-.IMA Dl-; Ll>l;ilA 

A MENINA Pimenta. — Aqiielle vestido era 
(la mãi. Custou um rôr de dinheiro em novo. 
Adeus! (Dcbníça-sc risonha. O snr. Barata coiii- 
f^riíiiciifa como um diplomata). 

— Ora |>ensava que já não vinham, tão tarde ! 
(Hz a menina Guerreiro abrindo a |)orta da esca- 
da e indo esperal-as ao patamar. 

— Ora deixa-me. filha! estive para não vir! 
O Álvaro veio agora mesmo do escriptorio, mur- 
mura Theodolinda, suffocada pelo cansaço de su- 
bir a escada, sentando-se n'uma cadeira, muito 
corada, com um vestido de seda preta com muita 
roda e branco de poeira, e com o peito, o pescoço 
e as orelhas, cheios de cousas de ouro de grande 
valor e peso. 

Álvaro (entrando todo de preto, com a sua 
gravata roxa muito bem posta, e luvas pretas com 
hisponto branco). — Aquelle demónio do Alviella 
toma-me todo o tempo. 

— Querem um copinho de licor ? pergunta no- 
vamente o pai Guerreiro. 

— Obrigadissimo, eu não tomo nada: mas a 
Theodolinda talvez tome. Olha que te fazia bem, 
menina. 

— Só se fôr um golinho, porque venho muito 
cançada. Olha, guarda-me o relógio na algibeira, 
não o vá eu perder. 

Álvaro jjede um papel á menina Guerreiro, 
embrulha o relógio, mette-o cautelosamente na al- 
gibeira. 



-'(jj A Comedia de Lisboa 

Theodolinda bebe licor, as meninas conversam 
umas com as outras, a snr.a Silva continua a fa- 
zer festas nas orelhas do snr. Silva : o pai Pimen- 
ta grita um dialogo com o pai Guerreiro, e Álva- 
ro con\'ersa com o snr. Barata acerca da carestia 
dos géneros. 

N'isto pára á porta um trem com grande es- 
tardalhaço. 

— E' a minha senhora, diz ufano o snr. Ba- 
rata. 

Não era : era o primo noticiarista que entra 
pela porta dentro de charuto na bocca, dando for- 
tes apertos de mãos e deitando grandes baforadas 
de fumo para a cara de todos. 

Vem vestido de claro, como um jasmineiro. 
Vem assim de propósito para fazer uma pirraça 
á religião. 

Quer mostrar bem áquelle Senhor dos Passos, 
(|ue vai alli de joelhos entre os perfumes das flo- 
res e das pomadas dos irmãos, que não se importa 
nada com elle, que não faz caso dos seus marty- 
rios, que tem um espirito forte e um fato claro. 

— Adeus, priminho, diz-rlhe Theodolinda, es- 
tendendo-lhe languidamente a mão niia e branca, 
ainda com os signaes da costura da luva. 

Álvaro aperta-a, contente. 

— Cá está o nosso homem! nunca falta a es- 
tas cousas. 

■ — Ah ! Vossa shoria gosta também de pro- 



A Comedia de Lisboa 263 

cissÕes? E' como eu: são manifestações religiosas 
c|ne desenvolvem muito o commercio das na- 
ções. 

— E a gargalhada dos homens de espirito, 
conclue o primo, estirando-se n'uma poltrona. Eu 
cá é o meu tempo : divirto-me muito mais na se- 
mana santa do que no entrudo. E' o meu carnaval. 

O snr. Barata fica muito serio e vai até á 
janella. 

— A procissão hoje tarda, diz o snr. Guer- 
reiro. 

— Ahi vem ella, ahi vem ella! grita a snr.^"* 
Silva, deixando as orelhas do consorte. 

— Quem, a minha madama ? pergunta o snr. 
Barata, debruçando-se. 

— A procissão ! responde a menina Pimenta 
alojando-se na janella. 

' Todos tomam as suas posições. O primo no- 
ticiarista fica atraz, ao lado do snr. Barata, fu- 
mando como um paquete. 

As alas de povo apertam-se : os cavallos da 
municipal e a policia escoucinham. As capas ro- 
xas já de furta-côres apparecem pingadas de cera 
e agitadas docemente pela briza da tarde da rua 
dos Cavalleiros. Lá vem o pendão cambaleando 
como um bêbedo nas mãos do gymnasta d'aquella 
troupc religiosa com as suas letras amarellas — 
S. P. Q. R. 

— Salada, pão, queijo e rábanos, diz grave- 
19 



204 A Comedia de Lisboa 

mente o snr. Silva cortando pela primeira vez o 
sen silencio de toda a tarde. 

A snr.a Silva ri-se mnito. dando nmas pal- 
madinhas alegres nas costas do marido, e dizen- 
do-lhe por entre risos : 

— Não digas heresias. 

— Não é isso, emenda o primo noticiarista, 
aquillo tem alcance politico ; significa : Senhores, 
povo quer republica. 

O snr. Barata fica muito grave. 

— Oh menina ! grita Theodolinda para a me- 
nina Pimenta, olha como é lindo o vestido doeste 
anjinho. 

— Foi feito lá |>ela madama, explica ufano n 
snr. Barata. 

— Olha, lá vem o conselheiro Zacharias, o 
teu chefe, diz a snr.^ Silva ao esposo. 

O conselheiro com o cabello cheio de pomada, 
e o rosto cheio de unção religiosa, olha para a 
janella, sorri e cumprimenta com a tocha, pin- 
gando o irmão que vai adiante. 

O snr. Barata está resplandecente de felici- 
dade. Vê alli toda a nobreza do reino, toda a sua 
clientella. 

— E' uma ceremonia muito bonita, muito edi- 
ficante. Lá vai o conde de ***. 

E cumprimenta, murmurando baixinho n'um 
tom respeitoso : 

— Snr. conde, um criado de v. exc^! E' um 



A Comedia de Lisboa 26; 



homem muito nobre e muito cavalheiro aquelle 
conde, diz elle para o primo noticiarista. 

— E muito engraxado, atalha este. 

— Olha! olha! o visconde de ***. E' um lin- 
do rapaz. Está-lhe muito bem a capa, diz a me 
nina Pimenta olhando-o ternamente. 

— Oh ! é taml:)em meu f reguez, é um cava- 
lheiro perfeito. 

— E um idiota consummado, conclue o pri- 
mo, com um bom senso que não parecia d'elle. 

O snr. Barata fingiu não ter ouvido e mur- 
murou submisso : 

— Snr. visconde, um criado de v. exc^ 
ThEodolinda. — Olha, Álvaro ! que bonito 

anjinho! 

O SNR. Barata. — Foi feito lá pela ma- 
dama. 

^^em o Senhor dos Passos. 

— E' uma imagem muito respeitável, murmu- 
ra o>snr. Barata, é de roca. 

E ainda começa a dizer baixinho : — Senhor 
dos Passos, um criado de v. exc.^... 

.\pparece o pallio. Todos ajoelham excepto o 
primo noticiarista que fica de pé como o cedro 
alti\'o da montanha, olhando com um desdém ro- 
mântico para as turbas humilhadas. 

— Ajoelhe, primo, diz-lhe Theodolinda. sup- 
plicante. 

— O rei da creação nunca se curva. 



206 A Comédia de Lisboa 



A banda marcial segue tocando a marcha da 
Aida, e os gatnnos roubando relógios. 

O primo noticiarista imita os clarins egypcios. 

— O' menina, já viste a Aida? pergunta a 
snr.^ Silva á menina Pimenta. 

— Já lá fomos, não gosto, tem pouco musica, 
diz o pai Pimenta que por um capricho do seu 
ouvido surdo ouvira n'aquelle momento. 

— E' uma linda opera e tem fatos muito l)o- 
nitos, ajunta o snr. Barata. São feitos por boa 
tesoura, vê-se logo. 

Quando aquella immensa onda de gente des- 
apparece ao longe, apparece na porta da sala a 
criada com uma bandeja com pão de ló, e outra 
com licores. 

O Senhor dos Passos volta para o seu cama- 
rim, os carolas roxos despem a capa e a influen- 
cia que só têm n'estes dias solemnes, Lisboa tira 
os seus arrebiques saloios d'aldeia e volta a ser 
capital, o piano geme nas salas particulares, Theo- 
dolinda toca a walsa do Boyton pelo snr. Villa- 
mala, e o primo noticiarista recita uns versos 
mimosos do snr. Carlos de Oliveira. 



QUINTA-FEIRA DE ENDOENÇAS 



A igreja está dividida em variadíssimas se- 
cções pelos miinicipaes com fardas de grande uni- 
1'orme. Os irmãos (li\'idem aqnillo entre si como 
paiz conquistado. A igreja é crelles, a religião é 
d'elles, Deus é d'elles, tudo aquillo é d'elles e do 
mais ninguém. 

Cortam e retalham a seu modo, a tribuna d i 
direita para a familia do juiz da irmandade; a da 
esquerda para as manas do procurador, o altar- 
m<')r para as familias dos irmãos, o corpo da 
igreja para as pessoas de intimidade, a têa para 
as pessoas do conhecimento, os corredores para 
as mulheres de capote e lenço, o coro para os 
]iarentes dos irmãos e a rua para o resto dos de- 
votos. 

A' PORTA DA IGREJA. — O sur. Silva, entra, 



j<>S A Comedia de Lisboa 



todo vestido de preto com o chapéo levado no 
castão da bengala, erguida meio metro acima do 
nivel das cabeças, como um pendão: atraz do snr. 
Silva, agarrada ás abas da sobrecasaca, a menina 
Guerreiro, sua esposa, agarrada a esta a outra me- 
nina Guerreiro, atraz a menina Pimenta, seguida 
do pai Guerreiro e do pai Pimenta, que. sempre a 
um de fundo, fecha o cordão. 

Entram todos em bicha pela igreja dentro, 
como os Pierrots nos bailes de mascaras de S. 
Carlos, fazendo um alarido cheio de risadinhas e 
de ditinhos trocados a meia voz. 

O snr. Silva depois de esforços enérgicos con- 
segue penetrar no templo c^ni a familia agarrada 
ás abas da casaca. 

— Onde está a raposa ? diz-lhe uma voz tro- 
cista dentre a multidão. 

As meninas Guerreiros riem muito, com a^ 
suas mantilhas pretas preg:adas nos cabellos meio 
desmanchados. 

O snr. Silva faz que nã'"' '->vve. e continua ?. 
puxar a familia. 

O pai Guerreiro, voltando-se para traz para ' > 
pai Pimenta, que lhe não larg^a as al)as. grita-lhe 
ao ouvido: 

— Está muito linda, esta ! 

— Ah I estão já á festa ! responde o pai Pi 
menta muito satisfeito de si : eu bem dizia ; esti- 
\eram a demorar-se tanto no Coco ! 



A Comedia de Lisboa 269 



O chai^éo do snr. Silva está já ao pé da têa. 

O MUNICIPAL. — Não se pôde entrar! é só 
para a familia dos irmãos! 

O snr. Silva estaca: a bicha pára: e o chapéo 
oscilla lá em cima. 

A SNR.^ Silva (ao niarido). — O" menino, vê 
se furas. 

O snr. Silva não responde, mas também não 
fura. 

A MKxixA Guerreiro (á menina Pimenta). 
— Olha, está alli o córadinho, o homem do pas- 
seio da Estrella. 

A MExiXA Pimenta. — Onde, onde está elle.^ 

A MExiNA Guerreiro. — Está alli, filha... 
(Teste lado... ao i^é d"aquelle militar. 

A MEXIXA PiMEXTA. — Já vejo, já vejo! Elle 
não está alli por bom... Aquillo é namoro que elle 
tem cá... 

A MENINA Guerreiro. — Elle ainda não nos 
viu... Estás com ferro, hein? 

A MENINA Pimenta. — Estás douda! Eu im- 
porto-me lá com aquella figura... Olha, olha, está 
a derriçar aquella typa que está ao pé d'elle, ao 
lado de cá da têa, não vês ? 

A SNR.a Silva (ao marido). — Fura... 

A menina Guerreiro. — Tens olho para is- 
so. E' verdade, olha... está a fallar com ella... 
espera... Oh! meu Deus. que scena! 

A MENINA Pimenta (furiosa). — Elle sem- 



A L.OMEDIA DE IvISBOA 

pre é um petisco... E que figura que elle está a 
namorar... Aquillo é alguma sopeira... 

O PAI PiME^NTA (lá de trás, debruçando-se por 
cima do pai Guerreiro, á menina Pimenta). — 
Então, menina, vamo-nos embora. A gente não 
ha-de ficar aqui entalada toda a tarde. 

A MENINA Pimenta. — Espere, papá, que se 
vai agora ao Lava-pés. 

O PAI Pimenta. — Doem-te os i>és? Mais 
uma razão... Eu bem te disse que não trouxesses 
essas botas . . . Teimaste ! 

O PAI Guerreiro. — Aquella que está alii 
sentada ao pé do altar-mór, não é a Theodolinda? 
E'...é... 

A SNR.a SiEVA. — E'. Como se encaixou ella 
alli... E lá está o Álvaro, olhe... quasi ao lado 
d'ella... encostado á porta. 

A MENINA Guerreiro. — E' verdade; Pois 
elles também não são irmãos. 

A SNR.a SiEVA (empurrando o marido que 
estava despercebido e que ia cahindo sobre a sen- 
finclla). — Anda, menino, fura. 

O MUNiciPAE. — Já lhe disse que d'aqui par'i 
cima é só para as familias dos irmãos. 

A SNR.a Silva (m,uito espevitada). — Mas eu 
vejo lá dentro gente que não é irmã... Só se o 
Álvaro entrou hoje para a confraria. 

A MENINA Pimenta (com um risinho maldo- 
so). — Já entrou ha muito tempo. 



A CoAíKniA PK LisnoA 271 



O MUNICIPAL. — Eu não tenho nada com is- 
so... Cumpro as ordens que me dão. 

O SNR. Silva (conciliador). — Tem muita ra- 
zão. Faz o seu dever. 

A MENINA Pimenta (á nienina Guerreiro) . 
— Olha. O coradinho já me viu... Não tira o.> 
olhos de cá..* Pois fazes bem. Estás servido, 
meu amor... 

A SNR.a SiEVA (atirando-se a um irmão do 
Santissimo, todo frisado e einhandolinado, qtie 
vem fazer entrar duas senhoras). — Oh senhor! 
oh senhor ! Nós podemos entrar, visto que está 
lá a Theodolinda... Não somos menos que ella. 

O irmão do Santissimo, em toda a sua gravi- 
dade e importância, não faz caso da interpellação 
e vai-se retirando. 

• A SNR. a Silva (scguindo-o com a bicha e dei- 
xando o snr. Silva a cavaquear discretamente 
com o municipal)., — Sou a mulher do commen- 
dador Silva. 

O IRMÃO (ao scntineUa). — Não deixe entrar 
essa gente. 

A SNR.a Silva (em voz alta). — Essa gente? 
Sempre é muito malcriado ! Ora não ha ! Essa 
gente! Ora o carola... 

O PAI Pimenta (apurando o ouvido e olhan- 
do para os púlpitos). — Ah! começou o sermão! 
onde está o pregador?... 

Varias vozes indignadas. — Schiu ! Schiu ! 



A Comedia de Lisboa 

O SXR. Silva ( nniifo corado). — Então, me- 
nina, estão todos a olhar para nós. 

A MENINA Guerreiro. — Está alli o Barata 
de capa vestida. Se elle nos visse!... Naturalmen- 
te foi elle que fez entrar a Theodolinda. 

A SXR. a Silva fao marido). — Vê lá se o 
chamas ! 

O snr. Silva não responde, mas também não 
chama. 

A SNR.a Silva (furiosa). — Credo! que mo- 
no! (Começa a gesticular fiiítifo com a sombri- 
nha). 

O snr. Barata, que está lá ao fundo, de casaca, 
luva roxa e gravata roxa como a capa dos padres, 
vendo aquelle borborinho cá em baixo e uma som- 
brii?ha no ar. vem atropellando toda a gente, pé 
no collo d'uma mulher, pé no chapéo d'um ho- 
mem, vêr o que é e restabelecer a ordem. 

O SNR. Barata (á scntinella). — Camarada, 
mande sahir essa gente que está a perturbar a or- 
dem, que deve sempre ser o apanágio d'estas so- 
lemnidades respeitosas. 

A família Guerreiro e Pimenta (cm coro 
ao rcconheccl-o). — Oh snr. Barata! 

O SNR. Barata (reconhecendo a bicha e cur- 
vando-sc cortesmente). — Oh! mil perdoes, meu 
nobre amigo, minhas illustres senhoras. Não sa- 
bia que eram vóscellencias. Então não entram... 
entrem, entrem, ainda assistem á ceremonia do 



A CoMítruA DK Ltsp.oa 273 



mandato, é uma ceremonia muito bonita, que tem 
muito que vêr... A miulia madama está dando a 
ultima demão nOvS anjinhos que hão-de dar as 
toalhas aos dozes apóstolos. Entrem, então ! ve- 
nham para ao i^é da snr.» D. Theodolinda, que 
também cá está. 

O municipal afasta-se respeitoso : e a bicha 
precipita-se pelo cruzeiro acima, levando á sua 
frente o chaj^éo do snr. Silva e a capa encarnada 
do snr. Barata. 

A snr.'"^ Silva, a mana e a amiga Pimenta fo- 
ram sentar-se todas ao pé de Theodolinda, en- 
clieram-na de beijos, de festas, de perguntas e de 
encontrões. 

Os pães Pimenta e Guerreiro e o snr. Silva, 
acompanhados pelo snr. P>arata, vão para junto 
de Álvaro, e começam a fallar com elle acerca 
do Alviella. 

O SNR. Barata. — Agora dão-me licença? 
sim, vou lá dentro á sacristia ajudar a madama a 
jxM* as azas... 

E sabe todo risonho fazendo as "suas mesu- 
ras graves e solemnes antç os altares illuminados. 

No altar-mór reina grande animação. Os ir- 
mãos do Santíssimo, com as suas capas constei - 
ladas de nódoas, com as suas iDÔpas ensopadas 
em macassar, erguidas sobre as testas curtas e 
chatas, fazem as honras do templo e dispõem do 
céo como quem dispõe da sua casa. 



274 A Comedia de Lisboa 

Esses dias são os seus dias de sensação, de 
siiccesso, o seu S. Martinho. 

Hontem e amanhã ningiiem faz caso d'elles, 
são uns pobres diabos sem importância, que pas- 
sam a vida de todos os dias nas casas de despa- 
cho da freguezia e da alfandega, nós balcões dos 
seus escriptorios, nas portas das suas lojas, cheios 
de ridiculo e vazios de intelligencia, embrulhados 
na sua nullidade até á ponta dos seus cabellos. 
que tresandam a bandolina. 

Hoje é o seu dia; quem manda são elles c 
ébrios de vaidade e cheios de si, tomam a serio 
o seu papel de parentes do Altissimo a 4$8oo por 
patente. 

O irmão do Santíssimo que dissera á senti- 
nella que não deixasse entrar «essa gente», a') 
vêr o snr. Silva lá em cima reponta com elle e vai 
logo saber quem o deixou entrar. 

O Lava-j^és começa: o snr. Barata e sua es- 
posa vem acompanhando os anjinhos e pegando- 
Ihes nas azas para se não macularem no chão pou- 
co angélico da igreja. 

O padre lava os pés dos doze pobres, que se 
prestam áquelle aceio religioso por um cruzado 
novo, uma tocha e um cartucho de amêndoas. 
Depois vem o sermão. 

— Olha quem é o pregador! é o «Dominus 
vobiscum !)) diz Theodolinda á snr.^ Silva. 

— E' verdade ! oh que massador ! accrescenta 
a menina Guerreiro. 



A Comedia de Lisboa 275 

O «Domiiuis vobiscum)) entrara então no púl- 
pito : era nm homem alto, gordo, muito corado, 
muito pachorrento, muito comilão, e que tinha 
por geito habitual as mãos abertas, como quem 
diz o ((Dominus vobiscum», gesto que lhe dera a 
alcunha por que era conhecido. 

A voz do pregador era uma voz trove jante, 
áspera, cheia de notas graves, gordurosas, notas 
de (|uem come bem. A palavra sahia-lhe arras- 
tada, monótona, pesada, mas volumosa. Tinha 
muito mais peso que feitio. 

Os rr andavam sempre n'uma dança, ajouja- 
dos pelo modo com que o padre carregava n'elles. 
Sibila\'am no ar como settas, e quando o sermão 
mais bem decorado sabia mais rápido dos lábios, 
os rr, não parando nunca no ar, acompanhavam 
o discurso, monotonamente, como o canto estu- 
l)ido das cigarras. 

O orador estava rouco e cançado, era a quar- 
ta vez que n'aquelle dia impingia o mesmo dis- 
curso. Os apóstolos dormiam nos seus bancos 
forrados de encarnado. Theodolinda dormitava 
no calor sensual da igreja, aspirando languida- 
mente esses vagos perfumes de incenso que anda- 
vam no ar: a menina Pimenta pegara de namoro 
com um pequenote iml:>erbe, que tinha a carolice 
galante da adolescência lisboeta : a menina Guer- 
reiro olha\"a ternamente de vez em quando para 
O caixeiro de uma loja de pannos de linho, que 



276 A Comedia de Lisboa 

estava defronte, todo penteado e almiscarado; a 
snr.a Silva escabeceava ; Álvaro pensava no A\- 
viella; o pai Guerreiro dormitava, e quando os /v 
se succediam com mais frequência na oração re- 
ligiosa, era acordado pelo pai Pimenta, que lhe 
perguntava assustado : 

— O que é isto? São apitos?... 

Cá em baixo no corpo da igreja, dormia-se. 
namorava-se, havia apertos de mão ternos, doces 
encontrões amorosos, pisadellas lascivas ; as crian- 
ças, quando o pregador se enthusiasmava mais 
verberando a impiedade do século com gritos di- 
lacerantes que justificavam a libra que recebia, 
choramingavam assustadas ; os gatunos, cheios de 
unção religiosa, procuravam lenços nas algibeiras 
do próximo : o snr. Barata olhava para a mada- 
ma: e ambos orgulhosos olhavam para as azas 
dos seus anjos, e iamos a dizer das suas entra- 
nhas. 

Depois de uma hora de aturado discurso, o 
«Dominus vobiscum)), tendo dado em rouquidão 
o que não podia dar em talento, recebeu os aper- 
tos de mão e a. libra da irmandade; bebeu uns 
copinhos de Porto e foi fulminar o vicio para 
outra freguezia. 

O povo começou a sahir da igreja. 

As três famílias reunidas, Álvaro, Guerreiro e 
Pimentas, sahiram juntas da igreja. 

Quando passaram por junto do irmão que a 



A Comedia de Lisboa 277 



tratara pov essa gente, a snr.a Silva deu-lhe uma 
farte pisadella. 

Xa sacristia. es]KM-avam-nas o snr. Barata, a 
esix)sa. e o caixeiro da loja de pamios de linho por 
nome Avelino, que era compadre do snr. Barata 
e que foi por elle apresentado á menina Guerreiro, 
por quem abrazava na divinal chamma. 

Reunidos todos, sahiram para a rua. 

A chuva encharcara as calçadas. 

— Esteve uma festa muito decente e muito 
bonita, não esteve? perguntou o snr. Barata ás 
damas. 

— Muito linda, disseram em coro todos, me- 
nos a menina Guerreiro que ia fallando com o 
A\-elino. 

— E" uma sécca, dizia ella languidamente, es- 
tes dias ; não se sabe o que se ha-de fazer á noite : 
não ha theatros. 

Avelino (que do iiiesiiio modo que a meninu 
Guerreiro ia ao theatro uma ves na vida). — E' 
verdade ! Parece que não é nada, mas sempre faz 
falta. 

N'isto, ao voltar da esquina, Aharo apanha 
uma palmada nas costas que o ia baldeando. Vol- 
tam-se todos assustados, e o snr. Barata tira d:i 
algibeira o apito. 

— Então vêm do pagode das igrejas, hein? 
Eu tenho visitado vinte e duas, fora as ermidas. 
Isto cá é o meu carnaval ! diz o recem-chegado, 



278 A Comedia de Lisboa 

Era o primo noticiarista, todo vestido de par- 
do, chapéo ás três pancadas, olhos pequenos e mui- 
to vivos, e a voz ligeiramente entaramelada. 

— Vamos ao Baltresqui aos «marrons», ac- 
crescenta elle dando o braço a Theodolinda. 

— Eu não sei se essa comida será estomacal 
jara a hygiene da noite, observa o snr. Barata 
guardando o apito. 

Vão todos, para o Baltresqui do Chiado. 

As meninas vão-se i>elos «marrons glacés» e 
pelos «bonbons» ; o snr. Silva prefere os canel- 
lões : o Avelino gosta dos que tem agua de cheiro : 
o primo noticiarista despeja três copos de Carca- 
vellos ; o snr. Barata e a madama apreçam todas 
as caixas e Álvaro bebe apenas agua, pensando 
saudoso no Alviella. 

— Quanto se deve? pergunta o primo noti- 
ciarista. 

— Foi um kilo de «bonhons», uma quarta á<t 
amêndoas, e uma garrafa de Carcavellos : não? 
Três mil, quinhentos e quarenta. 

O PRIMO NOTICIARISTA (inettciido a mão em 
todas as algibeiras) . — Esta é melhor ; perdi a 
bolsa... O' Álvaro, paga lá. 

Álvaro empallidece e executa-se. Sahem to- 
dos do Braltresqui com muitos doces no estôma- 
go : só Álvaro leva fel na alma ; Avelino falia em 
amêndoas, em amor e em roupas brancas; o snr. 
Silva não diz nada, e faz mentalmente os seus 
cálculos da roleta. 



A Comedia div Lisboa 279 



O snr. Barata, dando o Ijraço a sua esposa, 
começa com o pai Pimenta, que o não ouve, uma 
conversa acerca cie religião. 

— Eu cá sou sempre pela religião : não sou 
fanático, isso não, o fanatismo é arma da reacção ; 
mas sou temente a Deus, snr. Pimenta. A reli- 
gião tem muitos lados lx)nitos e estas festividades 
desenvolvem muito o commercio das nações... 



20 



o DIA 25 DE MAIO 



NA RUA 



Parece um dia de procissão; anda tudo na rua 
aos magotes, com o nariz no ar, como quem estu- 
da os astros. As pernas estão cançadas de subir 
escadas, as escadas gemem tristemente no seu lei- 
to de caruncho ao sentirem aquelles contínuos pas- 
sos pesados, carregados pelas solas grossas e pelos 
grandes desesi:)€ros. Nos patamares ha contra- 
danças de interjeições enérgicas, ha can-cans de 
exclamações indignadas ; os echos dançam as wal- 
sas monotona:s do desespero e das rendas caras. 

Toda a gente conhecida que se encontra não 
falia n'outra cousa. 

Theodolinda arranca n'esse dia Álvaro dos 
braços do snr. Pinto Coelho e passeia-o trium- 
phante por todos os becos e travessas á cata d'um 



A Comedia de Lisboa 281 



domicilio barato. O pai Pimenta arrasta a sua 
surdez por todos os prédios que têm escriptos e 
deixa cm cada casa que vê uma scena homérica 
da inesgotável comedia dos ouvidos duros. O snr. 
Siha, emquanto a roleta não abre, passa em re- 
\ista todas as janellas da cidade, sempre silencio- 
so e grave com sua mulher pelo braço, á procura 
de uma casa maior onde caiba a familia que está 
para augmentar, o que a snr.^^ Silva encobre co- 
quettemente n'um amplo guarda-pó barato. 

O pai Guerreiro e a filha solteira seguem-n'os 
a reboque e atraz o appendice implacável, o snr. 
.\\elino dos pannos de linho, que é inevitável no 
couce da familia desde a ceremonia do Lava-^^és. 

N^a rua dos Bacalhoeiros encontram-se todos 
defronte dAim sexto andar, que tem escriptos mal 
cortados n'uns vidros poucos limpos. 

Apertam-se as mãos, trocam-se beijos e infor- 
mações acerca das casas vistas. 

TiiKODOLiNDA. — Tudo pela hora da morte, 
menina! Xa rua da Condessa tiveram o atrevi- 
mento de nos pedirem, quanto foi, Álvaro? 

Al\'aro (cuin o ar de homem que mexe em 
cifras). — Cento e oitenta mil réis. 

Theodolinda. — E' isso, duzentos e oitenta 
mil reis jjor um cochicholo com quatro casinhas 
pequenas. 

Álvaro (ferido' no sen amor próprio de em- 
pregado da companhia das agitas). — E sem agua. 



íSj a Comedia de Lisboa 



A SNR.a Silva. — Não te admires, menina : 
na travessa do Catefarás pediram-me trinta libras 
por uma casa que estava a cahir. 

O PAI Pimenta (com concha no ouvido c que- 
rendo nicttcr-sc na conversa). — Está a cahir? 
Xão admira, talvez almoçasse cedo. 

A menina Guerreiro (sem fazer coso do 
surdo). — E é pena, porque o sitio era tão bom. 
tão central... 

A menina Pimenta. — E ficavam com o ame- 
ricano ao pé. 

O PAI Pimenta (insistindo em conversar). — 
Já te doem os pés... eu bem dizia que trouxesses 
outras botas... E' forte mania!... Queres andar 
sempre com o pé afiambrado!.,. 

O pai Guerreiro. — Eu sempre disse que 
era muito melhor ir á agencia Constância. 

O pai Pimenta (muito contente). — Ah! sim. 
este\'e com a D. Constância? Ha muito tempo 
(|ue a não vejo ; pensava que estava ainda fora. 

O pai Guerreiro (gritando muito).- — Não 
é isso... Agencia Constância... Agencia... Dizia 
eu que é muito melhor as agencia que tratam das 
casas; vai a gente lá... 

E continuou em altos berros a explicar todo o 
systema das agencias de casas ao pai Pimenta. 

A SNR.a Silva. — Eu vou agora vêr aquelle 
sexto andar. E' alto, mas deve ter boa vista. Va- 
mos, Silva? 



A Comedia dk Lisboa 283 



O snr. Silva não responde, mas arqueia o 
l)raço com l)oa vontade. 

Thkodolinda. — E nós vamos também. Tal- 
vez nos sirva. (Olíiando para Álvaro com certo 
rancor) — Somos só dous. 

.Vlvaro (disfarçando com mau humor). — 
Mas \'ê lá, menina, as horas, ás três tenho qne 
estar no escriptorio... Aquelle demónio do Al- 
viella... 

A MKNiNA Pimenta. — E eu também subo; 
assim como assim é mais uma casa que se vê... 
eu oósto muito de vêr casas, para mim é um di- 
\'crtiniento. 

A SNR.''^ Silva (muito pausada, com ares de 
scnJwra). — Dizes isso ix)rque és solteira, filha. 
Em tu salxMido o que é uma casa para mudar... 

O PAI Pimenta (vendo ir todos para a esca- 
da). — O que é isso? Para onde vão? 

A MENINA Pimenta. — Vamos vêr o sexto 
andar.. 

O pai Pimenta. — O que? Ainda outro? Na- 
da, vão vossês que eu espero ua escada. 

O PAI Guerreiro. — Eu l>em dizia que era 
melhor ir a uma ag-encia. Eu não sei se o snr. 
Silva está ao facto das agencias... 

O Silva não resjxinde. mas sobe mais depressa 
a escada. 



A Comedia de Lisboa 



NO SEXTO ANDAR 



No patamar renne-se concilio acerca da esca- 
da que tem os aromas acres e doentios das escadas 
da baixa. 

— - Ha por aqui muitos gatos, diz o pai Guer- 
reiro interrompendo pela primeira vez durante os 
seis lances de escada a sua historia das agencias. 

— E' verdade, ajx^ia a menina Guerreiro, ti- 
rando da algibeira um lencinho tresandando a 
agua de colónia ordinária. 

— A escada é alta mas é boa, diz a snr.^ Sil- 
va subindo os últimos degraus muito cançada. 

— E' um pouco escura, observa a menina 
Guerreiro esbarrando no Álvaro. 

— E é muito alto, olhem que isto para subir 
quatro vezes ao dia é de matar, geme Álvaro, 
sentindo já o cansaço das subidas que o esperam. 

— Então já chegaram? troveja lá do fundo da 
escada o pai Pimenta, obrigando os inquilinos do 
primeiro andar a vir á porta \'êr que berraria é 
aquella na escada. 

Theodolinda bate á porta. No patamar faz-se 
silencio, interrompido apenas pelo arquejar forle 
dos pulmões cangados. 

— Quem é? grita de dentro uma voz feminina 
cantada á minhota. 

— Faz favor? responde cá de fora com infle 
xão amável Theocjolinda ; i^óde-se vêr a casa ? 



A CoMKDiA DE Lisboa 285 



A ])orta abre-se e apparece uma dama, muito 
alta, muito gorda, muito corada, com um seio 
proemiuente, um cabello negro e encrespado le- 
vantado em alta popa sobre a testa trigueira e 
chata. 

— Tem a 1x)ndade de entrar ; eu já mostro a 
casa a vv. s.'is 

Entra tudo pela casa dentro, uma saleta pe- 
quena, com crochets em cima das mesas, castiçaes 
de vidro com bobccJics de papeis de cores, stores 
de panno pintado com paizagens côr de café, re- 
presentando invariavelmente um rapaz pescando 
á linha em cima d'um rochedo. 

A DONA DA CASA. — Isto é a casa d'entrada... 
está um tanto derrocada, mas desfructa-se da ja- 
iiella um lindo ]:)anorama. Querem ter a bondade 
de vêr? (Abre a janclla e o vento entra furiosO' 
como um boi iia praça). — Olhe, alli fica o Ter- 
reiro do Paço, além S. Pedro de Alcântara, acolá 
o theatro de D. Maria, aquillo que se vê ao longe 
é o zimbório da Estrella... 

O PAI GuERRKiRO (pondo o cJiapco). — Se 
me dá licença... Aqui está uma corrente d'ar... e 
eu venho a transpirar. 

A DONA DA CASA. — Pois uão ! á sua vontade. 
A casa é muito batida pelo sueste... mas é muito 
varrida d'ares... é muito hygienico, mas incom- 
moda... E v. s.^ tem razão em tomar conta em 
si ; se meu marido tivesse posto o chapéo quando 



286 A Comedia de Lisboa 



chegava á janella, talvez eu não estivesse hoje en- 
lutada pelo seu passamento... 

O PAI Guerreiro (emquanto o resto da fa- 
inilia conversa acerca da casa dividindo-a a seu 
hcl-prazcr). — Ah! v. exc.a é viuva? 

A DONA DA CASA (com lagrhuas na voz). — 
Pertenço' a essa triste classe ha dous annos, desde 
que perdi o meu marido. Talvez v. s.^ tivesse ou- 
\'ido f aliar n'elle, o major Saraiva... elle era mui- 
to conhecido... tinha muita representação... Ah! 
se elle fosse vivo ainda, não tinha eu hoje que 
chorar a sua morte ! 

Álvaro (iuipacientc, vendo o relógio). — São 
já duas e meia, filha. 

Theodoeinda. — Quantas casas tem mais? 

A DONA da casa. — Eu já mostro... 

Passam todos ás outras casas. Uma sala pe- 
quena, um quarto de dormir com a parede estu- 
cada em cortinados côr de rosa desbotada e o 
tecto de madeira todo a abrir-se em fendas. 

A SNR.a SiEVA. — Olha, o quarto é bom; c 
líerço póde-se pôr aqui também. 

Theodoeinda. — Credo, menina, que ideal 
metteres o ])equeno no quarto, é um inferno de 
noite... 

A DONA' DA CASA. — Isso é, minha senhora. . 
O menino já é crescido? 

A SNR.a SiEVA. — Por cmquanto ainda não 
sei se será menino ou menina. 



A Comedia pE Lisboa 287 

A DONA UA CASA. — Ah! aiiida não nasceu? 
V. exc.a ainda não exerceu a maternidade?... E' 
um lance bem tormentoso. Já passei por elle, mi- 
nha senhora... 1'ive uma menina que fechou os 
oHios á vida mal os abriu ])ara o mundo... V. exc.'' 
é casada ha pouco tempo? 

A SNR.a Silva. — Ha oito mezes. 

A DONA DA CASA. — Deus OS couservc. O 
matrimonio, minha senhora, é um estado muito 
bonito, tem muitos prazeres, mas tem também 
transes fataes. 

Theodolinda. — A senhora é casada? 

A DONA DA CASA. — Fui, minha senhora, fui, 
com um homem cpie me estimava muito... aquillo 
tinha-me um affecto que passava as raias da ado- 
ração. Talvez o conhecesse... o major Sarai- 
va... Ah! era um homem como uma torre... fo- 
mos casados dezoito annos e nunca tivemos um 
minuto em que se dissesse que estávamos arre- 
pendidos de ter dado o indissolúvel laço... A nos- 
sa vida era um jardim cheio de rosas perfuma- 
das... De repente veio o tufão... a chuva de gra- 
nito... e de um momento para o outro, achei-me 
n'um bosque, coberta com o crepe da viuvez. 

Álvaro (a Theodolinda). — O' menina, olha 
que são três menos um quarto. 

A DONA DA CASA. — Vamos vêr as outras 
casas. 

Passam á cozinha, (picstionando acalorada- 



288 A Comedia de Lisboa 

mente acerca do lugar do berço, a snr.a Silva e 
sen marido que só lhe responde por monosyllabo.s. 

A DONA DA CASA. — Isto aqui é a cozinha. 
Tem muita luz... Eu sei, minha senhora, o que são 
casas toas... Já as tive... mas bem sabe que uma 
casa quando perde o chefe, e quando esse chefe 
é tudo, fica sem nada. Então elle, que homem 
f|ue era para sua casa... Aquillo não me faltava 
cousa alguma... adivinhava-me os pensamentos... 
Marido como aquelle. ha poucos... O nosso amor 
não era como esses que rejo por ahi. era um amor 
puro — Ah! isso é a carvoeira... leva três sac- 
cas... — suave e eterno. 

O SNR. Silva (foliando pela prinicira vez). 
— E quanto é por semestre ? 

A DONA DA CASA. — Oito mocdas de ouro! ó 
de graça, com a carestia dos domicilies domésti- 
cos. — Eu mudo-me porque vou para o quarto 
fronteiro que é mais barato. 

A SNR.a Silva (aterrada). — O que? a senho- 
ra fica n'esta escada? 

A DONA DA CASA. — Aqui mesmo defronte. 
E se vierem pára cá. hei-de-lhes fazer muita com- 
panliia... porque a solidão é um deserto sem oásis. 

Uma VOZ de stentor (echoando pelos seis 
lances da escada). — Então já chegaram? 

A MENINA Pimenta. — Ai! é o papá que In 
está em baixo. Tinha-me esquecido. 

A SNR.'i Silva (depois de ter conferenciado 



A Comedia dr Lisboa 289 

com o inarido). — E quem é o senhorio da casa? 

.\ DONA DA CASA. — Sao as siir.as Gaviões, 
limas fidalgas d'alta linhag-em que moram ao Cas- 
tello. 

-\ SNR.a Silva (ao marido). — O melhor é 
ires lá já para segurar a casa. 

TiTKODOLiNDA, — K uós coutinuarcmos no 
nosso fadário., 

O PAI Guerreiro. — O melhor é irem á 
agencia. Para isto de casas é um descanço. 

Álvaro. — Nada ; eu onde vou é para o es- 
criptorio. 

Despedem-se da viuwa Saraiva, sahem todos, 
descem a escada discutindo em altas vozes a casa. 
Cá em baixo têm de explicar tudo ao pai Pimenta 
que faz esforços inauditos para ouvir. Separam- 
se todos : as meninas Guerreiros, Pimenta e Theo- 
dolinda seguem o seu caminho; Ah^aro vai para 
o escriptorio das Aguas, e o snr. Silva, o pai Pi- 
menta e Guerreiro, sobem em passo de carga ao 
Castello. a casa das snr.'^^ Gaviões. 

EM CASA DO SENHORIO 

Uma casa immensa, cheia de retratos de fa- 
mília e de têas de aranha, de tapetes e de buracos. 

Ao fundo da ultima sala em frente d'uma 
mesa as três snr.'is Gaviões pareciam um quadro 
mythologico — as três Parcas. — O snr. Silva, o 



jyo A Comedia de Lisboa 



pai Pimenta e o pai Guerreiro entram cumpri- 
mentando gravemente. 

A pedido do snr. Silva, o pai Querreiro toma 
a palavra. 

— Minha senhora, nós vimos aqui para alu- 
gar a casa de v. exc.^- na rua dos Bacalhoeiros — 
o 6.0 andar. 

— Sim, senhor. Sabem quanto é a renda, não ? 
O PAI Guerreiro (qíierendo ver se poupa ol- 

giniia cousa). — Sete moedas por semestre. 

— ■ Perdão, oito, diz a snr. a Gavião severa- 
mente. 

O PAI Guerreiro (corrido). — Oito, exacta- 
mente, tinha ouvido mal. 

— Querem fazer o arrendamento, não ? 

Os três olham-se desapontados, consultando as 
bolsas. 

O pai Pimenta (sem perceber). — O que é? 
aluga-se só pelo verão? 

O PAI Pimenta (tlinidainente). — Não vinha- 
mos prevenidos. 

A SNR.^ Gavião. — Isso é o mesmo, deixam 
um signal. 

O snr. Sieva (espremendo o porte-monnaie e 
pondo a medo /$/30 em miúdos em cimo da me- 
sa) . — Será bastante ? 

A snr. a Gavião. — Exactamente, eU passo o 
recibo. E' melhor assim. 

O PAI Pimenta. — Ah! Tem jardim, isso é 



A Comedia de Lisboa 291 



bom. não me tinham dito. Mas admira, n'um sex- 
to andar... 

Um momento de silencio em quanto se escreve 
o recibo. 

O PAI Guerreiro (Icvantando-sc, curvando- 
sc e encostando-sc á mesa, obedecendo á sua preoc- 
cupação constante). — Então a senhora não pôde 
fazer isso mais baratinho? 

A SNR.a Gavião (depondo a penna e excla- 
mando dramaticamente) . — E os encargos de se- 
nhorio ? 

O PAI Guerreiro (desanimado). — Está 
bom, está bom, se não pode ser... 

A snr.a Gavião assigna o recibo, dobra-o e 
dá-o ao snr. Silva, perguntando : 

— Está confoiTne ? 

O PAI Guerreiro (espreitando por cima do 
liond)ro do snr. Silz'a). — Sim. senhor, está muito 
bem escripto. 

Os três sahem. 

A' porta da rua o pai Guerreiro toma o braço 
do snr. vSilva e diz-lhe em confidencia: 

— Não foi caro... mas se tivéssemos ido á 
a«encia... 



A PROCISSÃO DO CORPO DE DEUS 



A casa de modas e confecções do siir. Barata 
está cheia de gente. A procissão do Cor^x) de 
Deus é um grande reclame para a casa. 

A snr.a Barata desentranhou-se em colchas de 
cores espantadas para pendurar nas janellas. O 
snr. Barata passou toda a manhã a delinear o copo 
d'agua que devia offêrecer á tarde aos seus con- 
vivas e que seria no dia immediato fallado nas fo- 
lhas com elogios á amabilidade dos donos da 
casa e á modicidade e excellencia dos géneros á 
venda. 

Os offerecimentos das janellas foram feitos 
com muita antecedência e instancia. A pena era 
serem só três as janellas. O que se havia de fa- 
zer? Accommodassem-se como podessem. O es- 
sencial era que fossem, que chamassem a atten- 
ção do publico para as janellas transformadas em 



A Comedia de Liskoa 293 

painel das almas, e que no dia immediato se dis- 
sesse : ((Teve uma enchente real hontem, o afama- 
do atelier de modas do snr. Procopio Barata». 

A's duas horas, o snr. Barata e sua esposa, 
jantados á pressa, estavam a postos á espera dos 
convidados. 

Xa rua havia o reboliço das festas populares ; 
a areia encarnada estalava debaixo das botas dos 
que passavam ; o rodar dos trens tinha um som 
molle e fofo ; os vendedores d'ag"ua, de pasteis e- 
de limonadas começavam a encher os echos com 
os seus pregãos cantados e de vez em quando 
ouvia-se, ao longe, a corneta estridente dos regi- 
mentos que caminhavam para a festa. 

A's duas e meia principiaram a chegar os con- 
vidados. 

Os primeiros foram as meninas Pimentas e o 
senhor seu pai. 

Elle vinha muito suado, com o seu fato preto 
todo muito escovado, a sua gravata alta de setim 
lustroso, e um lenço de .seda da índia, ci^m dese- 
nhos amarellos e pretos, jwsto em mcMho, como 
uma esix)nja, em cima da calva luzidia. 

As meninas Pimentas vinham com uns vesti- 
dos novos e irmãos estreados n'esse dia; toilette 
de verão, fresca, espectaculosa e menineira. Uns 
vestidos de cambraia côr de laranja, todos cheios 
de folhos, com uns puffs enormes e semeados de 
laçarotes amarellos e azues, e uns chapéos á pas- 



294 -^ Comedia de Lisuoa 

tora, de palha barata, enfeitados com grandes ro- 
sas amarellas, papoulas e flores azues, e com fitas 
côr de laranja cabidas i>elas costas abaixo. 

O snr. Barata receben-os bem. mas com certa 
frieza, e com uns ares de superioridade de quem 
esjDera pessoas de muito mais alta jerarchia. 

A snr. a Barata olhou desconfiada para os ves- 
tidos que não tinham sido feitos em sua casa e 
mirou-os com um sorriso desdenhoso. 

As meninas Pimentas, apenas entraram, enfia- 
ram logo para a janella. A rua ia começando a 
encher-se de basbaques e defronte das janellas, na 
escada d'um prego luxuoso, estava encostado, 
n'uma pose lyrica, um sargento aspirante de ca- 
çadores, que arrastava agora a aza a uma das 
meninas Pimentas, com graves ciúmes e desespe- 
ros do snr. Avelino dos pannos de linho, que se 
via assim preterido pelo exercito. 

A snr.a Barata acompanhou as meninas á ja- 
nella, escrava dos seus deveres de dona da casa. 

O snr. Barata ficou conversando com o pai 
Pimenta. 

O SNR. Barata. — Hoje é que é o primeiro 
dia de verão, póde-se dizer. 

O PAI Pimenta. — Nada, nada, comer por 
ora não: acabei agora mesmo de jantar; agora 
o que eu bebia era um copo d'agua com assucar. 

O SNR. Barata. — Com cognac, é melhor. 
(Binendando-se, para mio encetar a garrafa pre- 



A COMKDIA DK Ll>C(J.\ 295 



parada para os convidados de mais importância) 
Um vinho de Torres que alli tenho, que é niagni • 
íico com agua ! Uma sangria, como lhe chamam, 
um nome bem posto porque é tão salutar como 
as armas de que se serviam d'antes os facultativos 
])ara combater certas enfermidades. 

E foram ambos á casa de jantar preparar a 
sangria ; mas o snr. Barata deixou a operação em 
meio porque sentiu bater á porta. 

Era o commendador Raposo, segundo ofíicial 
de secretaria, sua mulher D. Eulália, senhora de 
alta linhagem provinciana, carregada de sedas, 
(Touros e de cabellos postiços, e seu filho o Ouim- 
quim, um pequeno de cinco annos, modelo de 
fealdade e de má creação, que parecia ter ser- 
vido ao Padre Eterno para a confecção do Ma- 
caco specimen. 

O snr. Barata curvou-se perante aquella fami- 
lia que lhe ia encher a casa de honra e de nódoas. 

A D. Eulália sentou-se gravemente no meio 
do sophá verde, o commendador disse umas cou- 
sas amáveis á snr.a Barata e sentou-se n'uma ca- 
deira de palhinha, «de que gostava mais de verão», 
e Quim trepou para cima d'uma poltrona pondo-se 
a experimentar as molas com os pés todos encar- 
nados da areia da rua. 

Os olhos dos esposos Baratas iam-se no estofo 
das suas queridas cadeiras, emquanto ouviam com 
delicados acenos de cabeça a con\ersa espirituosa 

21 



296 A Comedia de Lisboa 



(las suas visitas, ao passo que o pai Pimenta, lá 
dentro a sós com o guarda-louça, optava por meta- 
de d'uma sangria, isto é, pela metade do vinho. 

D. Eulália. — Meu marido, coitado, fez um 
grande sacrifício em vir cá. Teve convite para ir 
na procissão com a corte, e o ministro ainda hon- 
tem lhe pediu muito que não faltasse, porque po- 
dia sua magestade reparar. Mas eu tanto lhe pedi 
que viesse commigo que elle mandou dizer ao mi 
nistro que estava doente. Isto, minha senhora, 
não são só honras, tem tamhem muitos encargos. 

A SNR.a Barata. — Massadas agradáveis. 

D. Eulália. — Sim, porque o Raposo é muito 
amigo- d'el-rei e el-rei muito amigo d'elle. Não 
ha consideração que lhe não faça e quando nos 
encontra na rua sempre nos cumprimenta. 

O SNR. Barata. — Isso é timbre dos nossos 
monarchas : é hereditário como a nobreza no san- 
gue dos reis d'este abençoado torrão de Portugal. 

Raposo. — Ah ! tanto suas magestades como 
os senhores infantes são muito agradáveis para 
todos : mas francamente, isto da procissão é muito 
massador. 

O SNR. Barata. — Mas então ! é preciso dar 
prestigio á coroa, sobre tudo agora que os abu- 
tres do socialismo tentam levantar a fronte cri- 
minosa. 

Raposo. — Isso é lá para fora, no estrangeiro. 

O SNR. Barata. — Felizmente, snr. commen- 



A Comedia de Lisboa 297 

dador, felizmente. Cá não chegam elles emquantc 
tivermos no nosso estandarte as cinco quinas que 
Christo deu a Affonso Henriques em Ourique. 

D. Eulália. — Diz muito bem, snr. Barata, 
a religião tem sido o nosso escudo. 

O SNR. Barata. — E o galardão e timbre de 
todos os portuguezes. 

Bum ! bum ! bum ! bum ! 

E' a poltrona que cabe de costas com o Quim 
escarranchado em cima. 

— O que é isto, meu Deus ? gritam as meni- 
nas Pimentas correndo para dentro de casa. 

— E' este endemoninhado que não pôde estar 
([uieto, diz a mãi, levantando o pequeno pelas ore- 
lhas e dando-lhe safanões. 

OuiM. — Ai! ai! ai! deixe-me mamã. deixe- 
me. An ! an ! an ! 

O SN.R. Barata k a snr. a Barata (levantan- 
do a cadeira carinhosamente). — Não foi nada! 
não foi nada ! 

O COMMENDADOR. — Eutão, filha, deixa o pe- 
queno. ■ (Aos Baratas) São crianças, l>em sa- 
bem. 

Oi'iM ( f agindo da niãi e fa::end()-lhe caretas) 
— Ah sua mulata ! como diz o papá. 

O papá e a mamã parecem dous pimentões. 

A AlÃi. — Oh menino ! não vê que está diante 
de gente de fora! Não tem vergonha d'estas se- 
nhoias? (Aponta para as meninas Pimentas). 



A Comedia de Lisboa 



QuiM. — Não são más senhoras, isso na mi- 
nha terra são mascaras. 

As meninas Pimentas enfiam e voltara para 
a janella. 

O pai Pimenta entra muito vermelho na sala. 
cumprimenta todos e senta-se a um canto medi- 
tando nos ef feitos salutares das sangrias. 

N'isto ouve-se um grande borborinho na rua. 
E' a procissão. Vai tudo para a janella e o snr. 
Barata e a esposa repoltream-se sós n'uma ja- 
nella. desgostosos por ter vindo gente de menos 
-e terem mandado comprar bolos de mais. 

A procissão começa. Vão os pretos adiante, 
com a sua musica tradicional e segue-se o estado 
de S. Jorge. 

— Lá vão os cavallos novos, diz o commenda- 
tlor á esposa, os marroquinos. 

— Que lindas bestas ! torna o snr. Barata ; 
vejam como os reis estrangeiros vem curvar a 
cerviz ante nós. Isto é uma bofetada na Ingla- 
terra. 

O COMMENDADOR (scin perceber). — Se é!... 

As MENINAS Pimentas (em duetto). — Olha 
que pagem tão galantinho ! 

O SNR. Barata. — Lá vem o homem de fer- 
ro, dizem que é um symbolo do nosso antigo poder 
entre os gentios; será, snr. commendador? 

CoMMENDADOR (atrapalhado). — E', é um 
symbolo. 



A Comedia nE Lisboa 



A SNR.a Barata. — - Como vai bem vestido o 
santo! Que ricas plumas! aquillo não vai alli por 
menos de quatro mil reis cada uma. 

O SNR. Barata (entendedor). — Nada, nada,, 
menos. Aquillo são plumas inglezas. 

A SNR.a Eulália (au marido). — O' menino! 
tira-te para dentro, não te veja el-rei. Póde-se 
escandalisar por tu não teres ido. 

O commendador retira-se discretamente. 

Passa o pallio ; os soldados apresentam arinas. 

O SNR. Barata. — Gosto de vêr isto, a força 
armada prestando homenagem ao Senhor Deus 
dos Exércitos. 

A SNR.a Barata. — Olha, lá vai o conde de 
M..., o visconde de S..., o barão de T... Tudo 
nossos freguezes. Por isso elles não vieram 
para cá. 

A D. Eulália (para dentro). — O' menino, 
esconde-te, olha que el-rei não tira os olhos de cá 

O QuiM (berrando da janella). — O' senhor 
rei, ó senhor rei ! olhe que o papá está aqui es- 
condido. 

D. Eulália ferra-lhe um beliscão, e curva-se 
para cumprimentar a corte. 

— Que lindo espectáculo! diz o snr. Barata de 
joelhos; as duas cortes, a celestial e a humani- 
tária. 

A procissão passa ; os snrs. Baratas servem bo- 
los, licores e sandwichs ; n'isto batem á porta. E' 



A Comedia de Lisboa 

O snr. Silva de calça branca e habito na sobreca- 
saca e sua esposa toda vestida de seda preta, 
muito pesada com as proximidades da grande hora 
da maternidade. 

— Então só agora ? pergunta a snr.a Barata 
ao marido. 

A SNR. a Silva. — Sahimos de casa ha uma 
hora, mas eu é que não posso andar n'este estado, 
foi uma imprudência. (Binpallidecc c desmaia) 

O SNR. Silva (quebrando o sen silencio). ~ 
Então, filha, olha que não estás em casa. 

A SNR. a Barata fafrapalhada). — Hoje é 
lua nova ! ai ! Jesus ! 

A snr.a Silva geme desesperadamente. 

O COMMENDADOR (ao pai Pinicnta). — Aquei- 
la armadura de ferro pesa immenso. o homem 
quando a despe leva uma sangria. 

O PAI Pimenta. — Uma sangria? (Coinsi 
go). Que pena não ser eu homem de ferro! 

A snr.a Silva é recolhida ao quarto dos côn- 
juges Baratas no meio de grande alarido; e quan- 
do o snr. Barata se dispunha socegadamente a 
provar uma sandwich, apparecem-lhe o snr. Silva 
enfiado e a snr.a Barata, que lhe diz tirando-lhe da 
mão a sandwich : 

— Deixa isso, homem, vai depressa com o snr. 
Silva ao posto obstetricio... 



A COMEDIA DA MORTE 



Uni hello dia a morte bateu á porta da fa- 
mília Pimenta. 

E" uma d'essas visitas desagradáveis que não 
ha remédio senão deixar entrar. 

Entrou. Sentou-se á cabeceira do pai Pimen- 
ta, teve com elle um doloroso colloquio, que du- 
rou um mez, e que o encheu de dores, de cáusticos 
e de visitas de medico; e só sahiu quando o viu 
fechar para sempre os olhos ás cousas do mundo, 
e os ouvidos duros ao choro desafinado das me- 
ninas Pimentas, que se viam agora sós no mundo, 
ou antes peor do que sós. mal acompanhadas, com 
uma tia tutora, que vivia lá para o Alemtejo. e 
que viera a Lisboa para as levar para a sua triste 
charneca, quando os gatos pingados lhe levassem 
o pai para a inevita^■el cova. 

O sujeito mais grotesco d'este mundo tem 
sempre, depois de cadáver, uma certa solemnidade 



302 A CoMKDiA DE Lisboa 



lúgubre, que torna a sua casa em theatro de acon- 
tecimento importante. 

A casa das meninas Pimentas transformou-se 
completamente com a doença grave do pai. Tomou 
uns ares de hospedaria das pessoas de amizade. 

Theodolinda e Álvaro metteram-se-lhe em casa 
logo que constou que o enfermo estava perigoso. 

No dia immediato foi a menina Guerreiro, sol- 
teira, que veio installar-se na casa de jantar. 

No outro dia o snr. Silva, sua esposa e o pri- 
meiro fructo dos seus amores acamparam na sala 

O snr. Barata correu a dar mil desculpas de os 
não poder acompanhar n'aquelle transe doloroso. 

— O commercio invade-nos, minhas senhoras : 
a minha madama faz votos pelas melhoras do se- 
nhor seu pai, mas tem de acabar por estes quinze 
dias o enxoval da viscondessa. E' a ordem do 
mundo : uns casam com a viscondessa, outros ca- 
sam com a morte. Então... conformidade... a 
Deus nada é impossivel... A minha madama não 
pôde vir fazer-lhes companhia... Eu, seu esposo, 
tenho os deveres sagrados de cônjuge... mas ve- 
nho cá jantar todos os dias, para as não deixar 
sósinhas, com as suas lagrimas, n'este lance an- 
gustioso por que passam as primaveras da sua 
mocidade... 

E pespegou-se lá a jantar todos os dias. 

O primo noticiarista ia ás noites depois dos 
theatros e das cêas, saber noticias do velho... en- 



A Comedia de Lisboa 303 



trava ás duas e três horas, e lica\a até pela manhã 
a cochichar com Tlieodolinda a um canto, em quan- 
to Álvaro dormia na cozinha por causa do Alviella. 

Mais duas pessoas dedicadas nas suas relações, 
e as meninas Pimentas morreriam de fome antes 
de seu pai deixar o mundo. 

Por fim, uma noite estavam todos na sala a 
discutir, com observações picantes, o procedimen- 
to de Theodolinda, que dormitava vestida no col- 
chão das meninas Pimentas, na cozinha, quando o 
choro ruidoso da tia do Alemtejo que estava no 
quarto do moribundo veio interromper a conver 
sacão. 

Correu tudo ao quarto. 

O velho acabava de expirar. 

Desatou tudo n'um berreiro de lagrimas que 
alvoroçou o prédio. 

Theodolinda acordou estremunhada : poz o ou- 
vido á escuta e percebeu logo o que era. 

/^'varo dormia ao seu lado. Deu-lhe um va- 
lente encontrão. 

— O que é ? o que é ? perguntou Álvaro acor- 
dando sobresaltado. 

— Morreu o Pimenta. 

— Ah ! coitado ! E voltou-se para o outro lado. 
Theodolinda. — Levanta-te. homem ! 
Álvaro (seccado) . - — Para que ? Nós não lhe 

vamos dar vida. Tenho d'ir amanhã cedo para o 
escriptorio. Olha. dorme também e finge que não 
ouviste. 



,Í04 A Comedia de Lisboa 

Theodolinda. — Estás doudo ! Anda. filho, 
põe-te em pé. Vamos para lá chorar, senão pa- 
rece mal. 

Álvaro (levantando-se c enfiando as calças). 
— Oh que massada . . . Porque não havia este ho- 
mem morrer de dia! 

Theodolinda (entrando no quarto do mor- 
to). — O que foi? morreu! Ih! ih! ih! (Atira-sc 
ao pescoço da primeira pessoa que encontra). 

AivVARO (seguindo-a de mau humor). — En 
tão... meninas... resignação... elle não havia de 
ser eterno. 

A MENINA Pimenta mais nova. — Meu po- 
bre pai ! coitadinho ! Ainda me parece impossivel ! 

A MAIS VELHA. — Ficamos sem pai e sem 
pão... Ih! ih! ih!.,. 

A TIA. — Meninas, emquanto tiverem sua ti:i 
nunca lhes ha-de faltar cousa alguma. 

A MENINA Pimenta mais nova. — Muito 
obrigada, minha tia, o peor é elle faltar. 

A MAIS VELHA. — Sim, siuL uma cousa é estar 
na nossa casa, outra andar ás sopas dos parentes. 

A SNR.a Silva. — Olhem, filhas, a minha casa 
em quanto não tiverem outra,' está ás suas ordens. 

O snr. Silva abaixa a cabeça em signal de as- 
sentimento. 

Theodolinda. — Eu não of fereço a minha 
porque é muito pequena, mas assim mesmo... 

A TIA. — Nada, eu sou sua tutora, ellas hão- 
de vir commigo para minha casa. 



A CoMKDiA nE LisnoA 305 



A MKNiNA Pimenta mais velha. — Vão-nos 
nietter no fundo d'uma aldeia. Meu pobre pai! 

A TIA (sentida). — Eu lá tenho vivido desde 
os quinze annos. graças a Deus... 

X'isto sente-se uma forte campainhada na por- 
ta. Um uquem será?» dito em coro. veio inter- 
romper as lagrimas e a discussão. 

Theodolinda correu á porta. 

Álvaro aproveitou o ensejo para voltar para a 
cama : e a menina Pimenta mais velha continuou 
a resmungar em voz baixa contra o Alemtejo, ao 
passo que a tia lhe vibra\-a olhares furibundos, 
tratando de pôr fora do quarto as outras senhoras 
para não se estarem a mortificar mais com o triste 
espectáculo. 

D'alli a muito tempo, quando já ninguém se 
lembrava de que tinham batido á porta, entrou 
pela casa dentro o primo noticiarista, cheio de pa- 
lavras de consolação, e Theodolinda atraz d"elle, 
toda chorosa. 

— Nosso Senhor não ouviu os nossos rogos, 
disse resignada a Pimenta mais nova. 

— Isto são as leis fataes da matéria, minha 
senhora. resix)ndeu com ares superiores o primo 
noticiarista ; quando a vida acaba, o sêr humano 
tem de morrer. 

A TIA. — Tem muita razão, snr. Af fonso Hen- 
riques, a morte é o fim de tudo. 

O PRIMO. — De tudo não. A matéria é infi- 



3o6 .\ Comedia de Lisboa 



nita no tempo e no espaço, provamol-o empirica- 
mente. A minha ultima prelecção no curso su- 
perior foi a esse respeito. A matéria, minha se- 
nhora, a matéria e a força... 

A TIA (interrompendo). — E o enterro, snr. 
Affonso Henriques? parecia-me bem tratar do 
enterro. 

— Exactamente, murmurou uma voz surda e 
lacrimosa no lumiar da porta da casa de jantar. 

— Ai, meu Deus! o que é isto? gritam assus- 
tadas as senhoras. 

— Sou eu, minhas senhoras, diz entrando gra- 
vemente e de lenço na mão o snr. Barata; o medi- 
co disse-me aind'agora que o snr. Pimenta estava 
agonisante e antes de recolher ao meu domicilio 
vinha saber d'elle. 

O choro recomeça no auditório e a Pimenta 
mais velha pergunta a Affonso Henriques : 

— - O senhor deixou a porta aberta ? 

O SNR. Barata. — Os tristes prantos que ba- 
nham todos os rostos desvendaram-me a pungente 
verdade... (Chora) finou-se o meu nobre amigo. 
(Outro tom) Mas agora cessem as lagrimas... 
minhas senhoras, e permittam-me que n'este mo- 
mento solemne paraphraseie um grande dito. O 
marquez de Pombal, o excelso estadista, disse 
depois do tremendo terremoto que assolou Lis- 
boa : «Agora é enterrar os mortos e cuidar dos 
vivos». Vamos ao enterro. 



A Comedia dk Lisboa 307 



A TIA. — Sim, um enterrosinho decente, mas 
não muito taro. 

Affonso Henriques. — Perdão, o enterro 
fica por minha conta. 

As MENINAS Pimentas. — Obrigadissimo, 
snr. Af fonso Henriques ! nunca esqueceremos esse 
obsequio. 

Affonso. — Oh! minhas senhoras, não me 
custa nada: hei-de fazer um enterro com toda a 
pompa — é o uUimo dinheiro que gastam com elle. 

A Pimenta mais velha (desapontada). — 
Ah! isso não; um enterro modesto... meu pai des- 
prezava as grandezas do mundo. 

O SNR. Barata. — Era um heroe. Até n'esse 
desprendimento se parecia commigo. (Ouve-se 
iim ruído na comnha). O que vem a ser isto? 

Theodohnda faz-se vermehia como um pi- 
mentão. 

A menina Guerreiro (indo ver e voltando). 
— E' o snr. Álvaro que está a resonar. 

O SNR. Barata. - — A resonar quando uma fa 
miha geme. (Reparando em Theodolinda). — E' 
verdade que elle tem muito trabalho, e o homem é 
de barro. 

Affonso Henriques (altercando com a mais 
velha). — Isso de forma alguma. Não consinto 
que n'uma casa onde eu venho se faça um enterro 
menos chie. As noticias para os jcrnaes incumbo- 
me eu d'ellas. 



3o8 A Comedia de Lisboa 



O SNR. Barata (interronipendo-o). — Dá-me 
uma palavra, snr. Affonso Henriques? (Lcva-o 
para um vão de janella). — Quero pedir-lhe um 
obsequio... Como sabe, prendiam-me ao finado, 
que hoje todos choram, os estreitos laços da ami- 
zade, e como o meu talentoso amigo é jornalista, 
pedia-lhe o favor de me fazer inserir isto n'uma 
folha mais lida... (Dá-Uie nm papel). 

Affonso. — O que vem a ser isto ? 

O SNR. Barata. — E' um necrológio saudoso 
para ser agradável á memoria d'aquelle que per- 
demos... Prevendo este triste desenlace... escre- 
vi-o n'uma hora de ócio... por saber que depois 
d'elle morto a commoção me embargaria a pen- 
na... Se me permitte eu lh'o leio: 

Ouves ao longe o retumbar da serra, 
O som do bronze que nos causa horror? 
César de Lacerda. 

Já não pertence ao numero dos \ivos Flamiano 
Silvério Pimenta!... 

A parca implacável que, com a sua fouce ne- 
gra e afiada. Ucão poupa jovens nem anciãos, nem 
a fronte das donzellas nem o sceptro dos reis, ora 
estendendo a garra sobre o peito da criança, ora 
cravando o dardo peçonheento no peito immacu- 
lado da virgem, acaba de prostrar mais um nobre 
athleta do trabalho! Sim, do trabalho, esse fecun- 
do manancial da vida ! do trabalho que é o uurnen 



A Comedia de Lisboa 



(las sociedades modernas, e que tanto tem feito em 
])roI da civilisação, quer na velha Roma barbara, 
quer nas modernas sociedades christãs e entre ellas 
entra em linha de conta o nosso bom Portugal, 
este abençoado torrão da Península que se rege 
pela carta constitucional outhorgada pelo immor- 
tal dador, já fallecido. 

Morte ! Morte ! Porque és assim cruel ? Tu não 
sabes que deixas na orphandade inconsolável duas 
innocentes donzellas. a quem esse que acabas de 
prostrar adornou com todas as prendas próprias? 
do seu sexo? Tu não sabes que deixas orphãs, 
d"um bom amigo, tantos amigos no seio dos quaes 
esse venerando ancião repousava a fronte calle- 
jada do trabalho? 

?^Iorte! Morte! Modera os teus furores! Vai 
arrastar a aza negra para os longiquos confins da 
terra, aonde não faças damno á sociedade culta ; 
e já que é impossivel n'este transe remediar os 
teus estragos, permitte que eu, aproximando-me do 
tumulo do que ahi jaz sepultado entre os gelos 
eternos, brade de pé, respeitosamente como o pro- 
pheta Isaias : «Só Deus é grande, e depois d'elle 
só é respeitável o poder da Providencia» ; repetin- 
do ao mesmo tempo para consolo e alento dos que 
ficam, a phrase sublime de Pelletan — Lc monde 
marche. 

FIM 



índice 

PAG 

Prologo ^ 

PRIMEIRA PARTE 

O romance de M.*"* Caprice ^ 

A Semana Santa ... ... i; 

Os ensaios geraes 32 

A quaresma 40 

A sinceridade portugueza 5d 

Os curiosos... 57 

Lisboa de hontem ... ' 

Os divertimentos do domingo 71 

As casas 78 

O dia 24 de julho 85 

O verão 93 

As corridas e as touradas 104 

Os mortos illustres 113 

A policia 120 

Os mortos 130 

Os passeios ao domingo f37 

.\ chuva 147 

O theatro de S. Carlos 155 

A arvore do Natal 161 

A pensão ao actor Santos 170 

Bailes, .soirées, partidas 178 



SEGUNDA PARTE 



O namoro 

O casamento 

O desquite . 

A roleta... . 

A procissão dos Passos 



187 
197 
211 
242 
256 



Quinta-feira de Endoenças 267 

O dia 25 de maio 280 

A procissão do Corpo de Deus 292 

A comedia da morte 301 



Livraria Chardron, de Leilo & Irmão, editorí 

Rua das Carmelitas, 144 — PORTO 



JÚLIO CÉSAR MACHADO 
e PINHEIRO CHAGAS 

Fora da Terra. Caldas da Rai- 
nha — Festas da Nazareth, 
etc. I vol 500 

F. XAVIER DE NOVAES 

Poesias Posthumas . . i$ooo 
JOÃO DE LEMOS 

Serões d'aldêa, i vol. . . 600 
Impressões e recordações. 600 

ALBERTO PIMENTEL 

Guia do viajante nos caminhos 
de ferro. De Lisboa ao Por- 
to — Do Porto a Braga, etc, 
I vol. cartonado com o map- 
pa de Portugal. . . . 700 

O capote do snr. Braz. . 500 

SOARES ROMEO JÚNIOR 

Recordações litterarias . . 500 

OCTÁVIO FEUILLET 

Os amores de Philippe, tradu- 
cção de Pinheiro Chagas 500 

ÇAMILLO CASTELLO BRANCO 

A freira no subterrâneo, ro- 
mance histórico, 4." edição, 
I vol SOO 

Bibliotheca d'algibeira. Noites 
de insomnia. 12 vol. . 2$400 

ANTHERO DE QUENTAL 

Odes modernas, 3.^ edição, con- 
tendo varias composições in- 
éditas, I vol 400 



Considerações sobre- a phill 
phia da historia litterf 
portuguesa ..... 

VISCONDE DE BENALCANF 

Phantasias e escriptores é\ 
temporaneos, i vol. . . 

ScENAs DE viagem: 

Na Itália, i vol 

De Lisboa ao Cairo, i vol. 

AUGUSTO LUSO DA SILVJ 

Impressões da natureza 

JOSÉ DE SOUSA BANDEIRA 

Escriptos humoristicos, em p 
sa e verso, 2 vol. . 1 

CUNHA VIANNA 

Relâmpagos, com um prolf 
por João Penha, i vol 

ERNESTO LEGOUVi 

Historia moral das mulhei 
I vol , , I 

BALZAC 

Physiologia do tnatrimonio 
meditações sobre a felicidc\ 
ou infelicidade conjugal, 
vol i$c 

La Vendetta, i vol. . . c 

CASTILHO 

Theatro de Shakespeare. 
tentativa. Sonho d'uma n. 
te de S. João, drama em 
actos e em verso, i vol. í 



.MT 



í 




PQ Lobato, Gervásio 

9261 A conedia de Lisboa 2. ed. 

L6C53 

1911 




PLEASE DO NOT REMOVE 
CARDS OR SUPS FROM THIS POCKET 

UNIVERSITY OF TORONTO LIBRARY 



vm